Golpistas se passam por médicos, sabem até detalhes da internação e cobram Pix de familiares desesperados; hospitais fazem alerta
Criminosos estão usando informações reais de pacientes internados para aplicar o chamado golpe do falso médico ou golpe do hospital. Por telefone ou…

Criminosos estão usando informações reais de pacientes internados para aplicar o chamado golpe do falso médico ou golpe do hospital. Por telefone ou WhatsApp, eles se passam por médicos ou funcionários da instituição, inventam uma emergência e pedem pagamentos imediatos por exames, medicamentos ou procedimentos que supostamente não seriam cobertos pelo plano de saúde ou pelo SUS.
O golpe explora justamente um momento de fragilidade dos familiares. Ao mencionar nome completo, histórico médico, motivo da internação e até o setor onde o paciente está, geralmente uma UTI, o criminoso consegue dar aparência de legitimidade à abordagem. Casos investigados pela Polícia Civil em Santa Bárbara d’Oeste (SP) mostraram que os golpistas tinham acesso prévio a informações sobre os pacientes.
Como funciona o golpe do falso médico
A abordagem costuma começar com uma ligação ou mensagem. O criminoso se apresenta como médico ou integrante da equipe do hospital e afirma que o estado de saúde do paciente piorou ou que surgiu uma complicação que exige uma intervenção imediata.
Em seguida, aparece a cobrança. A vítima é informada de que determinado exame ou procedimento não estaria incluído no atendimento e que seria necessário fazer um pagamento para que o cuidado fosse realizado. A urgência é parte essencial da estratégia: ao dizer que o paciente corre risco ou que uma cirurgia pode ser cancelada, o golpista tenta impedir que a família tenha tempo para confirmar a informação.
Há ainda outras formas de abordagem. Segundo alerta citado pelo Projeto Comprova, criminosos podem ir até a casa da vítima, pedir pagamento antecipado, apresentar documentos para assinatura ou tentar receber em dinheiro ou cartão. Em qualquer dessas situações, a cobrança é usada como pretexto para obter dinheiro rapidamente.
Hospitais também vêm divulgando alertas sobre esse tipo de fraude. O Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, já informou sobre abordagens nas quais criminosos se passam por funcionários da instituição. Outros hospitais, como Einstein e Moinhos de Vento, também orientam pacientes e familiares a confirmar qualquer solicitação financeira pelos canais oficiais.
Dados da internação podem aumentar a credibilidade da fraude
Uma das características que tornam o golpe mais convincente é o uso de informações verdadeiras. Os criminosos podem saber o nome do paciente, o médico responsável, o motivo da internação e o local onde ele está sendo atendido.
De acordo com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), 43 comunicações formais de incidentes de segurança no setor de saúde foram registradas no país entre janeiro e o início de setembro de 2026. Entre os casos estavam dez incidentes relacionados a roubo de credenciais, oito envolvendo acesso não autorizado a sistemas, sete de divulgação indevida de dados pessoais e cinco de sequestro de dados. A maior parte, 88%, ocorreu no setor privado.
Os incidentes podem ocorrer por diferentes motivos. Entre eles estão o roubo ou compartilhamento inadequado de credenciais, o acesso de pessoas autorizadas a informações sem necessidade profissional, a divulgação indevida de dados e falhas de segurança em sistemas hospitalares. O acesso ilícito a essas informações pode ajudar criminosos a montar abordagens muito mais específicas.
A Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) também ressalta que a proteção dos dados depende de medidas adotadas pelas instituições e de cuidados dos próprios pacientes, como evitar o compartilhamento desnecessário de informações e descartar corretamente documentos e identificadores usados durante o atendimento.
Como identificar uma cobrança falsa
O principal sinal de alerta é uma solicitação inesperada acompanhada de pressão para realizar o pagamento imediatamente. Hospitais públicos e privados não fazem cobranças emergenciais por procedimentos, medicamentos ou exames por telefone ou WhatsApp, segundo as orientações reunidas pelo Comprova.
Também é importante observar a conta indicada para o pagamento. Se o contato exigir um Pix ou depósito em nome de uma pessoa física, em vez de uma conta vinculada ao CNPJ oficial da instituição, a situação deve ser tratada como suspeita.
A orientação é não confirmar informações pessoais, não fornecer dados bancários e não realizar nenhuma transferência antes de verificar a solicitação. Mesmo que o interlocutor saiba detalhes verdadeiros sobre o paciente, isso não comprova que ele seja médico ou funcionário do hospital.
A confirmação deve ser feita por um canal independente. O familiar pode ligar para o número oficial disponível no site da instituição, na documentação de internação ou na recepção. Também é possível procurar pessoalmente a equipe do hospital, a Ouvidoria ou o Serviço Social para verificar se existe alguma cobrança e como ela deve ser feita. A recomendação é não retornar a ligação pelo número utilizado pelo suposto profissional.
O que fazer se o dinheiro já foi enviado
Quem realizou um pagamento após cair no golpe deve guardar comprovantes da transferência, mensagens, números de telefone, documentos enviados pelos criminosos e qualquer outra informação relacionada à abordagem. Esses registros podem ajudar na investigação e em eventuais pedidos de reparação.
O Projeto Comprova cita a possibilidade de buscar ressarcimento junto ao hospital e ao plano de saúde, conforme a avaliação de cada caso e as regras de proteção do consumidor. Se houver recusa, o consumidor pode procurar o Procon ou registrar uma reclamação no consumidor.gov.br. Também é recomendado fazer um boletim de ocorrência por estelionato na Polícia Civil.
Quando houver falsa identificação como médico ou indícios de atuação de alguém se apresentando como profissional de saúde, também é possível encaminhar uma denúncia ao Conselho Regional de Medicina responsável pela região.
Diante de qualquer cobrança inesperada durante uma internação, a regra mais segura é interromper a negociação e confirmar a informação diretamente com a instituição.









