Ouça agora

Especialistas revelam o que pode acontecer com o corpo de quem usa computador por mais de 4 horas

Especialistas alertam que equipamento adequado e pausas regulares legitimadas pela chefia são essenciais para prevenir lesões relacionadas ao trabalho.


Por Bernardo Teixeira

16/10/2026 às 18h08

Especialistas revelam o que pode acontecer com o corpo de quem usa computador por mais de 4 horas
Foto: Jonathan Borba/Pexels

Quem trabalha horas em frente ao computador sabe que o ombro dói, mas nem sempre percebe por quê. Ficar muitas horas nessa posição, especialmente sem pausas e com a mesa desalinhada, força músculos e tendões além do limite. Causa desde fadiga até lesões mais sérias, como a síndrome do impacto e a inflamação no manguito rotador.

Segundo uma análise publicada na revista Work, usar mouse ou teclado por mais de quatro horas diárias eleva em 25% o risco de dor no braço, pescoço e ombro. O problema não surge de um fator só: a combinação de posturas ruins, gestos repetitivos, falta de descanso e equipamento inadequado desencadeia o incômodo.

O médico usa o teclado do computador; o estetoscópio está próximo, sobre a mesa.
Foto: Vitaly Gariev/Pexels

Por que o ombro sofre

Com a cabeça projetada para frente e os ombros elevados, determinados músculos entram em contração contínua para manter o corpo nessa posição. O trapézio e a musculatura do ombro trabalham sem descanso, especialmente quando não há apoio para os braços. Isso reduz a circulação sanguínea dentro do próprio músculo e acelera a sensação de fadiga.

A configuração típica do trabalho remoto intensifica esse cenário. Muita gente deixou a estação de trabalho do escritório e passou a trabalhar da mesa de jantar, do sofá ou até da cama.

O notebook piora ainda mais a situação porque tela e teclado estão integrados. A pessoa precisa escolher entre olhar a tela corretamente e digitar com os braços em posição ergonômica, sem conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Para quem usa notebook, o recomendado é recorrer a suporte para a tela e adquirir teclado e mouse separados.

Mãos digitando em um laptop com código exibido na tela, mostrando o uso da tecnologia.
Foto: TREEDEO.ST/Pexels

Sinais de que é preciso procurar ajuda

A dor que não melhora nem com repouso, que piora ao anoitecer ou vem acompanhada de fraqueza no braço merece atenção de um ortopedista. Formigamento, dormência e dor que irradia para o braço indicam que o problema já pode estar afetando tendões ou nervos. Esse conjunto de sintomas pode sinalizar um distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho (DORT).

Para suspeitar de DORT, a dor deve persistir por semanas e ter relação clara com a atividade profissional. Não é a dor isolada que define o diagnóstico, mas sim a conexão entre o incômodo e a forma de trabalhar. O exame físico feito por um especialista geralmente é suficiente; nem sempre é necessário recorrer a ressonância ou tomografia.

Quando confirmado, o tratamento costuma ser conservador, ajuste da rotina, melhora da ergonomia do ambiente e sessões de fisioterapia.

Equipamento certo e pausas frequentes

A prevenção começa na cadeira e na mesa. O assento deve ser ajustado para que a superfície de trabalho chegue à altura dos cotovelos, com os antebraços apoiados e os ombros relaxados. A tela deve estar posicionada em frente ao corpo, a uma distância de aproximadamente um braço, com a borda superior no nível dos olhos ou pouco abaixo.

Pausas regulares são tão importantes quanto o ajuste do móvel. A regulamentação NR-17 do Ministério do Trabalho exige que o empregador avalie as condições ergonômicas do trabalho. Recomenda-se fazer intervalos de 5 a 10 minutos a cada 50 a 60 minutos de digitação contínua.

Essas pausas só funcionam quando são legitimadas pela chefia: a interrupção que o trabalhador teme fazer não produz efeito. Levante, estique os braços, caminhe pela casa e mude de postura, essas ações quebram a tensão acumulada nos músculos e melhoram a circulação na região do ombro.

Se pauso durante o trabalho, meu chefe vai achar que estou enrolando?

Esse receio leva muitos trabalhadores a não descansarem, mesmo sabendo que deveriam. Pela legislação, a chefia precisa legitimar as pausas: o empregador deve deixar claro que essas interrupções são esperadas e necessárias, não uma falha no desempenho. Uma pausa feita com medo de julgamento não produz efeito de recuperação.

A responsabilidade não é só do trabalhador, e pela NR-17, norma de ergonomia do Ministério do Trabalho, a empresa deve avaliar as condições de trabalho e garantir que as pausas sejam possíveis.