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Casal se mudou para uma antiga propriedade no meio do deserto, criou os três filhos no local e, quase uma década depois, seis espécies que haviam desaparecido da região já voltaram a viver por ali


Por Matheus Chaves

24/09/2026 às 00h20

Casal se mudou para uma antiga propriedade no meio do deserto, criou os três filhos no local e, quase uma década depois, seis espécies que haviam desaparecido da região já voltaram a viver por ali
Imagem: Magnific

O casal Bec West e Reece Pedler são especialistas em trabalhar com espécies ameaçadas de extinção e também em ações de conservação da natureza. Eles atuavam no Sul da Austrália, até que, em um certo momento, decidiram se inscrever para fazer parte do Wild Deserts, um importante projeto de restauração ambiental e conservação localizado no Parque Nacional Sturt, no noroeste de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Assim, se mudaram para uma antiga propriedade no meio do deserto, criaram seus três filhos e, agora, quase uma década depois, podem se orgulhar do fato de seis espécies que haviam desaparecido da região terem voltado a viver no local.

A nova casa ficava em Fort Grey, uma antiga propriedade de criação de gado incorporada ao Parque Nacional Sturt, em uma área remota do deserto australiano. Desde 2017, o casal passou a viver ali enquanto ajudava a conduzir o Wild Deserts, projeto desenvolvido para devolver à região animais que haviam desaparecido localmente havia mais de um século. A seguir, entenda essa história!

O problema não era apenas fazer os animais voltarem

O desaparecimento dos pequenos mamíferos nativos do interior australiano não ocorreu por uma única causa. Gatos e raposas introduzidos pelos europeus passaram a predar espécies que não haviam evoluído sob a mesma pressão, enquanto coelhos, cabras e outros animais introduzidos alteraram a disponibilidade de alimento e as condições do habitat.

Por isso, simplesmente soltar os animais novamente na natureza não seria suficiente. O Wild Deserts precisou primeiro criar condições para que eles tivessem alguma possibilidade de sobreviver. A equipe construiu duas áreas cercadas de aproximadamente 2 mil hectares cada, formando zonas livres de predadores invasores. Ao todo, foram instalados cerca de 50 quilômetros de cercas.

Antes mesmo de os cercados ficarem prontos, os pesquisadores começaram a localizar e eliminar tocas de coelhos, chegando a mapear aproximadamente mil delas. No início de 2019, as áreas foram consideradas livres de animais invasores, permitindo o início das reintroduções. Os primeiros bilbies e mulgaras-de-cauda-em-crista chegaram no ano seguinte.

A estratégia criou uma etapa intermediária entre o desaparecimento local e a vida completamente exposta aos predadores. Isso é importante porque os animais precisam não apenas sobreviver, mas recuperar comportamentos que serão úteis quando deixarem as áreas cercadas.

Seis espécies voltaram ao deserto

O programa conseguiu estabelecer populações de seis espécies que haviam desaparecido localmente: bandicotes da Baía dos Tubarões, os bandicotes dourados, os betongs, os quolls ocidentais, mulgara-de-cauda-em-crista e bilby-grande. O rato-de-ninho-de-pau também estava entre os animais inicialmente previstos, mas não conseguiu se adaptar às condições do local.

O retorno das espécies não representa apenas o aumento do número de animais. Ele recoloca no ambiente funções ecológicas que haviam desaparecido junto com eles.

Os mamíferos reintroduzidos são considerados “engenheiros do ecossistema”. Ao cavar em busca de alimento e construir tocas, eles revolvem o solo, transportam nutrientes e criam pequenas depressões capazes de reter água e sementes. Na prática, o comportamento dos próprios animais pode ajudar a modificar o ambiente.

O casal precisou criar uma segunda etapa para os animais

As cercas resolveram apenas uma parte do problema. Um animal que vive exclusivamente em uma área sem predadores pode se reproduzir, mas isso não significa que esteja preparado para enfrentar as condições encontradas no restante do deserto.

Por isso, o Wild Deserts criou uma área de treinamento de aproximadamente 100 quilômetros quadrados. Nesse espaço, os animais convivem com uma presença controlada de gatos ferais, em densidade muito menor do que a encontrada fora da área de conservação.

A intenção é permitir que eles desenvolvam respostas de sobrevivência antes de ocupar regiões completamente abertas. Os pesquisadores acompanham os indivíduos com armadilhas, monitoramento e colares de rádio para verificar onde estão, como se movimentam e se conseguem escapar dos predadores.

Esse modelo diferencia o projeto de um santuário convencional. Em uma área totalmente livre de predadores, a proteção pode garantir a sobrevivência dos animais, mas não permite testar se eles conseguem enfrentar as ameaças presentes no ambiente australiano atual.

O objetivo do Wild Deserts é justamente descobrir se espécies que desapareceram por causa dos predadores introduzidos podem reaprender a viver em um cenário no qual esses animais continuam existindo. Em 2024, algumas delas já haviam começado a ocupar áreas além das cercas de proteção.

As condições climáticas também ajudaram na recuperação

A restauração não aconteceu apenas por causa das intervenções humanas. O clima dos últimos anos também criou condições favoráveis para a recuperação do ecossistema.

Durante a fase inicial do projeto, a seca facilitou a localização e o controle de alguns animais invasores. Depois, períodos de chuva acima da média aumentaram a disponibilidade de alimento, cobertura vegetal e água, favorecendo a reprodução dos animais reintroduzidos.

Essa diferença é importante para interpretar os resultados. O crescimento das populações não pode ser atribuído exclusivamente ao projeto, porque fatores climáticos também interferiram na disponibilidade de recursos. Ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram mudanças ambientais nas áreas ocupadas pelos animais que são compatíveis com a restauração das funções ecológicas.

A própria equipe descreve o momento atual como uma combinação de boas condições sazonais e efeitos do trabalho de recuperação. O desafio será descobrir se as populações conseguirão manter esse desempenho quando o deserto voltar a enfrentar períodos de seca.

A vida familiar aconteceu no mesmo lugar onde a pesquisa era realizada

Enquanto o projeto avançava, Fort Grey também se tornou a casa de Bec e Reece. Os três filhos do casal nasceram depois que eles se mudaram para a propriedade e cresceram em contato direto com a rotina da equipe de conservação.

A distância dos grandes centros urbanos é significativa: o local fica a mais de mil quilômetros de Sydney. Mesmo assim, o casal passou a envolver moradores da região nas atividades do projeto, incluindo famílias de propriedades rurais próximas que participaram de solturas de animais.

Essa relação com a comunidade passou a ser considerada uma parte importante do trabalho. Para os pesquisadores, a conservação em uma região tão extensa e remota depende não apenas de cercas e monitoramento científico, mas também da participação das pessoas que vivem ao redor do parque.

A estratégia também ajuda a aproximar um projeto de restauração ambiental de quem trabalha tradicionalmente com a paisagem. Em vez de tratar o parque como uma área isolada do restante da região, a equipe tenta criar uma rede que inclua pesquisadores, gestores públicos, moradores e propriedades vizinhas.