Moradores carregam blocos de gelo nas costas até áreas acima de 4 mil metros, juntam partes consideradas ‘masculinas’ e ‘femininas’ e esperam anos até que um novo glaciar passe a fornecer água

Segundo uma reportagem da EuroNews, moradores de comunidades do Gilgit-Baltistão, território administrado pelo Paquistão, sobem montanhas com blocos de gelo acomodados em cestos presos às costas para tentar criar uma nova fonte de água. O material é retirado de dois tipos de glaciares, classificados tradicionalmente como “masculino” e “feminino”, e transportado até locais situados a mais de 4 mil metros de altitude. Ali, os fragmentos são enterrados e protegidos para que, depois de anos de crescimento, possam formar um novo glaciar.
A prática é conhecida localmente como Gang Khswa e corresponde a uma antiga técnica indígena de enxertia de glaciares. O objetivo é aumentar a disponibilidade de água para irrigação, criação de animais e consumo cotidiano em uma região onde o recuo das geleiras vem alterando a quantidade de água disponível durante as estações mais quentes.
O processo, porém, não produz água imediatamente. Depois de receber os fragmentos de gelo, o novo glaciar precisa atravessar vários ciclos de neve. Segundo especialistas ouvidos pela Euronews, são necessários cerca de dez anos para que a estrutura comece a se consolidar e produzir água. Uma década adicional pode ser necessária para que ela cresça o suficiente para se transformar em uma fonte confiável.
Por que os moradores precisam criar novos glaciares
A técnica ganhou importância diante de uma mudança no comportamento das geleiras da região. O aumento das temperaturas acelera o derretimento, o que pode provocar excesso de água em determinados períodos e, posteriormente, reduzir a disponibilidade durante a primavera e o verão, justamente quando comunidades agrícolas precisam do recurso.
O Gilgit-Baltistão está localizado na região do Hindu Kush-Karakoram-Himalaya, conhecida como Terceiro Polo por concentrar uma das maiores reservas de água doce congelada do planeta fora das regiões polares. A água armazenada nas montanhas alimenta rios e sistemas agrícolas que sustentam milhões de pessoas.
Nesse contexto, a enxertia não tenta simplesmente impedir o derretimento de uma geleira existente. A ideia é deslocar parte do gelo para um ambiente de alta altitude com condições favoráveis à sua conservação, permitindo que ele se acumule ao longo de sucessivos períodos de neve.
O método é especialmente relevante porque as comunidades dependem do degelo sazonal para obter água. Quando os glaciares perdem massa de maneira acelerada, o problema não se resume à quantidade total de gelo: também muda o momento em que a água chega aos vales.
Como funciona o chamado “casamento de glaciares”
A técnica utiliza dois tipos de gelo segundo uma classificação tradicional. O chamado glaciar “masculino” costuma apresentar coloração acinzentada porque contém terra, areia e pequenas pedras. O “feminino” é mais claro e relativamente livre desses materiais, além de ser associado a uma maior produção de água.
Os moradores retiram pedaços dos dois glaciares e os transportam até o ponto escolhido para a enxertia. Parte do percurso pode ser feita de carro, mas os últimos trechos são percorridos a pé, com os blocos colocados em cestos de madeira carregados nas costas.
O local precisa reunir condições específicas. Segundo Zakir Hussain Zakir, diretor de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade do Baltistão, a área deve estar a pelo menos 4 mil metros de altitude, apresentar bastante permafrost, receber pouca radiação solar e ter forte exposição aos ventos. Encostas voltadas para o norte também são consideradas mais adequadas.
Quando chegam ao destino, os moradores colocam o gelo em uma cavidade previamente preparada ou em uma gruta. Os fragmentos classificados como “masculinos” e “femininos” são posicionados no interior, separados por recipientes de barro preenchidos com água do rio Indo.
O conjunto recebe depois camadas de serragem, carvão e caroços de damasco. Esses materiais funcionam como uma cobertura isolante, reduzindo a exposição direta do gelo ao ambiente. A operação completa pode levar até 48 horas.
O gelo precisa permanecer em movimento durante o transporte
O transporte é uma das partes mais trabalhosas da técnica. Os blocos precisam ser retirados da geleira de origem e levados até o ponto escolhido sem tocar diretamente no solo.
Por isso, os carregadores precisam manter o gelo em movimento durante todo o percurso. A atividade costuma ser feita à noite, quando as temperaturas são menores e a perda de gelo por derretimento tende a ser reduzida.
A tradição também estabelece regras próprias para esse deslocamento. Segundo a Baltistan Culture & Development Foundation, há crenças de que os carregadores não devem conversar durante o caminho e que o gelo deve ser transportado à noite. Embora essas regras tenham origem espiritual, algumas delas também acabam reduzindo dificuldades práticas da operação.
Depois que o material é enterrado, outra etapa começa: a espera. A comunidade precisa deixar o novo gelo protegido durante anos, sem interferir no local antes que a estrutura tenha tempo para se consolidar.
A tradição pode ter séculos de história
A enxertia de glaciares foi retomada na década de 1990, mas a prática é considerada muito mais antiga. Segundo Nazir Ahmed, diretor executivo da Baltistan Culture & Development Foundation, o conhecimento foi transmitido principalmente de forma oral e pode remontar ao século XIV.
Relatos históricos associam o início da técnica ao santo sufista persa Mir Syed Ali Hamadani. Uma das versões afirma que a enxertia teria sido utilizada como estratégia de defesa para dificultar a entrada de invasores na região.
Com o passar do tempo, a prática passou a ser relacionada à gestão comunitária da água e a tradições espirituais. Durante o processo, podem ser recitados versos do Corão, cantadas canções tradicionais e realizados rituais associados ao nascimento simbólico do novo glaciar.
Esses elementos não substituem a função física da técnica. A conservação do gelo depende principalmente das condições de altitude, temperatura, neve e isolamento. Os rituais fazem parte do conjunto cultural que acompanha o conhecimento transmitido entre gerações.
O novo glaciar precisa ser cuidado depois de enterrado
A participação dos moradores não termina quando os blocos desaparecem sob as camadas de isolamento. A comunidade que autorizou a enxertia assume também a responsabilidade pelo acompanhamento do glaciar recém-formado.
Os habitantes observam seu desenvolvimento, registram mudanças e podem adicionar neve para aumentar a quantidade de gelo disponível. A intenção é favorecer o crescimento até que a estrutura consiga se manter com os ciclos naturais de neve e congelamento.
Essa etapa ajuda a explicar por que a técnica depende tanto da organização comunitária. Não basta encontrar uma área fria e transportar gelo para ela. É necessário selecionar o local, coordenar dezenas de pessoas, preparar a cavidade, proteger o material e acompanhar o resultado por anos.
Em 2025, a Baltistan Culture & Development Foundation recebeu financiamento do governo britânico para ampliar projetos desse tipo. Segundo a organização, foram enxertados dez glaciares em diferentes aldeias do Baltistão, além da construção de seis torres de gelo e de um jardim botânico na Universidade do Baltistão.
O financiamento também aumentou a capacidade de transporte. Antes, a fundação conseguia realizar projetos que envolviam até 200 quilos de gelo. Com os novos recursos, passou a transportar mais de uma tonelada por operação.
Existem outras formas de armazenar água congelada
A enxertia não é a única estratégia desenvolvida pelas comunidades e pesquisadores da região. Uma das alternativas são as chamadas torres de gelo, ou ice stupas, estruturas artificiais que armazenam água congelada em formato cônico.
A lógica é reduzir a velocidade do derretimento. Em vez de deixar a água congelada espalhada por uma superfície extensa, a estrutura concentra o gelo de maneira que parte dele fique protegida da exposição direta ao sol.
Outra técnica mencionada pelos pesquisadores é o aproveitamento de avalanches. Redes instaladas em gargantas estreitas podem ajudar a reter neve e gelo transportados naturalmente pelas encostas, transformando uma parte desse material em reserva temporária.
São soluções diferentes, mas respondem ao mesmo problema: encontrar maneiras de conservar água em uma região onde o calendário de disponibilidade do degelo está sendo alterado.
A técnica enfrenta um problema geracional
Manter esse conhecimento depende da participação dos jovens, mas esse é justamente um dos pontos de maior preocupação para as comunidades.
Muitos moradores mais novos deixam as aldeias depois da escola para continuar os estudos ou buscar trabalho em cidades como Karachi, Lahore e Islamabad. Além disso, a enxertia exige esforço físico, tempo e disponibilidade para permanecer envolvido em atividades realizadas em áreas remotas.
Isso não significa necessariamente que os jovens estejam menos preocupados com os glaciares. Zeeshan Abbas, líder de uma iniciativa juvenil chamada Siachen Sherpa, afirma que as novas gerações também precisam lidar com educação, emprego, segurança financeira e migração.
Uma das propostas é aproximar o conhecimento tradicional de ferramentas científicas atuais. Informações sobre altitude, localização e comportamento dos glaciares podem ser combinadas com GPS, imagens de satélite e observações de campo.
Nesse modelo, o conhecimento transmitido pelas comunidades ajuda a interpretar a paisagem, enquanto a tecnologia permite registrar mudanças que seriam difíceis de acompanhar apenas pela observação direta.
O problema da água é maior do que uma única comunidade
A importância dessas iniciativas está relacionada à dimensão do sistema de montanhas onde elas são realizadas. Os glaciares do Hindu Kush-Karakoram-Himalaia abastecem rios que sustentam atividades agrícolas e o consumo de milhões de pessoas.
Ao mesmo tempo, o aquecimento global aumenta os riscos associados ao derretimento acelerado. O excesso de água pode contribuir para a formação e o rompimento de lagos glaciais, provocando inundações repentinas, enquanto a perda de gelo reduz a quantidade disponível em períodos posteriores.
Segundo dados citados pela Euronews, o Gilgit-Baltistão e a província de Khyber Pakhtunkhwa tinham 3.044 lagos glaciais identificados, dos quais 33 eram considerados perigosos por apresentarem potencial para provocar inundações repentinas.
O Paquistão contribui com menos de 1% das emissões globais anuais, mas está entre os países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. É nesse contraste que a enxertia de glaciares ganha significado para as comunidades: trata-se de uma resposta local a uma transformação climática que ultrapassa as fronteiras da região.
A técnica não consegue substituir a função de grandes sistemas glaciais nem impedir o aquecimento global. O que ela oferece é outra possibilidade: usar conhecimento acumulado durante gerações para armazenar parte da água congelada em locais onde ela possa permanecer por mais tempo e voltar ao ambiente na forma de degelo.
Para quem participa do processo, o glaciar criado deixa de ser apenas uma massa de gelo. Ele passa a representar uma reserva de água construída coletivamente e destinada a funcionar em uma escala de tempo que ultrapassa uma geração.









