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Criminosos sabem nome, hospital e até detalhes da doença do paciente antes de ligar para família e pedir Pix urgente

Tudo começa com um telefonema ou uma mensagem: alguém se identifica como médico ou funcionário do hospital e informa que é preciso pagar imediatamente por…


Por Evellyn Nascimento

18/09/2026 às 14h46

Criminosos sabem nome, hospital e até detalhes da doença do paciente antes de ligar para família e pedir Pix urgente
Foto: Reprodução/Canva

Tudo começa com um telefonema ou uma mensagem: alguém se identifica como médico ou funcionário do hospital e informa que é preciso pagar imediatamente por um exame ou procedimento do paciente internado. Para tornar a história convincente, o golpista já pode saber o nome completo, o CPF, o motivo da internação, o nome do médico e até o setor onde a pessoa está, geralmente a UTI.

O chamado golpe do falso médico ou golpe do hospital explora justamente a situação de vulnerabilidade das famílias. Os criminosos inventam uma piora repentina no quadro clínico ou uma complicação que exigiria um procedimento adicional, supostamente não coberto pelo plano de saúde ou pelo SUS. A partir daí, pressionam os familiares a fazer um pagamento com urgência.

Hospitais públicos e privados não fazem cobranças emergenciais por Pix ou transferência bancária por telefone ou WhatsApp. Por isso, um pedido inesperado de dinheiro, principalmente acompanhado de ameaças de cancelamento de cirurgia ou piora do paciente caso o valor não seja pago, é um sinal de alerta.

Como a farsa é montada

A abordagem costuma ocorrer por telefone ou WhatsApp, com o criminoso se apresentando como médico ou outro funcionário da instituição. O uso de termos técnicos, informações sobre o tratamento e detalhes verdadeiros da internação ajuda a criar a impressão de que a pessoa realmente trabalha no hospital.

Há também casos em que a abordagem acontece presencialmente. Segundo alerta citado pelo Comprova, criminosos podem ir até a residência de familiares, apresentar documentos para assinatura e tentar receber em dinheiro ou cartão. Em outras situações, pedem que a família faça uma transferência para uma conta de terceiros para liberar o suposto exame ou procedimento.

Um dos elementos mais importantes para a fraude funcionar é a utilização de informações reais. Nome completo, CPF, histórico médico, motivo da internação e setor onde o paciente está podem ter sido obtidos de forma indevida. Com esses dados, o golpista consegue construir uma história específica para cada vítima, em vez de fazer apenas uma abordagem genérica.

De onde podem vir os dados usados pelos criminosos

Informações de saúde são especialmente sensíveis e podem chegar às mãos de criminosos por diferentes caminhos. De acordo com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), incidentes de segurança podem envolver roubo de credenciais, acesso não autorizado a sistemas, divulgação indevida de dados e falhas de segurança que permitam atividades maliciosas.

Entre janeiro e o início de setembro de 2026, foram registradas 43 comunicações formais de incidentes de segurança no setor de saúde, segundo dados do painel da ANPD citados pelo Comprova. Dez casos envolveram roubo de credenciais, oito foram relacionados a acesso não autorizado a sistemas, sete envolveram divulgação indevida de dados pessoais e cinco foram classificados como sequestro de dados. O setor privado concentrou 88% dos registros.

Isso não significa que todos esses incidentes tenham relação com o golpe do falso médico. Os registros da ANPD abrangem diferentes tipos de problemas de segurança. O dado ajuda, porém, a mostrar por que informações de pacientes podem acabar expostas ou acessadas de maneira indevida.

A Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) afirmou ao Comprova que os hospitais associados vêm aprimorando continuamente mecanismos de proteção e segurança de dados. A entidade também orienta pacientes e familiares a evitar o compartilhamento desnecessário de informações pessoais.

Como identificar uma cobrança falsa

O pedido de pagamento urgente é um dos principais sinais de alerta. A orientação é não seguir as instruções recebidas na ligação ou na mensagem antes de confirmar diretamente com a instituição. O familiar deve procurar o hospital por um canal oficial, como o telefone informado no material de internação, no site da instituição ou diretamente na recepção.

Outro detalhe merece atenção: a conta indicada para o pagamento. Se o suposto funcionário pedir um Pix ou depósito para uma pessoa física, em vez do CNPJ oficial do hospital, a situação deve ser tratada como suspeita.

Também não é recomendável retornar a ligação para o mesmo número que entrou em contato com a família. O mais seguro é procurar o telefone oficial da instituição e confirmar a informação com a equipe responsável pelo atendimento. Em caso de dúvida, a família ainda pode procurar a Ouvidoria ou o Serviço Social do hospital para verificar se existe alguma cobrança legítima e como ela deve ser realizada.

O que fazer se a família cair no golpe

Quem receber uma abordagem desse tipo deve evitar fornecer novos dados pessoais ou financeiros e não precisa continuar conversando com o suposto médico. Se houver prejuízo, é importante guardar comprovantes do Pix ou da transferência, números de telefone, mensagens, documentos enviados pelos criminosos e qualquer outra evidência da abordagem.

Também é possível registrar um boletim de ocorrência por estelionato na Polícia Civil, inclusive pela internet, dependendo do estado. O consumidor pode ainda procurar o Procon e a plataforma consumidor.gov.br para registrar uma reclamação.

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) orienta que vítimas também podem buscar a reparação dos prejuízos junto ao hospital e ao plano de saúde, conforme as circunstâncias do caso. O artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor prevê responsabilidade objetiva dos fornecedores por danos causados por defeitos na prestação de serviços, mas a aplicação da regra a uma fraude desse tipo depende da análise concreta do caso.

Quando o criminoso se apresenta falsamente como médico, a vítima também pode encaminhar denúncia ao Conselho Federal de Medicina ou à corregedoria correspondente, seguindo os procedimentos previstos pelo órgão.