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Há quase 100 anos, dezenas de cervos foram levados para uma ilha; hoje são 2 mil e a maioria será eliminada por risco de incêndios


Por Matheus Chaves

03/09/2026 às 21h06

Há quase 100 anos, dezenas de cervos foram levados para uma ilha; hoje são 2 mil e a maioria será eliminada por risco de incêndios
Imagem: Magnific

Uma decisão tomada há quase um século para introduzir cervos em uma ilha turística da Califórnia, nos Estados Unidos, acabou criando um problema ambiental que agora exige uma medida extrema. A população desses animais chegou a aproximadamente 2 mil indivíduos na Ilha Catalina, mas a Catalina Island Conservancy, organização sem fins lucrativos que detém 88%, com o aval da Justiça, decidiu eliminar praticamente todos eles para recuperar a vegetação nativa e diminuir a possibilidade de grandes incêndios florestais.

O plano começou a avançar depois que um juiz do Condado de Los Angeles rejeitou, de forma preliminar, um pedido para impedir a operação. A primeira etapa prevê a eliminação de cerca de 200 cervos até o fim de outubro de 2026.

Como os cervos se tornaram um problema ambiental?

A Ilha Santa Catalina, como também é oficialmente conhecida, possui aproximadamente 194 quilômetros quadrados e integra as Channel Islands, arquipélago formado por oito ilhas na costa da Califórnia.

Os cervos-mula não faziam parte originalmente desse ecossistema. Algumas dezenas foram levadas para Catalina há quase 100 anos, quando o relevo da região passou a ser considerado adequado para a prática da caça.

O problema surgiu nas décadas seguintes, quando os animais se reproduziram e passaram a consumir grandes quantidades de plantas nativas. Com a expansão da população, a pressão sobre a vegetação aumentou e alterou a composição do ambiente.

A consequência é importante porque algumas das plantas consumidas pelos cervos ajudam a dificultar a propagação do fogo. Quando essa vegetação é reduzida, outras espécies, principalmente gramíneas mais inflamáveis, conseguem ocupar o espaço.

Dessa forma, uma alteração provocada por uma espécie introduzida acaba interferindo diretamente na quantidade de material disponível para alimentar incêndios.

Por que não transferir os 2 mil cervos?

A alternativa mais intuitiva seria retirar os animais de Catalina e levá-los para outro local. O problema é que essa operação também apresenta riscos elevados.

Capturar milhares de cervos exigiria uma operação de grande escala e poderia provocar níveis significativos de estresse nos animais. Além disso, a adaptação a um novo ambiente não é garantida.

A própria entidade responsável pelo projeto cita como exemplo uma operação realizada na Ilha Angel, localizada na Baía de São Francisco. Depois da retirada dos cervos daquele local, 85% dos animais morreram durante o primeiro ano, em decorrência de fatores como estresse, doenças e dificuldade de adaptação.

A esterilização também foi considerada, mas apresenta outro obstáculo: mesmo que fosse possível tratar toda a população, a vegetação continuaria sofrendo com a presença dos animais durante anos, enquanto a recuperação do ambiente ocorreria lentamente.

Por isso, os responsáveis pelo projeto concluíram que controlar a população dessa maneira não seria suficiente para alcançar o objetivo ambiental no prazo considerado necessário.

Como será feita a eliminação dos cervos?

O projeto atual é diferente da proposta apresentada inicialmente. Em 2023, a ideia previa eliminar toda a população em aproximadamente sete semanas, utilizando atiradores posicionados em helicópteros.

Depois da reação negativa ao plano, a estratégia foi modificada. Agora, a operação deverá durar pelo menos cinco anos e será realizada em etapas.

Antes da primeira fase, os pesquisadores vão testar métodos para concentrar os animais em determinadas regiões. Entre as estratégias está o uso de pontos de água e locais com alimento, incluindo milho triturado.

A partir daí, cerca de 200 cervos serão eliminados com rifles. Posteriormente, conforme a população diminua, a equipe pretende utilizar recursos como equipamentos de detecção térmica durante operações noturnas, drones e cães treinados para localizar os animais que permanecerem na ilha.

Nem todos os cervos serão mortos

Existe uma exceção no plano para os animais que vivem em Avalon, principal cidade da ilha, que possui aproximadamente 3.300 habitantes.

Nesse caso, alguns cervos poderão passar por procedimentos de esterilização em vez de serem eliminados. A estratégia deverá envolver a utilização de iscas para atrair os animais e, posteriormente, dardos tranquilizantes para permitir o manejo.

A diferença ocorre porque esses cervos estão mais próximos da população e fazem parte da rotina da cidade. Moradores e visitantes estão acostumados a encontrá-los nas ruas e em áreas urbanas.

Essa relação também ajuda a explicar parte da oposição ao projeto. Para algumas pessoas, os animais deixaram de ser vistos apenas como uma espécie introduzida artificialmente e passaram a fazer parte da identidade de Catalina.