Grupo de moradores pressiona por saída de casas de repouso em região nobre de São Paulo

Conflito na Lapa expõe disputa entre moradores e casas de repouso em meio a regras urbanas e envelhecimento.


Por Leticia Florenco

11/06/2026 às 14h36

Grupo de moradores pressiona por saída de casas de repouso em região nobre de São Paulo

A decisão da Prefeitura de São Paulo de cassar alvarás de funcionamento de casas de repouso na região da Lapa, zona oeste da capital, desencadeou um debate entre moradores, instituições e o poder público.

O caso envolve cerca de 40 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), instaladas em ruas classificadas como zona estritamente residencial (ZER), e que agora enfrentam risco de encerramento das atividades.

O episódio expôs uma disputa que combina interpretação da legislação urbanística, pressão de associações de moradores e o debate sobre o atendimento à população idosa na cidade.

Prefeitura alega irregularidades em licenciamento

Segundo a administração municipal, a fiscalização foi motivada por apurações do Ministério Público sobre possível descumprimento das regras de zoneamento.

A Prefeitura afirma que parte das instituições declarou vínculo com a rede pública de atendimento, o que não se confirmou posteriormente.

Com isso, seis licenças de funcionamento foram canceladas. Apesar disso, nenhuma unidade foi lacrada até o momento, já que os locais seguem abrigando idosos e o processo ainda está em fase de análise e judicialização.

Moradores alegam impacto e desvalorização do bairro

Associações de moradores da Lapa e de bairros vizinhos, como a Assampalba, afirmam que as casas de repouso não se enquadram nas regras da zona estritamente residencial e defendem a aplicação rigorosa da legislação.

Entre as principais queixas estão o aumento do fluxo de ambulâncias, movimentação constante de veículos e o impacto na rotina da vizinhança.

Moradores também alegam preocupação com possível desvalorização dos imóveis e mudanças no perfil residencial da região.

A entidade afirma ainda que os estabelecimentos podem ser realocados para áreas onde o zoneamento permita esse tipo de atividade.

Instituições contestam decisão e falam em insegurança jurídica

Do outro lado, responsáveis por casas de repouso afirmam que a decisão da Prefeitura cria insegurança jurídica e ameaça o funcionamento de serviços essenciais para idosos.

Segundo administradores, as ILPIs não são clínicas médicas nem estabelecimentos comerciais tradicionais, mas sim moradias coletivas com cuidados assistenciais.

Por isso, defendem que deveriam ser tratadas de forma distinta dentro da legislação urbana.

Algumas instituições já recorreram à Justiça para tentar reverter as cassações e garantir a continuidade do atendimento aos residentes.

Debate envolve possível etarismo e falta de políticas públicas

O caso também provocou reação de entidades ligadas à defesa dos direitos da pessoa idosa, que apontam risco de discriminação etária na discussão.

Representantes do setor afirmam que mais de 95% das casas de repouso em São Paulo são privadas e que a rede pública não possui estrutura suficiente para absorver a demanda de acolhimento da população idosa.

Para essas entidades, a ausência de políticas públicas amplas para o envelhecimento populacional agrava o conflito e expõe fragilidades no sistema de cuidado.

Ministério Público acompanha o caso

O Ministério Público de São Paulo abriu procedimentos para apurar tanto possíveis irregularidades urbanísticas quanto denúncias de discriminação contra instituições que atendem idosos.

As investigações também buscam esclarecer se houve cumprimento adequado das normas de zoneamento e quais critérios foram utilizados para a cassação das licenças.