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Cientistas sobrevoaram a Amazônia, usaram tecnologia capaz de enxergar através da copa das árvores e descobriram construções antigas, mudando o que se sabia sobre quem viveu na floresta

Estimativas globais de ocupação amazônica pré-colonial podem aumentar novamente, passando de 5 a 10 milhões de pessoas.


Por Bernardo Teixeira

04/10/2026 às 11h36

Cientistas sobrevoaram a Amazônia, usaram tecnologia capaz de enxergar através da copa das árvores e descobriram construções antigas, mudando o que se sabia sobre quem viveu na floresta
Foto: Nando Freitas/Pexels

Equipamentos que disparam lasers desde aviões revelaram centenas de estruturas monumentais escondidas sob a densa vegetação da Amazônia e ampliaram o conhecimento sobre as civilizações pré-coloniais da região. Pesquisadores mapearam 432 geoglifos entre o Amazonas e o Acre. Desses, 396 nunca haviam sido documentados, e as estruturas foram erguidas entre 600 a.C, e 850 d.C, e pela civilização Aquiry.

Publicada em julho no periódico Nature, a descoberta indica que essa região relativamente pequena, com cerca de 183 mil km², abrigava até 3 milhões de pessoas. O dado sugere que as estimativas globais de ocupação amazônica pré-colonial, antes calculadas entre 1 milhão e 2,5 milhões de pessoas, podem estar muito aquém da realidade.

Estudos posteriores elevaram essas estimativas para 5 a 10 milhões, número que pode aumentar novamente com as novas descobertas. O achado contraria a narrativa tradicional de uma Amazônia intocada antes da colonização europeia. E indica que a floresta funcionava como um grande jardim, construído ao longo do tempo por sociedades complexas com conhecimento avançado em geometria, construção e organização.

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Foto: Martti Pärssinen & Fabio de Novaes / BBC News Brasil

Como a tecnologia revelou o passado

O LiDAR, equipamento que emite lasers para medir distâncias e criar mapas tridimensionais, consegue penetrar a cobertura florestal densa onde a visão convencional falha. Na Amazônia, isso permitiu aos cientistas identificar estruturas enterradas ou encobertas pela copa sem necessidade de desmatamento ou exploração presencial de cada localidade.

O levantamento cobriu 4,4 mil km², com imagens de satélite como complemento, e foi a primeira avaliação de grande escala com essa tecnologia na região, segundo pesquisadores da Universidade de Helsinki. O trabalho envolveu cientistas do Instituto Iberoamericano da Finlândia, da Universidade de Helsinki, da Universidade de Turku, da Universidade Federal do Acre e da Universidade Federal do Pará.

Linda paisagem do Rio Tena com floresta verdejante e céu azul.
Foto: Jeff Stapleton/Pexels

Quem eram os Aquiry

Os geoglifos, estruturas de terra escavadas no solo, formavam uma rede conectada por aproximadamente 350 quilômetros de estradas e serviam a propósitos cerimoniais. Com até 15 metros de largura e cinco metros de profundidade, essas construções demonstram que os Aquiry dominavam uma geometria sofisticada.

A civilização ocupava áreas de terra firme, o interior entre rios, onde estabeleceu populações densas, contrariando a crença anterior de que a Amazônia pré-colonial se concentrava apenas nas margens dos grandes rios. Os Aquiry também residiam nas proximidades de grandes cursos d’água, mas sua presença no interior era igualmente significativa.

Deslocavam-se a pé por caminhos mapeados que conectavam as estruturas. Entre os anos 100 e 300 d.C., a região atingiu seu pico demográfico. As estruturas funcionavam como espaços para encontros, decisões políticas, festividades, dança e música, não como habitações permanentes, mas recebiam manutenção constante ao longo dos séculos.

O maior sítio descoberto ocupa 50 hectares, o equivalente a 70 campos de futebol, o que dá a dimensão do projeto civilizatório.

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Foto: Martti Pärssinen / BBC News Brasil