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Dom Pedro I estava com dor de barriga, montava uma mula e não foi cercado por soldados no dia da Independência

A imagem de Dom Pedro I levantando a espada às margens do riacho do Ipiranga, montado em um cavalo e cercado por soldados, ficou marcada como uma das…


Por Evellyn Nascimento

05/09/2026 às 05h49

Dom Pedro I estava com dor de barriga, montava uma mula e não foi cercado por soldados no dia da Independência
Foto: Arte de Pedro Américo

A imagem de Dom Pedro I levantando a espada às margens do riacho do Ipiranga, montado em um cavalo e cercado por soldados, ficou marcada como uma das principais representações da Independência do Brasil. O episódio real, porém, foi bem menos grandioso do que a cena retratada no quadro de Pedro Américo.

Naquele 7 de setembro de 1822, o príncipe estava voltando de uma viagem a São Paulo, montado em uma mula, e enfrentava problemas intestinais que o fizeram parar várias vezes durante o caminho. A cena heroica que conhecemos hoje foi construída décadas depois, quando o pintor Pedro Américo produziu “Independência ou Morte!”, em 1888.

Dom Pedro estava com problemas intestinais

O relato do dia da Independência inclui um detalhe pouco lembrado nos livros de história: Dom Pedro estava passando mal durante a viagem. Segundo relatos históricos, ele sofria de problemas intestinais e precisou interromper o trajeto diversas vezes por causa de dores e necessidades fisiológicas.

A viagem também não era simples. O príncipe havia saído do Rio de Janeiro em agosto e passado por São Paulo e Santos antes de iniciar o caminho de volta. Ao subir a Serra do Mar, percorreu trechos difíceis até chegar à região do Ipiranga, onde recebeu as correspondências que mudariam o rumo político do Brasil.

Em vez de cavalo, ele estava montado em uma mula

Dom Pedro não estava montado no grande cavalo marrom que aparece no quadro de Pedro Américo. Para atravessar os caminhos da época, ele utilizava uma mula, chamada nos documentos do período de “besta gateada”.

O animal era mais adequado para terrenos acidentados e para uma viagem que incluía a subida da Serra do Mar. A comitiva também não correspondia exatamente ao grupo de soldados perfeitamente alinhados retratado na pintura: havia integrantes da Guarda de Honra, mas também religiosos, funcionários e outras pessoas que acompanhavam o príncipe.

O quadro da Independência foi pintado 66 anos depois

“Independência ou Morte!” só foi concluído em 1888, muito tempo depois do episódio que representa. Pedro Américo criou uma composição monumental para transformar o momento em um símbolo visual da formação do Brasil independente.

Por isso, a pintura não deve ser tratada como uma reprodução exata do que aconteceu às margens do Ipiranga. O cavalo imponente, a disposição dos personagens e a própria grandiosidade da cena fazem parte da interpretação artística construída pelo pintor.

A notícia demorou para se espalhar

O chamado Grito do Ipiranga também não teve a repercussão imediata que a importância histórica da data pode sugerir hoje. A imprensa não transformou o episódio em uma grande notícia nacional naquele mesmo dia.

Uma das primeiras referências publicadas apareceu no jornal O Espelho, do Rio de Janeiro, em 20 de setembro de 1822. A independência ainda estava sendo consolidada politicamente e enfrentaria conflitos armados em diferentes regiões do território.

Leopoldina participou das decisões antes do Grito

Maria Leopoldina teve papel importante nos acontecimentos que antecederam a declaração. Como princesa regente, ela presidiu uma reunião do Conselho de Estado em 2 de setembro, quando chegaram ao Rio de Janeiro novas ordens das Cortes portuguesas que ameaçavam ampliar o controle sobre o Brasil.

Ao lado de José Bonifácio e de outros integrantes do governo, Leopoldina decidiu enviar as notícias a Dom Pedro, que estava em viagem. As cartas e documentos chegaram ao príncipe dias depois e ajudaram a desencadear a decisão de romper definitivamente com Portugal. 

O Brasil ainda precisou pagar pela independência

A separação também não terminou no dia 7 de setembro. Portugal só reconheceu oficialmente a Independência em 1825, após negociações que envolveram uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas.

O Brasil não tinha a quantia disponível e precisou recorrer a um empréstimo britânico para realizar o pagamento. O acordo foi assinado em agosto de 1825 e formalizou o reconhecimento português do Império do Brasil.

O coração do imperador foi levado ao Brasil

No bicentenário da Independência, em 2022, uma das relíquias mais incomuns relacionadas a Dom Pedro I atravessou o Atlântico. Portugal emprestou ao Brasil o coração do imperador para ser exibido durante as comemorações dos 200 anos.

A relíquia chegou a Brasília em um jato executivo da Força Aérea Brasileira e ficou exposta no Palácio Itamaraty entre 25 de agosto e 5 de setembro daquele ano. O conjunto formado pelo coração e pela estrutura de conservação pesava cerca de 9 quilos e precisou ser transportado sob condições especiais de segurança e temperatura.

Depois das comemorações, a relíquia retornou à Igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, onde o coração é preservado desde a morte de Dom Pedro, em 1834.