Comer olhando para o celular pode fazer cérebro perceber menos a refeição e aumentar vontade de comer novamente pouco tempo depois

Muito se fala sobre os efeitos da utilização do celular em diversos momentos do dia a dia. Entre eles está a hora da refeição, na qual muitas pessoas têm o hábito de comer olhando para o celular. Porém, o que elas não sabem é que isso pode fazer o cérebro perceber menos a refeição e reduzir a própria saciedade, fazendo-a comer ainda mais pouco tempo depois.
A afirmação foi realizada por especialistas ouvidos pelo site argentino Infobae. A relação entre tela e alimentação não está necessariamente ligada ao alimento escolhido, mas à atenção que a pessoa dedica ao momento em que está comendo. Quando essa atenção é dividida, alguns dos sinais que normalmente ajudam a reconhecer a satisfação podem passar despercebidos.
O que acontece quando a atenção está voltada para a tela?
Uma refeição envolve muito mais do que colocar comida na boca. O cérebro recebe informações relacionadas ao sabor, cheiro, textura, quantidade e ao próprio ato de mastigar. Essas informações participam da construção da percepção de que uma refeição aconteceu e ajudam o organismo a interpretar os sinais de saciedade.
Quando o celular ocupa parte importante da atenção, esse processo pode acontecer de maneira menos consciente. A pessoa continua ingerindo os alimentos, mas acompanha simultaneamente outro estímulo que exige sua concentração.
A médica Marianela Aguirre Ackermann, especialista em Medicina Interna e Nutrição e vice-presidente da Sociedade Argentina de Nutrição, explica que a alimentação é influenciada por diversos elementos, entre eles o contexto no qual a refeição acontece.
O médico Martín Giannini, especialista em Nutrição e Obesidade, também chama atenção para a maneira como a experiência é registrada. Para ele, uma refeição realizada de forma automática pode ser percebida de maneira diferente daquela em que a pessoa está efetivamente concentrada no que está fazendo.
A distração pode interferir na percepção de saciedade
A saciedade não aparece simplesmente porque determinado alimento chegou ao estômago. Trata-se de um processo que envolve diferentes sinais fisiológicos e também a percepção da própria refeição.
Por isso, prestar atenção ao que está sendo consumido pode ter importância. Se a pessoa está concentrada em um vídeo ou em uma conversa pelo celular, pode terminar de comer sem ter percebido adequadamente quanto ingeriu ou em que momento começou a se sentir satisfeita.
Isso ajuda a explicar uma situação bastante comum: terminar o prato enquanto assiste a alguma coisa e, pouco depois, voltar a procurar comida. Não significa necessariamente que o organismo não tenha recebido energia suficiente. A questão pode estar relacionada à maneira como a refeição foi percebida e registrada.
Segundo os especialistas citados pelo Infobae, essa relação merece atenção principalmente porque os efeitos da distração podem aparecer também em momentos posteriores.
O impacto pode aparecer na refeição seguinte
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 analisou diferentes formas de distração durante as refeições. De acordo com a explicação apresentada por Aguirre Ackermann, os resultados não indicaram um aumento expressivo e uniforme da quantidade consumida na própria refeição quando os diferentes tipos de distração foram considerados em conjunto.
O resultado observado posteriormente foi mais relevante. Pessoas que haviam realizado uma refeição sob distração apresentaram maior consumo de alimentos em uma refeição seguinte.
Uma das hipóteses para explicar esse comportamento está relacionada à memória da alimentação. Quando a experiência é pouco registrada, pode ser mais difícil para o cérebro utilizar aquela refeição como referência para regular o comportamento alimentar posteriormente.
Comer no automático também muda a relação com a comida
A questão envolve ainda a diferença entre alimentação consciente e comportamento alimentar automático.
Uma pessoa que presta atenção à refeição tende a perceber melhor aspectos como o sabor, a quantidade disponível no prato e o momento em que começa a ficar satisfeita. Já quem está envolvido em outra atividade pode simplesmente continuar comendo enquanto a atenção está direcionada para outro lugar.
Giannini destaca que uma das consequências possíveis é justamente uma menor percepção da experiência alimentar. O indivíduo pode terminar a refeição sem ter acompanhado mentalmente o que aconteceu durante aquele período.
Esse mecanismo não significa que o celular tenha capacidade de eliminar a saciedade. O ponto é que a distração pode dificultar a identificação de informações que normalmente ajudam a pessoa a perceber que já comeu o suficiente.
Existem outros estímulos que despertam vontade de comer
O celular ainda pode influenciar a alimentação de uma segunda maneira: pelo próprio conteúdo apresentado na tela.
Vídeos de receitas, fotografias de pratos, anúncios de restaurantes, aplicativos de entrega e publicações relacionadas a comida podem funcionar como estímulos capazes de despertar o desejo de comer.
Nesse caso, a pessoa pode sentir vontade de consumir determinado alimento mesmo sem apresentar uma necessidade fisiológica imediata de energia. O ambiente digital passa a fazer parte do conjunto de estímulos que podem influenciar a decisão de comer.
Como reduzir a distração durante as refeições?
Não é necessário transformar todas as refeições em momentos rígidos. Uma mudança simples pode ser reservar parte delas para comer sem acompanhar constantemente uma tela.
Durante esse período, prestar atenção ao sabor dos alimentos, mastigar com calma e observar o momento em que a fome começa a diminuir pode ajudar a pessoa a reconhecer melhor a própria experiência alimentar.
Também pode ser útil evitar conteúdos relacionados a comida durante e imediatamente depois das refeições, principalmente para quem percebe que imagens e vídeos despertam vontade de comer sem que exista fome.








