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Há 110 anos, um empresário acumulou uma fortuna gigantesca com petróleo, enfrentou uma decisão judicial que desmontou seu império e mesmo assim viu o valor de suas participações disparar até se tornar o primeiro bilionário da história

A Standard Oil se tornou a principal produtora de querosene refinado dos Estados Unidos e integrou conhecimento técnico à sua estratégia industrial de domínio.


Por Bernardo Teixeira

04/10/2026 às 21h04

Há 110 anos, um empresário acumulou uma fortuna gigantesca com petróleo, enfrentou uma decisão judicial que desmontou seu império e mesmo assim viu o valor de suas participações disparar até se tornar o primeiro bilionário da história
Foto: The Rockefeller Archive Center/Reprodução

Ao morrer, em 1937, John D. Rockefeller tinha acumulado US$ 1,4 bilhão. Convertido para o peso que essa cifra representava na economia americana da época, o montante corresponderia hoje a algo em torno de 400 bilhões de dólares. Ninguém em sua geração chegou perto de reunir tamanha riqueza, e por isso ele é lembrado como o primeiro bilionário da era moderna.

Atualmente, nomes como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg costumam ser os primeiros lembrados quando o assunto é acumulação extrema de riqueza. Nenhum deles, porém, foi o primeiro a atingir essa marca: Rockefeller já havia feito isso muito antes de a eletricidade e os automóveis fazerem parte do cotidiano americano.

Sua riqueza o colocou no topo da economia de seu tempo e ajudou a moldar o mundo contemporâneo por meio do domínio da indústria do petróleo.

Feixes de notas de dólar americano sobre uma mesa com uma pessoa organizando-as.
Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels

Uma origem sem sinais de grandeza futura

Nascido em 1839 no estado de Nova York, Rockefeller cresceu numa família de classe média, sem extremos de pobreza ou prosperidade. O pai, William Rockefeller, trabalhava como vendedor ambulante e passava longos períodos fora de casa, levando uma vida instável cercada de desconfiança pelos negócios que realizava.

Quem moldou o caráter do futuro magnata foi a mãe, Eliza Davison Rockefeller, de temperamento rígido e profundamente religiosa. Ela transmitiu ao filho lições que o acompanhariam pelo resto da vida: controlar cada centavo, encarar o trabalho como obrigação moral e praticar a economia pessoal como virtude. Essa base disciplinar se tornaria um dos pilares de sua personalidade.

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Foto: Reprodução

Os primeiros passos rumo à fortuna

Ainda jovem, Rockefeller começou a ganhar dinheiro com tarefas simples: criava pequenos animais, vendia produtos domésticos e fazia trabalhos para vizinhos. Não havia nada extraordinário nessas atividades, mas havia consistência incomum: uma atenção quase metódica ao valor de cada centavo ganho ou gasto.

Em 1853, a família se mudou para Cleveland, Ohio, cidade em expansão acelerada, impulsionada pelo comércio e pela indústria. Dois anos depois, aos 16 anos, Rockefeller conseguiu seu primeiro emprego formal como assistente de contabilidade na Hewitt & Tuttle. Firma que negociava grãos, carvão e outras mercadorias básicas da economia americana do século XIX.

A construção do império do petróleo

Nos livros-caixa e registros comerciais da Hewitt & Tuttle, Rockefeller aprendeu como funcionava o comércio americano. Em 1859, associou-se a Maurice B, e clark para fundar uma empresa de comércio de produtos agrícolas. Anos depois, em 1870, ao lado do irmão William e do empresário Henry Flagler, fundou a Standard Oil.

A empresa cresceu rapidamente após sua criação. Nos primeiros anos, a empresa concentrou seus esforços no querosene, produto obtido do petróleo bruto que iluminava casas e ruas antes da eletrificação e que, por isso, ficou popularmente associado à iluminação das famílias mais pobres. Em pouco tempo, a Standard Oil se tornou a principal produtora de querosene refinado dos Estados Unidos e passou a integrar conhecimento técnico à sua estratégia industrial.

Foto em preto e branco de um posto de gasolina vintage da Standard Oil em Trussville, Alabama.
Foto: Jamie Kimball/Pexels

A dominação e suas consequências

A concentração de poder da Standard Oil não veio sem controvérsia. Em 1871, Rockefeller se associou à South Improvement Company, um acordo entre grandes refinarias e companhias ferroviárias que criava desigualdade estrutural ao oferecer tarifas reduzidas aos participantes enquanto concorrentes menores pagavam mais. Sob pressão pública, o estado da Pensilvânia suspendeu a companhia em 1872.

Com os lucros em rápida expansão, Rockefeller passou a adquirir seus concorrentes de forma sistemática. Em menos de quatro meses, incorporou cerca de 22 refinarias em Cleveland, controlando mais de 80% da capacidade local de refino. O período ficou conhecido como o “Massacre de Cleveland”, refletindo a concentração acelerada de poder econômico que se produzia.

O resultado foi a criação do Standard Oil Trust, uma estrutura que centralizava o controle de diversas empresas sob administração única. Por mais de trinta anos, essa estrutura foi capaz de determinar rumos essenciais do setor petrolífero americano, do momento da produção até a chegada do produto ao comércio.

Foto em preto e branco de um posto de gasolina vintage da Standard Oil em Trussville, Alabama.
Foto: Jamie Kimball/Pexels

O paradoxo que multiplicou a fortuna

A relação entre Rockefeller e as ferrovias americanas era marcada por uma dependência mútua e assimétrica. A Standard Oil precisava das ferrovias para escoar seu petróleo em escala nacional, enquanto as companhias ferroviárias dependiam do volume de carga gerado pela empresa. A carga da Standard Oil chegava a representar cerca de 40% de todo o transporte ferroviário de mercadorias.

Essa centralidade deu à empresa poder de negociação incomum, permitindo descontos e condições especiais junto às companhias ferroviárias em disputa entre si.

Trem vintage em Kenitra, Marrocos, capturado em escala de cinza, mostrando os trilhos da ferrovia.
Foto: MELIANI Driss/Pexels

O legado além dos negócios

Nos últimos anos de vida, Rockefeller destinou parte expressiva de sua fortuna a causas filantrópicas, incluindo a criação da Rockefeller University. A instituição se tornou referência em pesquisa médica e científica nos Estados Unidos, consolidando um lado da trajetória do magnata raramente lembrado junto com sua fama de empresário implacável.

Esse gesto filantrópico ajuda a explicar por que o nome de Rockefeller ultrapassou o universo dos negócios e se tornou também associado à ciência e à medicina americanas.

A história de Rockefeller demonstra como um jovem de origem modesta, com atenção obsessiva aos centavos e leitura antecipada das oportunidades de mercado, conseguiu construir o primeiro grande monopólio da indústria americana.

Mais de um século depois, a Rockefeller University segue como um dos poucos vestígios institucionais daquele império construído a partir de um emprego modesto em uma firma de Cleveland.