Centros de inteligência artificial e fábricas de chips vão exigir energia equivalente a 20 usinas nucleares em um único país
A expansão da inteligência artificial e da indústria de semicondutores deve aumentar significativamente a demanda por eletricidade na Coreia do Sul nos…

A expansão da inteligência artificial e da indústria de semicondutores deve aumentar significativamente a demanda por eletricidade na Coreia do Sul nos próximos anos. Segundo o ministro do Clima, Energia e Meio Ambiente do país, Kim Sung-hwan, somente os novos projetos de fabricantes de chips e a construção de centros de processamento de dados voltados à IA devem acrescentar entre 25 e 30 gigawatts à demanda nacional.
A quantidade é equivalente à capacidade de geração de aproximadamente 20 reatores nucleares, segundo estimativa apresentada pelo ministro em entrevista à Reuters. O aumento da necessidade energética ocorre principalmente diante dos planos de expansão da Samsung Electronics e da SK Hynix, duas das maiores fabricantes de semicondutores do mundo, além da construção de novos data centers.
A pressão sobre o sistema elétrico acontece enquanto a Coreia do Sul acelera investimentos para tentar se consolidar como uma potência global em inteligência artificial e semicondutores. Em junho, Samsung e SK Hynix anunciaram um investimento conjunto de 800 trilhões de won, cerca de US$ 518 bilhões, para a construção de quatro novas fábricas de chips na região sudoeste do país.
Por que a Coreia do Sul precisa de tanta energia?
A expansão da indústria de chips exige grandes quantidades de eletricidade para manter as fábricas em funcionamento, enquanto os centros de processamento de dados usados pela inteligência artificial também demandam energia continuamente para alimentar servidores e sistemas de refrigeração.
O projeto anunciado por Samsung e SK Hynix prevê duas novas fábricas para cada empresa no sudoeste sul-coreano. A iniciativa faz parte de um plano mais amplo do governo para ampliar a infraestrutura de semicondutores, inteligência artificial e outras tecnologias associadas.
Além dos investimentos em semicondutores, o governo sul-coreano também trabalha para ampliar a infraestrutura de data centers. A combinação desses projetos fez com que a disponibilidade de eletricidade passasse a ser considerada uma questão estratégica para a expansão da indústria de tecnologia.
A demanda, porém, não virá apenas da inteligência artificial e dos chips. De acordo com Kim Sung-hwan, a Coreia do Sul também precisará lidar com o aumento do consumo provocado pela adoção de veículos elétricos e pela substituição de sistemas de aquecimento a gás por equipamentos elétricos.
Energia nuclear entra no debate
Diante da perspectiva de aumento da demanda, o governo sul-coreano avalia ampliar a participação da energia nuclear na matriz elétrica. Atualmente, o país possui 26 reatores, responsáveis por quase um terço da geração de eletricidade nacional, segundo a Reuters.
A questão deverá fazer parte da atualização do plano energético de longo prazo da Coreia do Sul, que será estendido até 2040. O governo terá de definir como equilibrar a expansão da geração nuclear com outras fontes, como renováveis e gás natural, enquanto também considera a redução gradual do uso de carvão.
A energia nuclear ganhou força no debate justamente pela capacidade de fornecer eletricidade de forma contínua para uma indústria que não pode interromper facilmente suas operações. Segundo a Reuters, uma pesquisa citada pelo governo mostrou que 79% dos sul-coreanos apoiam a construção de novas usinas nucleares, embora ainda exista oposição em algumas regiões.
O avanço da inteligência artificial aumenta a pressão global
O caso sul-coreano faz parte de uma pressão mais ampla provocada pela expansão da inteligência artificial. Um relatório do United Nations University Institute for Water, Environment and Health, citado pela Reuters, estima que o consumo de eletricidade e água dos data centers poderá dobrar até 2030.
A projeção indica que os centros de processamento de dados poderão consumir 945 terawatts-hora de eletricidade por ano até o fim da década, volume comparável ao consumo anual de todo o Japão. A inteligência artificial deverá responder por cerca de 40% desse consumo.
O mesmo levantamento aponta que o consumo de água dos data centers poderá chegar a 9,3 trilhões de litros por ano em 2030, enquanto as emissões de dióxido de carbono associadas à infraestrutura devem aumentar significativamente.
A expansão também pressiona outros recursos, como terrenos, redes de transmissão e componentes eletrônicos. Para pesquisadores da ONU, o crescimento acelerado da infraestrutura de IA exige planejamento para evitar que a corrida tecnológica aumente problemas ambientais e de disponibilidade de recursos.
Estados Unidos também enfrentam pressão sobre a energia
Nos Estados Unidos, o crescimento da inteligência artificial já provoca impactos semelhantes sobre a demanda por eletricidade. A Energy Information Administration (EIA) projeta que o consumo norte-americano atingirá novos recordes em 2026 e 2027, impulsionado principalmente pela expansão dos data centers.
A preocupação com o consumo energético passou a influenciar decisões sobre eficiência dos semicondutores, em um cenário no qual a capacidade disponível de geração e transmissão se tornou um dos obstáculos para a expansão da infraestrutura de IA.
Grandes empresas de tecnologia também vêm buscando novas fontes de eletricidade para acompanhar o crescimento dos data centers. Amazon, Google e Meta estão entre as companhias que têm investido em projetos de energia nuclear e em tecnologias de reatores avançados para atender à crescente demanda energética.
Coreia do Sul acelera corrida por chips e inteligência artificial
A pressão sobre a infraestrutura energética está diretamente ligada à ambição sul-coreana de aproveitar o atual ciclo de expansão da inteligência artificial. Samsung e SK Hynix são líderes globais na fabricação de memórias utilizadas em sistemas de IA, especialmente as chamadas HBM (High Bandwidth Memory), essenciais para alimentar processadores avançados.
Em junho, as duas empresas anunciaram os investimentos de 800 trilhões de won para criar um novo polo de produção no sudoeste da Coreia do Sul. O plano prevê quatro fábricas de memória e integra uma estratégia nacional que também inclui investimentos em data centers e infraestrutura para inteligência artificial.
O desafio agora é garantir que a infraestrutura energética acompanhe a velocidade desses investimentos. A estimativa de que os novos projetos poderão exigir até 30 gigawatts deixa evidente a dimensão do problema: para sustentar a expansão da indústria de chips e dos data centers de IA, a Coreia do Sul precisará ampliar sua capacidade de geração justamente enquanto discute qual será o papel da energia nuclear em seu futuro energético.








