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Cientistas encontram mais de 400 construções antigas na Floresta Amazônica e revelam que cerca de 3 milhões de habitantes viviam no Acre há 2 mil anos


Por Matheus Chaves

06/09/2026 às 18h47

Cientistas encontram mais de 400 construções antigas na Floresta Amazônica e revelam que cerca de 3 milhões de habitantes viviam no Acre há 2 mil anos
Imagem: Brgfx/Magnific

Atualmente, o Acre é um estado brasileiro que possui menos de 1 milhão de habitantes, mas, segundo cientistas, uma sociedade milenar no local contava com cerca de 3 milhões de habitantes. Além disso, a pesquisa, publicada na revista Nature, mostrou mais de 400 construções antigas na Floresta Amazônica.

O estudo, porém, apresenta uma descoberta ainda mais ampla: a ocupação não estava concentrada apenas no território acreano. Os pesquisadores identificaram evidências de uma sociedade chamada Aquiry em uma área de aproximadamente 183 mil km², abrangendo partes do Acre, Amazonas, Rondônia, além de regiões da Bolívia e do Peru. A estimativa populacional para o período de maior expansão, entre os anos 100 e 300, ficou entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas.

Como os cientistas encontraram as estruturas escondidas pela floresta

O principal obstáculo para estudar essa ocupação antiga é justamente a vegetação. A Floresta Amazônica cobre grande parte das estruturas construídas pelos povos que viveram na região, o que dificulta sua identificação por imagens convencionais de satélite.

Para superar esse problema, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia conhecida como LiDAR, que emprega pulsos de laser emitidos a partir de aeronaves para produzir modelos tridimensionais do terreno. Como parte dos feixes consegue atravessar os espaços existentes entre as folhas e galhos, o método permite identificar alterações no relevo mesmo quando elas estão escondidas pela floresta.

Em 2024, a equipe realizou levantamentos aéreos que percorreram cerca de 4.430 quilômetros de linhas de voo e cobriram aproximadamente 4.497 km² nos estados do Acre e Amazonas. Nessas áreas, foram identificadas 432 estruturas, das quais apenas 36 eram conhecidas anteriormente.

O resultado mostra por que levantamentos realizados apenas em áreas desmatadas podem subestimar o tamanho da ocupação humana antiga. Em uma das regiões analisadas, o LiDAR encontrou cinco vezes mais estruturas do que as imagens de satélite haviam revelado.

O que eram essas construções?

As estruturas não correspondem necessariamente a casas onde milhares de pessoas permaneciam durante todo o ano. Muitas delas são grandes formas geométricas construídas no solo, conhecidas como geoglifos.

Esses monumentos podem apresentar formatos quadrangulares, poligonais ou circulares e são delimitados por valas e elevações de terra. Algumas estruturas possuem dimensões que variam de menos de 1 hectare a quase 50 hectares.

A pesquisa indica que esses espaços tinham funções públicas, políticas e cerimoniais. Ou seja, a existência de um geoglifo não significa que todas as pessoas associadas a ele morassem permanentemente dentro da estrutura.

Essa diferença é importante para compreender a estimativa populacional. Os pesquisadores analisaram a quantidade de construções, os períodos em que elas provavelmente estavam em uso e a força de trabalho necessária para construir e manter esses espaços.

Uma sociedade que exigia organização

Construir grandes estruturas de terra dentro da floresta exigia muito mais do que simplesmente movimentar o solo. Segundo os pesquisadores, os monumentos indicam a existência de mão de obra organizada, divisão de tarefas e conhecimento de geometria e matemática.

A construção também ocorreu durante um período prolongado. Alguns geoglifos foram erguidos entre aproximadamente 600 a.C. e 850 d.C., enquanto determinadas estruturas associadas à sociedade Aquiry começaram a ser construídas há mais de 2,5 mil anos.

Isso significa que a presença humana na região não era formada apenas por pequenos grupos isolados. A manutenção desses centros durante séculos indica a existência de mecanismos sociais capazes de mobilizar pessoas para obras coletivas e atividades cerimoniais.

Como os pesquisadores chegaram aos milhões de habitantes?

A estimativa de até 3 milhões de habitantes não representa uma contagem direta da população que viveu na região. Os pesquisadores utilizaram evidências arqueológicas, a distribuição das estruturas identificadas e modelos de ocupação para calcular qual poderia ter sido o tamanho da população durante o período de maior desenvolvimento da sociedade Aquiry.

Nos levantamentos realizados com tecnologia LiDAR, a equipe identificou 432 estruturas, sendo 396 que não haviam sido registradas anteriormente. A partir desses dados e da distribuição dos vestígios pela região, os pesquisadores estimaram que a área cultural associada à sociedade Aquiry, que se estendia por aproximadamente 183 mil km², poderia conter entre 24 mil e 30 mil estruturas de terra.

Esse número não significa que todas essas construções tenham sido utilizadas ao mesmo tempo ou que todas tenham pertencido ao mesmo período. A ocupação da região ocorreu ao longo de séculos, com diferentes tipos de estruturas e mudanças na forma como o território era utilizado.

Para estimar a população, os cientistas consideraram a quantidade e a distribuição dos assentamentos e utilizaram modelos demográficos para reconstruir a dimensão que essa sociedade poderia ter alcançado. O resultado aponta para uma população entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas durante o auge da ocupação, entre aproximadamente 100 e 300 d.C.

Portanto, os 3 milhões representam o limite superior de uma estimativa científica, e não um número exato de habitantes. A projeção também ajuda a dimensionar o tamanho da sociedade Aquiry, já que os vestígios encontrados indicam uma ocupação muito mais extensa e numerosa do que a registrada anteriormente na região.

O Acre era apenas uma parte desse território

Um dos pontos mais relevantes da descoberta é justamente a dimensão geográfica. A sociedade Aquiry não estava limitada ao atual Acre.

Os pesquisadores identificaram uma área cultural que se estendia por aproximadamente 183 mil km². A maior concentração de estruturas aparece no Acre, mas o conjunto também alcançava áreas do Amazonas, Rondônia, Bolívia e Peru.

A distribuição indica que a ocupação humana na Amazônia pré-colonial era muito mais extensa do que a visão tradicional de pequenos grupos vivendo exclusivamente próximos aos grandes rios.

Os geoglifos mostram que áreas de terra firme, que representam mais de 90% da Amazônia, também podiam sustentar populações relativamente densas. Isso altera a compreensão sobre a forma como essas sociedades utilizavam a floresta.

A floresta pode ter sido modificada pelos antigos habitantes

A descoberta também tem implicações para o próprio ambiente amazônico. Se milhões de pessoas viveram naquela região durante o auge da sociedade Aquiry, a relação entre população e floresta provavelmente foi mais intensa do que se imaginava anteriormente.

Os pesquisadores destacam que uma ocupação desse tamanho pode ter provocado alterações na estrutura da vegetação, no solo, na biodiversidade e até nos modelos utilizados para reconstruir o clima do passado.

Isso não significa que a Amazônia tenha sido totalmente desmatada. A questão é diferente: atividades agrícolas, abertura de áreas, construção de monumentos e manejo de determinadas espécies podem modificar a floresta sem necessariamente transformá-la em uma paisagem completamente aberta.

A própria pesquisa aponta que os resultados podem exigir uma revisão das estimativas sobre a população pré-colonial da Amazônia e sobre o impacto dessas sociedades na formação da paisagem atual.

Por que a descoberta muda a história da Amazônia?

Durante muito tempo, a imagem de uma Amazônia pouco ocupada antes da chegada dos europeus influenciou a interpretação sobre a história da região. O avanço de tecnologias como o LiDAR vem mostrando que essa visão não explica todos os vestígios encontrados sob a floresta.

No caso da sociedade Aquiry, as construções geométricas revelam uma organização capaz de produzir monumentos de grandes dimensões e mantê-los por muitas gerações.

O mais surpreendente é que boa parte dessa história permaneceu escondida não por estar enterrada profundamente, mas porque a floresta cresceu sobre as estruturas. O uso do laser permitiu retirar virtualmente essa camada de vegetação e observar o relevo produzido por sociedades que viveram ali há milhares de anos.

A pesquisa publicada na Nature, portanto, não apenas aumenta o número de estruturas conhecidas. Ela também amplia a escala da ocupação humana estimada para o sudoeste da Amazônia e indica que a região abrigou sociedades muito mais numerosas e organizadas do que os registros arqueológicos tradicionais conseguiam demonstrar.