Casal encontra corpo preso no gelo e pensa que alpinista havia acabado de morrer, mas cientistas descobrem homem assassinado há 5.300 anos

Em setembro de 1991, um casal de turistas alemães caminhava pelos Alpes quando encontrou parte de um corpo humano presa no gelo. A primeira hipótese era relativamente simples: poderia ser um alpinista que havia morrido recentemente durante uma travessia. O que ninguém imaginava naquele momento era que aquele cadáver estava preservado havia 5.300 anos. Décadas de pesquisas transformaram o achado em um dos mais importantes estudos arqueológicos já realizados sobre um indivíduo pré-histórico.
O homem recebeu o nome de Ötzi e viveu durante a Idade do Cobre. Seu corpo foi encontrado a cerca de 3.210 metros de altitude, na região de Tisenjoch, nos Alpes de Ötztal, próxima à atual fronteira entre Itália e Áustria.
A preservação provocada pelo gelo manteve não apenas partes do corpo, mas também roupas, ferramentas, armas e outros objetos que estavam com ele. Isso permitiu aos pesquisadores reconstruir aspectos da alimentação, da saúde, da tecnologia e até dos últimos momentos de vida daquele homem.

O gelo preservou muito mais do que o corpo
A importância de Ötzi está justamente na quantidade de informações que permaneceram disponíveis. Em muitos achados arqueológicos, pesquisadores precisam trabalhar principalmente com ossos, fragmentos de objetos e vestígios deixados no ambiente. No caso do Homem do Gelo, o congelamento natural preservou tecidos, roupas e parte do conteúdo do organismo.
Isso permitiu identificar elementos que ajudam a reconstruir sua rotina. Ötzi usava roupas confeccionadas com diferentes tipos de pele e fibras vegetais e carregava ferramentas que demonstravam conhecimento sobre caça, fabricação de objetos e produção de fogo.
Entre os itens estava uma machadinha de cobre com lâmina praticamente intacta. A quantidade e a variedade desses objetos mostram que Ötzi não estava simplesmente atravessando as montanhas sem recursos. Ele carregava um conjunto de ferramentas adequado para sobreviver em um ambiente difícil.
A descoberta do ferimento mudou completamente o caso
Durante os primeiros anos de investigação, os cientistas ainda precisavam determinar como aquele homem havia morrido.
A resposta começou a aparecer quando exames de imagem identificaram uma ponta de flecha alojada na região do ombro esquerdo. O objeto havia penetrado no corpo e provocado uma lesão grave.
A análise revelou também que Ötzi apresentava um corte profundo na mão direita, compatível com uma lesão ocorrida antes da morte. O ferimento indicava que ele havia participado de algum tipo de confronto físico pouco antes de morrer.
A combinação das evidências mudou a interpretação do caso. O que inicialmente parecia um acidente nas montanhas passou a ser tratado como um homicídio ocorrido durante a Idade do Cobre.
A conclusão ganhou ainda mais força porque a flecha havia atingido uma região próxima a uma artéria importante. Durante anos, essa lesão foi considerada a principal explicação para a morte.
Pesquisas mais recentes, porém, acrescentaram uma ressalva importante: uma análise clínica publicada em 2025 questionou a ideia de que Ötzi teria morrido imediatamente após ser atingido. A reconstrução indica que o sangramento externo pode ter sido menor do que se imaginava e que ele poderia ter sobrevivido por algumas horas depois do ferimento.
Isso torna o caso ainda mais complexo. A ciência conseguiu determinar que houve violência e identificar uma lesão potencialmente fatal, mas a sequência exata dos acontecimentos que levaram à morte continua sendo investigada.
Quem matou Ötzi continua sendo um mistério
A flecha responde parcialmente à pergunta sobre como Ötzi morreu, mas não explica por que ele foi atacado. Os pesquisadores não sabem quem disparou a arma nem qual era a relação entre o agressor e a vítima. Também não existe uma narrativa histórica preservada que permita reconstruir o conflito.
O próprio equipamento encontrado com Ötzi levanta questões. Ele carregava um machado de cobre, um objeto de grande valor para a época, e ainda assim a ferramenta permaneceu junto ao corpo.
Isso significa que o objetivo do ataque não parece ter sido simplesmente roubar o machado. A ausência de informações escritas transforma o caso em uma espécie de investigação criminal sem testemunhas, ocorrida milhares de anos antes da existência de registros históricos capazes de esclarecer o episódio.
É justamente essa combinação de evidências físicas e ausência de relatos que mantém o chamado “mistério do assassinato de Ötzi” entre os temas mais estudados da arqueologia alpina.
O conteúdo do estômago revelou sua última refeição
A preservação excepcional também permitiu descobrir o que Ötzi havia comido pouco antes de morrer. Análises do conteúdo do estômago, publicadas na ScienceDirect, identificaram carne de animais selvagens, especialmente cervo e íbex, além de trigo einkorn. Também foram encontrados vestígios de uma planta potencialmente tóxica, o feto.
A composição da refeição chamou atenção pela quantidade relativamente elevada de gordura. Os pesquisadores interpretam essa característica como uma possível adaptação às necessidades energéticas de alguém que vivia ou se deslocava em ambientes frios e montanhosos.
O estudo da última refeição também ajuda a entender que a alimentação das populações da Idade do Cobre era mais diversificada do que uma simples divisão entre caça e agricultura.
No caso de Ötzi, a análise científica conseguiu transformar o conteúdo do estômago em uma espécie de registro alimentar de um indivíduo que viveu milhares de anos atrás.
As tatuagens podem ter sido uma forma de tratamento
Outro detalhe encontrado no corpo são as tatuagens. Ao todo, os pesquisadores identificaram 61 marcas, formadas principalmente por linhas e cruzes. Diferentemente das tatuagens modernas, elas não foram feitas com uma agulha injetando tinta na pele.
Os pesquisadores acreditam que a pele foi cortada ou perfurada e que, posteriormente, carvão pulverizado foi introduzido nas incisões.
A localização dessas marcas também chamou atenção. Muitas estão em regiões associadas a sinais de desgaste e dores físicas que Ötzi apresentava.
Por isso, uma das principais hipóteses é que as tatuagens tivessem finalidade terapêutica. Algumas coincidem aproximadamente com pontos utilizados em práticas semelhantes à acupuntura atualmente.
Não é possível afirmar com certeza que essa era a finalidade. Ainda assim, a distribuição das marcas fornece uma pista sobre como aquela sociedade poderia lidar com dores e problemas físicos.

O corpo também mostra que Ötzi tinha vários problemas de saúde
As análises revelaram que o Homem do Gelo não era um indivíduo completamente saudável.
Ele apresentava desgaste físico, problemas dentários e sinais de diferentes condições que afetavam seu organismo. Pesquisas também identificaram a presença da bactéria Helicobacter pylori em seu estômago e vestígios de parasitas intestinais.
O DNA revelou ainda características físicas diferentes das representações feitas nos primeiros anos após a descoberta.
Uma análise genética mais recente indicou que Ötzi tinha pele escura, olhos escuros e apresentava sinais de calvície. A informação corrigiu uma representação anterior que mostrava o homem com aparência mais clara, próxima à de populações europeias modernas.
Essas descobertas mostram uma das características mais interessantes da arqueologia moderna: uma mesma múmia pode fornecer novas informações décadas depois de ser descoberta, à medida que surgem tecnologias capazes de analisar o material antigo com maior precisão.









