Empresas cobram até R$16 mil para apagar rastros e ajudar pessoas a desaparecerem e recomeçarem a vida do zero
No Japão, um grupo de empresas faz negócio ajudando pessoas a desaparecer: todos os anos, milhares de japoneses recorrem a esse tipo de serviço para…

No Japão, um grupo de empresas faz negócio ajudando pessoas a desaparecer: todos os anos, milhares de japoneses recorrem a esse tipo de serviço para deixar para trás casa, trabalho, família e recomeçar em outro lugar, sem deixar pistas.
Essas pessoas são chamadas de jouhatsu, termo que quer dizer “evaporação”, e o interesse por esse tipo de recomeço deu origem a um setor de agências que cobram até R$16 mil para planejar toda a fuga de quem decide romper com a vida anterior.
Entre os motivos que costumam levar alguém a desaparecer estão a cobrança por resultados no trabalho, decepções em relacionamentos, problemas financeiros e uma sensação geral de insatisfação com a própria vida. De acordo com levantamento da Hopkins Training & Education Group, de Hong Kong, cerca de 100 mil japoneses somem de suas casas anualmente sem deixar qualquer rastro.
Empresas que organizam desaparecimentos de japoneses no Japão
Não atender às expectativas da família e da sociedade é um gatilho comum para o jouhatsu. Um homem identificado como Sugimoto, que pediu para não ter o primeiro nome divulgado, disse à rede britânica BBC que não queria tocar o negócio do pai. Para fugir da angústia causada pela situação, deixou sua cidade sem revelar a ninguém seu destino.
Ele disse que estava farto das relações humanas, pegou uma mala e desapareceu. O contexto social do Japão facilita essas fugas voluntárias em comparação com outros países.
Segundo o sociólogo Hiroki Nakamori, que pesquisa o fenômeno há mais de dez anos, a privacidade dos japoneses é um fator inegociável. Quem desaparece consegue, por exemplo, retirar dinheiro em caixas eletrônicos sem correr o risco de ser localizado, já que a família não tem como pedir acesso a imagens de câmeras de segurança que eventualmente tenham registrado a fuga.
Salvo quando há indícios de crime ou acidente, a polícia japonesa não atua nesses casos, restando à família recorrer a um detetive particular, o que costuma custar caro, ou apenas aguardar notícias.
A indústria que lucra com o desaparecimento
A demanda crescente por fugas especializadas criou um setor inteiro dedicado a facilitar o jouhatsu. A Yonige-Ya — cujo nome significa “fugir à noite” em japonês — é uma das empresas que planeja o desaparecimento desde o início, garantindo que clientes deixem a vida anterior completamente para trás.
Os serviços oferecidos vão além do simples sumiço: as agências ajudam no transporte e na hospedagem em locais distantes e apagam rastros, como telefones celulares, contas de consumo e cartões de crédito. O valor cobrado varia conforme o número de clientes, a idade e os itens a serem levados e pode chegar a R$ 16 mil.
A origem e evolução do fenômeno
O termo jouhatsu passou a ser usado na década de 1960, quando pessoas começaram a recorrer ao desaparecimento voluntário para lidar com situações difíceis, como um divórcio, conforme pesquisa do sociólogo Hiroki Nakamori.
Hoje, essa prática segue crescendo e criando um mercado lucrativo para quem oferece a infraestrutura necessária para que alguém desapareça e reconstrua sua vida do zero em outro lugar.









