Chegar aos 90 anos com a memória intacta não encerra risco de demência, e mulheres enfrentaram perigo duas vezes maior
Chegar à nona década de vida sem sinais de demência não significa que o risco da doença desapareceu. É o que indica um estudo publicado na revista The…

Chegar à nona década de vida sem sinais de demência não significa que o risco da doença desapareceu. É o que indica um estudo publicado na revista The Lancet Healthy Longevity, que acompanhou 805 pessoas com 90 anos ou mais e sem demência no início da pesquisa.
Os participantes tinham idade mediana de 92 anos e foram avaliados a cada seis meses entre 2018 e 2024. Durante um acompanhamento médio de dois anos, 138 pessoas desenvolveram demência. A incidência encontrada foi de aproximadamente 117 casos para cada mil pessoas por ano, mostrando que o surgimento da doença continua sendo relevante mesmo entre os chamados “longevos excepcionais”.
O trabalho faz parte do estudo LifeAfter90, conduzido por pesquisadores da UC Davis Health e da Kaiser Permanente. Além de acompanhar a ocorrência de demência, os cientistas analisaram diferenças relacionadas ao sexo, raça e etnia e ao gene APOE, associado à doença de Alzheimer.
Mulheres apresentaram risco maior após os 90
Um dos principais resultados foi a diferença entre homens e mulheres. Participantes do sexo feminino com 90 anos ou mais apresentaram risco de demência 89% maior que os homens da mesma faixa etária, o que equivale a quase o dobro.
A diferença chama atenção porque ainda existem lacunas sobre os fatores que explicam o risco de demência em idades tão avançadas. Segundo Rachel Whitmer, autora sênior do estudo, pesquisas anteriores já haviam mostrado taxas diferentes entre homens e mulheres em idades mais jovens, mas não estava claro se o padrão permaneceria depois dos 90 anos.
Os pesquisadores ressaltam que o resultado representa uma associação observada na população estudada e não significa que toda mulher acima de 90 anos terá necessariamente maior probabilidade individual de desenvolver demência.
Diferenças raciais e étnicas também permaneceram
O estudo identificou diferenças importantes entre os grupos raciais e étnicos. Participantes negros apresentaram risco 75% maior de demência em comparação com participantes asiáticos.
Os pesquisadores também observaram taxas de incidência mais altas entre participantes negros e hispânicos do que entre brancos e asiáticos. Para Hilary Colbeth, autora principal da pesquisa, é marcante que desigualdades já observadas em idades mais jovens continuem presentes entre pessoas na décima década de vida.
O resultado é especialmente relevante porque a população estudada foi considerada diversificada em comparação com pesquisas anteriores sobre pessoas muito idosas. Dos 805 participantes, 26% eram asiáticos, 24% negros, 20% hispânicos ou latinos e 28% brancos.
Gene ligado ao Alzheimer teve efeitos diferentes
Os pesquisadores também analisaram o gene APOE, que participa do metabolismo das gorduras e tem variantes associadas a diferentes níveis de risco para a doença de Alzheimer.
A variante APOE2 apareceu associada a um efeito protetor: os portadores apresentaram risco de demência cerca de 60% menor que os participantes que não carregavam essa variante. O resultado indica que a influência dessa característica genética pode permanecer mesmo depois dos 90 anos.
Já a APOE4, conhecida por estar relacionada a maior risco de Alzheimer, não apresentou uma associação estatisticamente significativa com o aumento da incidência de demência quando todos os participantes foram analisados em conjunto. Quando os pesquisadores dividiram os resultados por grupos, porém, encontraram diferenças: a variante esteve associada a maior risco entre os homens e aproximadamente dobrou o risco entre participantes negros.
Isso não significa que o gene determine sozinho quem desenvolverá demência. Os próprios pesquisadores destacam que os efeitos observados variaram conforme sexo e grupo racial ou étnico, indicando uma relação mais complexa entre genética e envelhecimento.
Alguns idosos permaneceram protegidos mesmo com fatores de risco
Outro ponto que chamou a atenção da equipe foi a existência de participantes que chegaram aos 90 anos mantendo a cognição preservada mesmo apresentando fatores associados ao risco de demência.
Alguns tinham histórico de hipertensão ou colesterol elevado, enquanto outros carregavam a variante APOE4. Ainda assim, permaneceram sem diagnóstico de demência durante o período analisado. Os pesquisadores querem investigar quais características biológicas ou ambientais podem ajudar a explicar essa resistência ao declínio cognitivo.
A descoberta pode ajudar a entender por que determinadas pessoas envelhecem mantendo as funções cognitivas mesmo quando apresentam fatores considerados desfavoráveis. A expectativa é que esse conhecimento contribua, no futuro, para estratégias de prevenção e cuidados mais direcionados.
Risco continua mesmo entre quem chega aos 90 sem demência
O estudo reforça uma conclusão importante para o acompanhamento de pessoas muito idosas: alcançar os 90 anos com a cognição preservada não significa estar livre do risco de demência.
Rachel Whitmer afirma que profissionais de saúde não devem presumir que uma pessoa pertencente a um grupo com maior risco deixou de estar vulnerável simplesmente porque chegou a essa idade sem apresentar a doença. Para os pesquisadores, o acompanhamento da saúde cognitiva continua sendo importante mesmo entre os indivíduos que alcançam idades avançadas com boa preservação das funções mentais.
Os resultados também ajudam a preencher uma lacuna da ciência sobre o envelhecimento extremo. Com o aumento da população que chega aos 90 anos ou mais, compreender quem desenvolve demência nessa fase e quais fatores estão associados à proteção cognitiva pode se tornar cada vez mais importante para a medicina e para o planejamento dos cuidados de longo prazo.









