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Em Gana, na África, caixões ganham forma de peixe, avião e sapato para contar a história de quem morreu

Em Gana, na África Ocidental, alguns caixões estão longe de ter a aparência tradicional. Eles podem assumir a forma de um peixe, avião, animal, ferramenta…


Por Evellyn Nascimento

27/09/2026 às 08h09

Em Gana, na África, caixões ganham forma de peixe, avião e sapato para contar a história de quem morreu
Foto: Reprodução/Regula Tschumi

Em Gana, na África Ocidental, alguns caixões estão longe de ter a aparência tradicional. Eles podem assumir a forma de um peixe, avião, animal, ferramenta ou até objeto ligado à profissão do morto. Conhecidos internacionalmente como “caixões de fantasia”, essas peças fazem parte de uma tradição funerária associada principalmente ao povo Ga e transformam a última homenagem em uma representação visual da vida de quem morreu.

Chamados de Abebuo, expressão do idioma Ga geralmente traduzida como “caixões proverbiais”, os caixões são feitos sob encomenda para representar aspectos da identidade, profissão, posição social ou desejos do falecido. Um vendedor de peixe, por exemplo, pode ser enterrado dentro de uma peça com o formato do animal que comercializava.

A tradição não trata apenas de criar um objeto chamativo. A forma escolhida transmite uma mensagem sobre a pessoa e sua trajetória, funcionando como uma espécie de retrato esculpido em madeira.

A profissão e a posição social viram símbolos

A escolha do desenho costuma estar ligada à história do morto. Pescadores podem receber caixões em formato de peixe ou barco, enquanto agricultores podem ser representados por elementos relacionados às plantações. Pilotos, por sua vez, podem ser homenageados com aeronaves.

Algumas formas também carregam significados ligados à posição social. O leão, por exemplo, é associado à autoridade e pode ser reservado aos chefes. Em Labadi, um subúrbio de Acra, determinados símbolos são relacionados às famílias reais e não podem ser utilizados livremente por qualquer pessoa.

Assim, o desenho não é escolhido apenas pela aparência. Para a comunidade, ele pode comunicar quem aquela pessoa foi, qual era seu trabalho e qual posição ocupava dentro da sociedade.

Uma tradição que nasceu dos palanquins

Os caixões figurativos modernos surgiram entre os Ga na região de Acra durante o século 20, a partir de uma tradição anterior de palanquins decorados. Essas estruturas eram utilizadas para transportar chefes e outras figuras importantes durante cerimônias e podiam assumir formas simbólicas relacionadas à pessoa homenageada.

A partir da década de 1950, artesãos passaram a transformar essa linguagem visual em caixões personalizados. O carpinteiro Seth Kane Kwei é frequentemente associado à popularização da tradição, embora pesquisadores apontem que outros artesãos também participaram de seu desenvolvimento.

Com o tempo, a prática deixou de se limitar a determinados grupos e passou a integrar os funerais de diferentes famílias. Hoje, oficinas especializadas na região de Acra produzem peças que combinam carpintaria, escultura e pintura.

Duas semanas de trabalho e centenas de dólares

Cada caixão é produzido de acordo com o pedido da família. O processo pode levar aproximadamente duas semanas, dependendo do formato e da quantidade de detalhes.

Segundo a Associated Press, os preços começam em cerca de US$700 e variam conforme a madeira utilizada e a complexidade do desenho. Para os artesãos, o trabalho exige mais do que habilidade de marcenaria: é preciso transformar uma ideia ou símbolo em uma estrutura que mantenha a função de um caixão.

A tradição também se transformou em uma forma de arte reconhecida fora de Gana. Algumas peças são produzidas para museus e colecionadores internacionais e nunca chegam a ser utilizadas em funerais. Outras, porém, cumprem exatamente sua função original e são enterradas junto com a pessoa homenageada.

O funeral transforma o luto em celebração

Os caixões fazem parte de uma cultura funerária em que cerimônias podem envolver música, dança, roupas coloridas e grandes reuniões familiares. Nesse contexto, a peça funciona como uma das formas de contar a história do morto para quem participa da despedida.

O carpinteiro Eric Kpakpo Adotey, ouvido pela AP, descreveu como a atenção dos presentes pode se voltar para o desenho do caixão durante a cerimônia. A criatividade da peça cria momentos de conversa e até descontração em meio ao luto.

A prática também ajuda a explicar por que essas criações despertaram interesse internacional. Fora dos funerais, elas podem ser vistas como esculturas, mas dentro da tradição Ga carregam uma função muito mais específica: apresentar, em madeira e em tamanho real, uma parte da história de quem está sendo enterrado.