Médica era excelente na faculdade e na residência, mas passou anos tratando ansiedade e depressão sem descobrir a causa do esgotamento até receber diagnóstico de autismo aos 33 anos
Aos 33 anos, uma médica cirurgiã recebeu, em maio deste ano, o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nível 1 de suporte, e entendeu por que…

Aos 33 anos, uma médica cirurgiã recebeu, em maio deste ano, o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nível 1 de suporte, e entendeu por que se sentia esgotada mesmo fazendo aquilo que sempre almejou. O incômodo com barulhos, cheiros e texturas, o cansaço que nenhum descanso amenizava.
E a sensação persistente de estar no limite tinham uma origem que ninguém havia identificado durante mais de uma década. Antes do diagnóstico, ela havia passado por tratamentos para depressão e ansiedade, mudado de cidade, procurado vários médicos e experimentado diferentes medicações, sem que a verdadeira causa daquele sofrimento fosse descoberta.
A carreira que moldou sua identidade
Formada em cirurgia geral em 2020, Krícis se preparava para a subespecialização em urologia quando começou a perceber sinais que não conseguia interpretar. Durante a residência, o barulho das máquinas do pós-operatório e o cheiro do ambiente esterilizado passaram a incomodá-la cada vez mais.
Em entrevista ao G1, Krícis disse que seus colegas não percebiam o quanto sensações e ambientes a afetavam. Depois do diagnóstico, Krícis percebeu que o centro cirúrgico, onde sempre se sentiu competente, não era mais compatível com sua saúde mental. O hospital tentou adaptar o trabalho e permitiu que ela fizesse cirurgias com fones de ouvido para abafar o ruído.
A medida ajudou, mas o desgaste era tanto que ela passou a ignorar sinais do próprio corpo, como fome, sede e vontade de ir ao banheiro, durante plantões inteiros. Em entrevista ao G1, Krícis disse que se sente “quebrada”, apesar de ter sido excelente em tudo que fez durante a formação profissional.
Por que o autismo em mulheres é diagnosticado tão tarde
O diagnóstico do autismo é comumente associado à infância, mas sua identificação em adultos vem crescendo, sobretudo entre mulheres, que enfrentam trajetórias mais longas até receber o diagnóstico correto. Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, 47% das mulheres recebem outro diagnóstico antes do autismo, em comparação com 27% dos homens.
Segundo Joana, as mulheres são mais negligenciadas pelos profissionais de saúde e também mascaram mais os sintomas ao internalizar o sofrimento. Esse padrão ajuda a explicar por que o diagnóstico correto demora a chegar.

Uma nova trajetória fora do consultório
Krícis decidiu abandonar definitivamente o bisturi e reorientar sua bagagem profissional para outro caminho. Em entrevista ao G1, disse que quer tentar uma vida diferente. Agora usa seu conhecimento médico e sua experiência pessoal para criar conteúdo sobre saúde nas redes sociais, como influenciadora digital.
Ela pretende trabalhar de casa, com menos estímulos, morar no interior e levar uma vida mais calma. A mudança prioriza sua saúde e seu bem-estar em vez das expectativas que havia estabelecido para si mesma. Krícis também quer compartilhar vivências e informações que ajudem outras pessoas em trajetórias semelhantes de diagnóstico tardio e busca por respostas.









