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Empresa decide que inteligência artificial consegue fazer o trabalho de funcionário, manda homem embora e Justiça determina indenização superior a R$ 190 mil

Uma empresa de tecnologia da China terá de pagar 260 mil yuans, valor equivalente a cerca de R$ 190 mil, a um funcionário dispensado depois que a…


Por Evellyn Nascimento

23/09/2026 às 10h10

Empresa decide que inteligência artificial consegue fazer o trabalho de funcionário, manda homem embora e Justiça determina indenização superior a R$ 190 mil
Foto: Tara Winstead/Pexels

Uma empresa de tecnologia da China terá de pagar 260 mil yuans, valor equivalente a cerca de R$ 190 mil, a um funcionário dispensado depois que a companhia concluiu que suas atividades poderiam ser realizadas por inteligência artificial. A decisão foi tomada pelo Tribunal Intermediário de Hangzhou e considerou injustificada a demissão do trabalhador, identificado pelo sobrenome Zhou.

O caso ganhou repercussão por envolver uma situação cada vez mais discutida no mercado de trabalho: a adoção de sistemas de IA para assumir tarefas antes realizadas por funcionários. A sentença, porém, não determina que empresas estejam proibidas de automatizar funções. O entendimento do tribunal está relacionado às condições em que o desligamento ocorreu.

Funcionário recusou redução de salário antes da demissão

Zhou começou a trabalhar na empresa em Hangzhou em 2022, ocupando o cargo de supervisor responsável pela garantia de qualidade de modelos de linguagem utilizados em produtos de inteligência artificial. Ou seja, sua atividade estava diretamente ligada à avaliação dos sistemas que a companhia desenvolvia.

Em determinado momento, a empresa informou que as funções exercidas por ele poderiam ser realizadas pela própria IA. Como alternativa à demissão, apresentou uma proposta que envolvia uma redução de 40% no salário e uma mudança de posição.

Zhou não aceitou as novas condições. Depois da recusa, acabou desligado da companhia e levou o caso à Justiça. O tribunal de Hangzhou concluiu que a empresa não apresentou justificativa suficiente para caracterizar a dispensa como válida e determinou o pagamento da indenização.

A decisão chama atenção porque a justificativa apresentada pela companhia estava diretamente relacionada à adoção de uma nova tecnologia. O tribunal, entretanto, não considerou que a simples utilização da IA fosse suficiente para eliminar as obrigações trabalhistas decorrentes da demissão.

Automação não elimina automaticamente as obrigações trabalhistas

O episódio não significa que uma empresa chinesa esteja impedida de reorganizar sua equipe quando adota ferramentas de inteligência artificial. A questão analisada pela Justiça foi a forma como a mudança tecnológica foi usada para justificar o desligamento de Zhou.

Outro caso divulgado anteriormente pelas autoridades de Pequim envolveu uma trabalhadora que passou 15 anos realizando coleta manual de dados. A empresa decidiu adotar uma ferramenta automatizada para executar a atividade e utilizou a mudança como justificativa para dispensá-la.

Na arbitragem, foi reconhecido que a companhia poderia incorporar a nova tecnologia às suas operações. O entendimento, porém, foi de que essa transformação não representava, por si só, uma alteração das circunstâncias que permitisse encerrar o contrato daquela maneira.

Os dois episódios colocam em discussão uma questão específica: quem deve assumir os custos de uma mudança tecnológica quando ela elimina ou modifica uma função já exercida por um trabalhador.

China amplia discussão sobre IA e mercado de trabalho

A discussão ocorre em um país que, ao mesmo tempo, apresenta forte adesão às ferramentas de inteligência artificial. Dados do AI Monitor 2024, da Ipsos, mostram que 80% dos entrevistados na China afirmaram estar entusiasmados com produtos e serviços que utilizam IA. O levantamento ouviu pessoas em 32 países e apontou níveis de entusiasmo mais baixos em diversos países europeus e de língua inglesa.

Em 2026, a Ipsos voltou a apontar a China entre os países asiáticos com maior otimismo em relação à tecnologia. O levantamento mais recente também mostrou que a confiança nos sistemas de IA é particularmente alta entre os chineses, embora existam dúvidas sobre seus efeitos econômicos mais amplos.

Ao mesmo tempo, a expansão dessas ferramentas aumenta a discussão sobre o impacto da automação sobre determinadas profissões. O pesquisador Kyle Chan, do John L. Thornton China Center, da Brookings Institution, tem analisado a estratégia chinesa para o desenvolvimento de IA e seus efeitos econômicos e industriais.

O caso de Zhou, portanto, aparece em meio a uma mudança mais ampla na relação entre empresas, trabalhadores e tecnologia. A utilização de inteligência artificial pode modificar funções, reduzir determinadas tarefas e alterar a organização das companhias, mas a adoção da ferramenta não elimina automaticamente as regras que envolvem contratos de trabalho e demissões.