Cidade mineira que inventou um idioma para enganar patrões ingleses há 100 anos fala até hoje
Cidade mineira preserva código criado por trabalhadores há um século para comunicação secreta, hoje símbolo de cultura e resistência

Poucas pessoas imaginam que uma das manifestações linguísticas mais curiosas do Brasil nasceu em uma cidade conhecida por sua ligação com a mineração e com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Em Itabira (MG), a Guinlagem do Camaco atravessou gerações e permanece como uma marca cultural do município, mesmo tendo surgido originalmente como uma forma de comunicação secreta entre trabalhadores das minas de ferro.
Reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Itabira em 2023, a manifestação surgiu no início do século XX como uma estratégia de comunicação entre os operários. Por meio do código, os trabalhadores conseguiam conversar sem que supervisores e administradores estrangeiros, principalmente ingleses, compreendessem os assuntos discutidos.
Idioma da cidade mineira
- Funcionamento da linguagem: a Guinlagem do Camaco transforma palavras por meio da inversão dos sons das sílabas, criando uma fala difícil de compreender para quem não conhece a regra.
- Origem do nome: a própria expressão “Guinlagem do Camaco” segue a lógica do código e corresponde a “Linguagem do Macaco”.
- Transmissão cultural: o que começou como uma ferramenta de comunicação nas minas passou a fazer parte do cotidiano da cidade, sendo transmitido entre familiares e utilizado por diferentes gerações.
- Uso atual: moradores incorporaram expressões do Camaco ao vocabulário local, com adaptações feitas ao longo do tempo em conversas e brincadeiras.
- Preservação da tradição: com a redução no número de falantes, pesquisadores, artistas e educadores trabalham para registrar e divulgar a manifestação.
- Importância cultural: a linguagem é vista como símbolo da criatividade, resistência e memória dos trabalhadores de Itabira.
Códigos próprios brasileiros
A Guinlagem do Camaco não é a única manifestação brasileira criada a partir de códigos próprios de comunicação. No Rio de Janeiro, a Gualin do TTK utiliza a inversão de sílabas como forma de identidade cultural, enquanto comunidades afro-brasileiras, como Cafundó (SP) e Tabatinga (MG), preservam variedades linguísticas com influência africana.
Além dessas expressões, o país reúne centenas de línguas indígenas e diferentes línguas de sinais desenvolvidas por comunidades específicas. Essas manifestações revelam a diversidade linguística existente no território brasileiro e a forma como grupos preservam suas histórias e identidades.









