Empresas começam a rever critérios de seleção diante do comportamento da Geração Z

Empresas repensam seleção ao valorizar habilidades da Geração Z além do QI tradicional.


Por Leticia Florenco

13/06/2026 às 17h04

Empresas começam a rever critérios de seleção diante do comportamento da Geração Z

Uma série de estudos internacionais recentes que apontam uma desaceleração em indicadores médios de QI entre jovens reacendeu um debate global sobre o desempenho cognitivo da Geração Z.

Os levantamentos, realizados em países da Europa e dos Estados Unidos, chamaram atenção de pesquisadores e do mercado de trabalho, mas também geraram críticas quanto à interpretação dos dados.

Especialistas afirmam que associar automaticamente os resultados a uma “queda de inteligência” pode ser um equívoco, já que as métricas tradicionais não acompanham as mudanças sociais, tecnológicas e educacionais das últimas décadas.

Modelo tradicional de avaliação é questionado

Durante mais de um século, o quociente de inteligência (QI) foi uma das principais ferramentas usadas para medir capacidades cognitivas.

Criado em 1905 pelo psicólogo Alfred Binet, o teste se concentrou principalmente em raciocínio lógico e habilidades linguísticas.

No entanto, pesquisadores alertam que o instrumento nunca teve a pretensão de medir todas as dimensões da inteligência humana.

Competências como criatividade, adaptabilidade, inteligência emocional e trabalho em equipe ficam de fora das avaliações tradicionais.

Essa limitação tem levado instituições acadêmicas e empresas a repensarem seus critérios de análise de desempenho.

Inteligências múltiplas ganham espaço no debate científico

A partir da década de 1980, a teoria das inteligências múltiplas, proposta por Howard Gardner, da Universidade Harvard, ampliou o conceito de inteligência ao defender que existem diferentes formas de capacidade humana, como a interpessoal, intrapessoal, espacial e corporal-cinestésica.

Avanços na neurociência também reforçaram a ideia de que o cérebro humano é adaptável ao longo da vida, graças à neuroplasticidade, o que permite o desenvolvimento contínuo de habilidades.

Nesse contexto, ferramentas alternativas de avaliação passaram a ser adotadas em ambientes educacionais, buscando identificar competências que vão além do desempenho acadêmico tradicional.

Mercado de trabalho prioriza habilidades comportamentais

Uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com a consultoria McKinsey & Company, indica que cerca de 70% das grandes empresas globais já incluem competências socioemocionais em seus processos seletivos.

Empresas como Google, Microsoft, Amazon, Meta, Itaú Unibanco, Nubank e Santander têm reforçado a importância de habilidades como comunicação, colaboração, criatividade e capacidade de adaptação.

Segundo o levantamento, essas competências se tornaram essenciais em um ambiente corporativo cada vez mais impactado pela automação e pela inteligência artificial.

Geração Z desafia modelos tradicionais de seleção

Inserida desde cedo em ambientes digitais, a Geração Z apresenta um perfil profissional diferente das gerações anteriores.

Embora alguns indicadores tradicionais apontem variações em testes cognitivos convencionais, o grupo se destaca em áreas como tecnologia, criação de conteúdo, empreendedorismo digital e inovação.

A convivência constante com redes sociais, ferramentas digitais e ambientes globais contribuiu para o desenvolvimento de habilidades como multitarefa, comunicação rápida e adaptação a mudanças.

Essas características têm levado empresas a reconsiderarem a forma como avaliam talentos.

Inteligência artificial acelera mudança de perfil profissional

O avanço da inteligência artificial também tem pressionado mudanças no mercado de trabalho.

Atividades técnicas e repetitivas vêm sendo cada vez mais automatizadas, reduzindo a centralidade de habilidades puramente operacionais.

Nesse novo cenário, ganham destaque competências humanas como pensamento crítico, empatia, liderança, julgamento ético e criatividade.

Para especialistas, esse movimento reforça a necessidade de atualizar os modelos de avaliação profissional.

Empresas e escolas revisam critérios

Diante dessas transformações, empresas estão reformulando seus processos seletivos, dando mais peso a entrevistas comportamentais, dinâmicas de grupo e análise de competências socioemocionais.

Ao mesmo tempo, instituições de ensino começam a discutir mudanças curriculares para contemplar habilidades mais amplas do que as tradicionalmente cobradas em provas padronizadas.

Apesar das mudanças, ainda não há consenso sobre como medir inteligência de forma mais completa. O que especialistas concordam é que o modelo atual, baseado exclusivamente em testes tradicionais, já não reflete a complexidade do mundo contemporâneo.