Micróbios em múmia de 5.300 anos atrás continuam vivos e podem multiplicar

Estudo revela que micróbios da múmia de Ötzi sobreviveram por 5.300 anos e podem continuar se multiplicando.


Por Leticia Florenco

10/06/2026 às 08h33

Micróbios em múmia de 5.300 anos atrás continuam vivos e podem multiplicar

O misterioso caso de Ötzi, o Homem de Gelo, acaba de ganhar um novo capítulo que parece saído de um filme de ficção científica.

Cientistas descobriram que micróbios presentes na múmia de mais de 5.300 anos não apenas sobreviveram ao passar dos milênios, como alguns deles podem continuar ativos e até se multiplicando lentamente.

A descoberta muda a forma como pesquisadores entendem a preservação de restos humanos antigos e revela que, mesmo após milhares de anos, a vida microscópica ainda pode persistir.

O “ecossistema vivo” escondido dentro de uma múmia

Desde que foi encontrado em 1991, nos Alpes entre a Áustria e a Itália, Ötzi tornou-se uma das múmias mais estudadas do planeta.

Seu corpo congelado forneceu informações sobre alimentação, doenças, hábitos e até os momentos finais de sua vida.

Agora, um novo estudo publicado na revista científica Microbiome mostra que a múmia abriga muito mais do que tecidos preservados: ela funciona como um verdadeiro ecossistema microbiano.

Os pesquisadores descobriram que bactérias e fungos antigos permaneceram associados ao corpo ao longo de milhares de anos.

Em vez de simples vestígios biológicos, alguns desses organismos parecem ter mantido a capacidade de sobreviver e, em determinadas condições, retomar atividades metabólicas.

Micróbios que desafiaram o tempo

A grande surpresa do estudo foi identificar fungos adaptados ao frio extremo que permaneceram viáveis após mais de cinco milênios.

Esses microrganismos provavelmente colonizaram o cadáver logo após a morte de Ötzi, ainda no ambiente gelado dos Alpes. Quando o corpo congelou, eles entraram em um estado semelhante à dormência profunda.

Porém, diferentemente do que se imaginava, eles não morreram.

A resistência natural dessas espécies ao congelamento permitiu que atravessassem milênios praticamente intactas. Segundo os pesquisadores, algumas delas podem ser “despertadas” quando encontram pequenas quantidades de água disponíveis.

Crescimento lento dentro da própria múmia

Uma das conclusões mais intrigantes do trabalho é que certos micróbios podem estar se multiplicando lentamente no interior da múmia.

Os cientistas sugerem que pequenas bolsas de umidade presentes nos tecidos criam microambientes capazes de sustentar atividades biológicas mínimas. Isso significa que o congelamento não necessariamente interrompe todos os processos vitais.

A hipótese desafia conceitos tradicionais sobre preservação arqueológica e demonstra que restos humanos antigos podem continuar sofrendo transformações invisíveis ao longo do tempo.

O microbioma perdido da Idade do Cobre

Além das implicações para a conservação de múmias, o estudo oferece uma rara oportunidade de conhecer o microbioma humano antes da industrialização.

O intestino de Ötzi preservou bactérias extremamente raras na população moderna. Algumas delas ainda são encontradas em grupos humanos que mantêm modos de vida tradicionais, distantes dos hábitos urbanos contemporâneos.

Para os cientistas, isso funciona como uma janela para o passado.

Esses microrganismos ajudam a compreender como a alimentação, o ambiente e as transformações sociais moldaram a diversidade bacteriana ao longo da história humana.

Investigação microscópica detalhada

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram uma das análises microbiológicas mais completas já feitas em restos humanos antigos.

Foram examinadas:

  • Amostras da superfície da múmia;
  • Tecidos internos expostos;
  • Reservatórios de água presentes no corpo;
  • Solo coletado sob Ötzi durante a descoberta em 1991;
  • Dados antigos do conteúdo intestinal;
  • Micróbios presentes no ar da câmara onde a múmia é armazenada;
  • Amostras da sala de manuseio dos restos mortais.

A partir dessas coletas, os cientistas conseguiram separar quais microrganismos eram realmente antigos e quais poderiam ter sido introduzidos por contato humano moderno.

O desafio da contaminação

Um dos grandes obstáculos desse tipo de pesquisa é distinguir o passado do presente.

A múmia recebe visitas de pesquisadores há décadas, sendo constantemente monitorada e analisada. Esse contato inevitavelmente introduz bactérias e fungos contemporâneos.

Entre os micróbios identificados, algumas bactérias comuns na pele humana, como espécies do gênero Staphylococcus, levantaram dúvidas sobre sua origem.

Os pesquisadores acreditam que análises genéticas ainda mais detalhadas poderão determinar se esses organismos realmente acompanharam Ötzi por milhares de anos ou se representam contaminações recentes.

Fungos vindos de um mundo congelado

Quatro tipos de leveduras chamaram especialmente a atenção dos cientistas:

  • Glaciozyma;
  • Goffeauzyma;
  • Mrakia;
  • Phenoliferia.

Essas espécies apresentam características semelhantes às encontradas em fungos da Antártica e de outros ambientes extremamente frios.

Os danos observados em seu DNA indicam que pertencem ao antigo ecossistema alpino onde Ötzi morreu, reforçando a ideia de que viajaram com a múmia através dos séculos.

Uma espécie pode estar “acordando”

Entre todas as descobertas, a levedura Glaciozyma tornou-se a principal protagonista.

Os pesquisadores perceberam que ela estava mais abundante atualmente do que em análises realizadas anos atrás. Além disso, seu DNA apresentava menos sinais de deterioração.

Esses indícios sugerem que o fungo pode estar conseguindo se replicar lentamente, mesmo sob temperaturas próximas às do congelamento profundo.

Embora não existam evidências de danos ao corpo da múmia, a possibilidade acendeu um alerta entre especialistas responsáveis pela conservação de patrimônios arqueológicos.

Como conservar o passado sem destruí-lo?

Desde sua descoberta, Ötzi permanece armazenado em uma câmara especial com aproximadamente -6°C e 99% de umidade relativa, reproduzindo as condições da geleira onde ficou preservado.

No entanto, o novo estudo sugere que essas condições podem não ser suficientes para impedir completamente a atividade de microrganismos adaptados ao frio.

Isso significa que museus e instituições poderão precisar revisar protocolos de armazenamento, monitorando constantemente a presença e o comportamento desses organismos microscópicos.

Quem foi Ötzi?

As pesquisas acumuladas ao longo das últimas décadas permitiram reconstruir parte da história desse homem pré-histórico.

Os estudos revelaram que ele:

  • Viveu há cerca de 5.300 anos, durante a Idade do Cobre;
  • Morreu por volta dos 46 anos;
  • Tinha 61 tatuagens espalhadas pelo corpo;
  • Sofria de problemas cardiovasculares;
  • Carregava a bactéria Helicobacter pylori, associada a úlceras gástricas;
  • Fez uma última refeição composta por grãos, plantas, carne de veado e íbex;
  • Sofreu um corte profundo na mão;
  • Foi atingido por uma flecha no ombro;
  • Provavelmente morreu devido à hemorragia causada pelo ferimento.

Cada nova descoberta amplia o retrato de um homem que viveu milhares de anos antes da civilização moderna.