Homem planta jardim em cima de casa em comunidade do Rio de Janeiro para não morrer de calor

Morador do Rio transforma telhados em jardins e reduz em até 15 °C o calor dentro das casas da comunidade.


Por Leticia Florenco

10/06/2026 às 07h52

Homem planta jardim em cima de casa em comunidade do Rio de Janeiro para não morrer de calor

Em meio às altas ondas de calor registradas no Brasil, uma iniciativa desenvolvida na comunidade Parque Arará, na Zona Norte do Rio de Janeiro, vem se destacando como uma alternativa sustentável e acessível para amenizar os efeitos das altas temperaturas.

O responsável pela ideia é o ativista ambiental Luis Cassiano Silva, conhecido pelos moradores como “Sanduba”, idealizador do projeto Teto Verde Favela.

A proposta consiste na instalação de jardins sobre os telhados das residências utilizando materiais simples e de baixo custo.

O objetivo é reduzir a absorção de calor pelas estruturas das casas e proporcionar mais conforto térmico às famílias que vivem em áreas fortemente afetadas pelas chamadas ilhas de calor urbanas.

Solução nasceu da necessidade

A ideia surgiu da própria experiência dos moradores da comunidade, onde o calor intenso transforma o interior das casas em ambientes sufocantes durante boa parte do ano.

Em dias mais quentes, a temperatura nos telhados pode ultrapassar os 50 °C, agravando o desconforto e elevando os riscos à saúde.

Sem condições de investir em sistemas de refrigeração mais caros, Sanduba decidiu buscar uma alternativa viável para a realidade local.

Após pesquisas e testes, desenvolveu um modelo simplificado de telhado verde capaz de reduzir significativamente a temperatura dentro das residências.

Segundo o projeto, a queda térmica pode chegar a 15 °C, dependendo das condições do imóvel e da incidência solar.

Técnica simples e acessível

Diferentemente dos telhados verdes convencionais, geralmente associados a obras de alto custo, o sistema criado no Parque Arará utiliza materiais baratos e facilmente encontrados.

A estrutura é composta por uma camada de material geotêxtil, conhecido como bidim, além de juta e espécies vegetais resistentes ao calor e à exposição direta ao sol.

Entre as plantas utilizadas estão suculentas e a Tradescantia zebrina, escolhidas por exigirem pouca manutenção e apresentarem boa capacidade de adaptação.

A vegetação atua como uma barreira natural contra a radiação solar, impedindo que o calor seja transferido diretamente para o interior das casas.

Custo reduzido amplia alcance do projeto

Outro diferencial da iniciativa é o valor de implantação. Enquanto projetos tradicionais podem custar centenas de reais por metro quadrado, o modelo desenvolvido por Sanduba tem custo estimado em cerca de R$ 5 por metro quadrado.

O baixo investimento aumenta o potencial de replicação da proposta em outras comunidades, especialmente em regiões onde a vulnerabilidade socioeconômica limita o acesso a soluções convencionais de climatização.

Calor extremo preocupa especialistas

A iniciativa ganha relevância em um cenário de aumento das temperaturas e intensificação dos eventos climáticos extremos.

Pesquisas realizadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que períodos prolongados com temperaturas superiores a 40 °C elevam significativamente o risco de mortalidade entre idosos e pessoas com doenças crônicas.

Além disso, o calor excessivo pode provocar desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e sobrecarga nos serviços de saúde.

Em áreas urbanas densamente ocupadas e com baixa cobertura vegetal, os efeitos das ilhas de calor tornam esses impactos ainda mais severos.

Inovação social diante da crise climática

Mais do que oferecer conforto térmico, o Teto Verde Favela se consolida como um exemplo de inovação social construída a partir das necessidades da própria comunidade.

A iniciativa demonstra que soluções simples, sustentáveis e adaptadas à realidade local podem contribuir para enfrentar desafios cada vez mais urgentes impostos pelas mudanças climáticas.

Ao transformar telhados em áreas verdes, o projeto idealizado por Sanduba reforça que o combate ao calor extremo também passa pela criatividade, pelo engajamento comunitário e pela democratização do acesso a tecnologias ambientais.