Idosa de 87 anos pagava €500 de aluguel, mas depois que o imóvel mudou de dono o valor chegou a €2.650 e fez ela ser despejada do local onde viveu desde 1956
Uma mulher de 87 anos deixou à força, na quarta-feira (23/9), o apartamento no bairro do Retiro, em Madri, onde morava desde 1956. A remoção marcou o…

Uma mulher de 87 anos deixou à força, na quarta-feira (23/9), o apartamento no bairro do Retiro, em Madri, onde morava desde 1956. A remoção marcou o desfecho de um dos casos mais emblemáticos da crise habitacional que atinge a Espanha.
O valor do aluguel pago por Maricarmen, de 500 euros mensais, disparou depois que um fundo de investimentos adquiriu o prédio: a cobrança chegou a 2.650 euros e, posteriormente, foi reduzida para 1.650 euros. A idosa, que tem dificuldade de locomoção e um grau de incapacidade reconhecido de 50%, não teve como arcar com os novos valores cobrados e acabou derrotada na Justiça.
Décadas de moradia no mesmo apartamento
A família passou a ocupar o apartamento de 92 m² em 1956, ainda durante a ditadura franquista. O contrato original ficou sob a responsabilidade do pai de Maricarmen e depois passou para a mãe dela. Em 2005, foi transferido oficialmente para o nome de Maricarmen.
Na Espanha, esse tipo de acordo é conhecido como locação antiga e segue normas próprias sobre reajuste de valores e transferência do vínculo entre gerações.
Com o tempo, a legislação foi alterada para restringir quais parentes poderiam manter esses contratos após o falecimento do titular original. Essa mudança abriu caminho para disputas judiciais como a de Maricarmen, em que novos donos questionavam a validade do contrato histórico de aluguel baixo.

Uma disputa que se arrastou nos tribunais
Após anos de litígio, o Supremo Tribunal decidiu a favor da empresa proprietária e autorizou formalmente a saída da moradora. A ordem de despejo só foi cumprida na quarta tentativa da comissão judicial responsável pela execução, e as três anteriores haviam sido impedidas ou adiadas.
Maricarmen deixou o imóvel de cadeira de rodas e foi levada a um hospital para avaliação médica antes de se mudar para a casa de familiares.
Um doador anônimo se ofereceu para cobrir a diferença entre os 500 euros pagos por Maricarmen e os 2.650 euros exigidos pela empresa, além de qualquer dívida cobrada da idosa. A imobiliária rejeitou a proposta, conforme informou a advogada.
Segundo o Ministério da Habitação, a Urbagestión rejeitou ainda uma proposta de compra do imóvel feita pelo CASA 47, organismo público de moradia. A rejeição reforçou a percepção de que o objetivo era remover a inquilina, não resolver a questão financeira.
Protesto e crítica à falta de resposta
Dezenas de manifestantes se reuniram em frente ao edifício da rua Alcalde Sainz de Baranda para tentar barrar a remoção. Entre os apoiadores estavam o ator Carlos Bardem, irmão do também ator Javier Bardem, e a cantora Ana Belén, que acamparam na noite anterior ao despejo. Ativistas bloquearam a entrada e as escadas do prédio, entoando slogans como “Maricarmen fica”.
O Comitê da ONU havia solicitado a suspensão do despejo até que alternativas de moradia fossem garantidas, mas o pedido não foi acatado pelas autoridades espanholas.
A advogada responsável pelo caso, Beatriz Duro, disse que ninguém assume a responsabilidade pelo desfecho e que cada parte envolvida transfere a culpa para outra. Para ela, essa fragmentação permite que situações como essa se repitam sem solução efetiva.
Um símbolo da crise habitacional
O episódio expôs a fragilidade de moradores mais velhos diante da compra de imóveis por fundos de investimento, prática que se espalha pelos bairros centrais de Madri. A diferença entre os 500 euros pagos por Maricarmen e os 2.650 euros exigidos pela nova empresa ilustra o tamanho do descompasso no setor imobiliário espanhol.
Casos como esse aumentam a pressão para que o Ministério da Habitação avance com medidas de proteção a inquilinos com contratos antigos. Especialmente em áreas onde a valorização tornou o aluguel tradicional praticamente inviável. Especialistas alertam que a insegurança jurídica gerada pela legislação atual, com processos de despejo que podem durar anos, desestimula proprietários a colocar seus apartamentos para alugar.









