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Depois de ver vizinhos morrerem ou deixarem a vila, mulher começa a fazer bonecos em tamanho real e os coloca onde antes havia pessoas

Em Nagoro, uma pequena vila nas montanhas da ilha japonesa de Shikoku, bonecos em tamanho real ocupam lugares que antes eram preenchidos por moradores.…


Por Evellyn Nascimento

22/09/2026 às 10h35

Depois de ver vizinhos morrerem ou deixarem a vila, mulher começa a fazer bonecos em tamanho real e os coloca onde antes havia pessoas
Foto: Reprodução/Mdig

Em Nagoro, uma pequena vila nas montanhas da ilha japonesa de Shikoku, bonecos em tamanho real ocupam lugares que antes eram preenchidos por moradores. Eles aparecem em pontos de ônibus, plantações, casas, ruas e até na antiga escola local. A maioria foi criada por Tsukimi Ayano, uma moradora que passou a reproduzir em tecido pessoas que morreram ou deixaram a comunidade.

Quando a Associated Press visitou Nagoro, em 2014, a vila tinha apenas 35 moradores, enquanto os bonecos já eram três vezes mais numerosos. Ayano tinha 65 anos e estava entre os residentes mais jovens do local. Ela havia retornado de Osaka 13 anos antes para cuidar do pai, que tinha 85 anos.

A intenção não era simplesmente preencher espaços vazios. Cada figura representa uma pessoa específica ou reproduz cenas do cotidiano que desapareceram à medida que a população da vila diminuiu.

Os bonecos guardam lembranças de quem partiu

Ayano criou figuras inspiradas em antigos vizinhos e conhecidos. Uma delas representa uma mulher que costumava visitá-la para tomar chá e conversar; outra lembra um homem conhecido por beber saquê e contar histórias.

As esculturas de tecido são feitas para parecer pessoas reais, mas também carregam características que ajudam a contar suas histórias. Algumas aparecem sentadas ou dormindo, outras trabalham no campo com enxadas e arados. Há ainda bonecos representando crianças e professores dentro da antiga escola primária.

Para Ayano, essas figuras funcionam como uma maneira de manter presentes pessoas que já não fazem parte da rotina da comunidade. Ela contou à AP que os bonecos trazem de volta lembranças de uma época em que aqueles moradores ainda estavam vivos.

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Foto: Reprodução/Mdig

Tudo começou com um espantalho

O projeto nasceu de maneira muito mais simples. Depois de voltar para Nagoro, Ayano tentou trabalhar na agricultura e percebeu que corvos poderiam estar comendo as sementes de rabanete que havia plantado.

Ela então confeccionou um espantalho para afastar as aves. A figura acabou ficando parecida com seu pai, e a experiência despertou a ideia de produzir outros bonecos.

A partir daí, Ayano começou a criar personagens inspirados na comunidade. Com o passar dos anos, mais de cem figuras foram espalhadas por Nagoro e localidades próximas, transformando a vila em um cenário povoado por representações de pessoas que já não estavam ali.

A antiga escola ganhou alunos de pano

Um dos locais mais simbólicos é a escola primária de Nagoro. O prédio foi fechado depois que o número de crianças caiu até tornar impossível manter as atividades.

Ayano passou a preencher as salas com bonecos que representam alunos e professores. As figuras aparecem sentadas nas carteiras e reproduzem uma rotina escolar que já não existe no local.

A cena acabou se tornando uma das principais imagens associadas à vila. Visitantes que chegam pelas estradas sinuosas da região encontram uma escola silenciosa, mas aparentemente cheia de estudantes — todos feitos de pano e palha.

Uma vila esvaziada pelo êxodo para as cidades

A transformação de Nagoro está ligada a um fenômeno que atingiu diversas áreas rurais japonesas. Depois da Segunda Guerra Mundial, o crescimento econômico levou muitos jovens a deixar pequenas comunidades em busca de empregos nas cidades.

Com a saída das gerações mais novas, muitas localidades passaram a concentrar principalmente moradores idosos. Escolas fecharam, estabelecimentos comerciais desapareceram e casas ficaram vazias.

A AP relatou em 2014 que mais de 10 mil cidades e vilas japonesas enfrentavam algum grau de esvaziamento populacional. Nagoro se tornou um exemplo particularmente visual desse processo porque os bonecos de Ayano ocupam justamente os lugares deixados pelos moradores.

Nagoro continua habitada por pessoas e bonecos

Mais de duas décadas depois que Tsukimi Ayano começou a costurar suas primeiras figuras, Nagoro continua enfrentando o esvaziamento populacional. Relatos recentes apontam que a vila tinha apenas 27 moradores humanos em 2025, enquanto cerca de 370 bonecos permaneciam espalhados pelas ruas, campos, pontos de ônibus e pela antiga escola.

As figuras também continuam sendo cuidadas. Ayano mantém registros com nomes, idades, personalidades e histórias para os personagens e revisa suas roupas e acessórios, enquanto alguns bonecos precisam ser substituídos depois de anos expostos ao sol e à chuva. A vila segue recebendo visitantes atraídos justamente por essa paisagem incomum.