Aplicativo rival da Uber tinha motoristas sem CNH ou com documento vencido; PF desmonta esquema
Mais de 600 cadastros fraudulentos foram identificados em um esquema que permitia a entrada irregular de motoristas em uma plataforma de transporte por…

Mais de 600 cadastros fraudulentos foram identificados em um esquema que permitia a entrada irregular de motoristas em uma plataforma de transporte por aplicativo no Distrito Federal. Entre os beneficiados estavam pessoas sem carteira de habilitação, com CNH vencida, sem a observação de Exercício de Atividade Remunerada (EAR), bloqueadas anteriormente pelo aplicativo ou com restrições relacionadas a antecedentes criminais.
A investigação foi conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que deflagrou a Operação Last Ride e prendeu quatro suspeitos. Apesar de o caso envolver uma plataforma concorrente da Uber, a polícia não informou publicamente qual aplicativo foi alvo da fraude. A investigação começou depois que a própria empresa responsável pelo serviço identificou indícios de irregularidades e procurou as autoridades.
Como funcionava o esquema de cadastros falsos
Segundo as investigações, os suspeitos criavam contas utilizando documentos falsificados ou dados pertencentes a terceiros. Dessa forma, a identidade registrada no aplicativo não correspondia à pessoa que efetivamente realizava as corridas.
O grupo divulgava o serviço principalmente por redes sociais e aplicativos de mensagens. Os anúncios ofereciam cadastro para pessoas que não cumpriam as exigências da plataforma, inclusive motoristas sem CNH, com habilitação vencida ou sem a anotação de EAR, necessária para determinadas atividades profissionais com o veículo.
Também eram oferecidas alternativas para quem já havia sido bloqueado ou banido da plataforma. Em alguns casos, os suspeitos conseguiam manter as contas ativas ou reativar perfis que haviam sido suspensos.
Para entrar no esquema, os interessados pagavam cerca de R$200 pelo cadastro fraudulento. Caso quisessem manter a conta funcionando, havia ainda uma cobrança adicional, com valor negociado entre as partes. De acordo com a investigação, a estrutura permitiu a criação de mais de 600 cadastros irregulares.
Por que os cadastros representavam risco aos passageiros
A fraude não envolvia apenas o descumprimento das regras da plataforma. Como os motoristas utilizavam contas registradas em nome de outras pessoas, o passageiro poderia receber informações que não correspondiam ao verdadeiro condutor durante a corrida.
A situação poderia dificultar uma investigação caso algum crime acontecesse dentro do veículo. Os registros do aplicativo levariam inicialmente a uma pessoa diferente daquela que efetivamente transportava o passageiro, tornando mais difícil identificar e responsabilizar o motorista.
O delegado Pedro Sardá, da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC), afirmou que o problema ultrapassa o prejuízo financeiro causado à empresa e envolve também a segurança dos usuários e a possibilidade de responsabilização dos verdadeiros condutores.
A presença de pessoas sem habilitação regular também representa um risco para a segurança no trânsito, já que a plataforma deixava de conseguir verificar corretamente se o motorista atendia aos requisitos necessários para prestar o serviço.
Quatro pessoas foram presas no DF e em Goiás
A Operação Last Ride foi realizada pela Polícia Civil do Distrito Federal na terça-feira (1º). Quatro pessoas foram presas durante o cumprimento dos mandados: três em Sobradinho, no Distrito Federal, e uma em Rio Verde, Goiás.
Entre os detidos está o homem apontado pelos investigadores como o principal articulador do esquema. Segundo a apuração, ele teria uma participação maior na manutenção das contas e na reativação de cadastros suspensos ou banidos.
Durante a operação, os agentes apreenderam celulares, computadores, tablets, chips, documentos e cartões bancários. Veículos relacionados aos investigados também foram submetidos a medidas judiciais de restrição, enquanto valores associados às possíveis fraudes foram alvo de bloqueio.
O material será analisado pela polícia para tentar identificar novos cadastros fraudulentos, outros integrantes do grupo, movimentações financeiras e possíveis vítimas.
Dois suspeitos continuam foragidos
Além das quatro prisões realizadas durante a operação, dois investigados ainda não foram localizados e permanecem foragidos. A polícia continua trabalhando para identificar todas as pessoas envolvidas na estrutura e dimensionar o alcance da fraude.
A empresa afetada também ainda calcula o prejuízo provocado pelo esquema. A análise dos equipamentos apreendidos pode revelar novas contas e transações, fazendo com que o valor inicialmente estimado aumente.
Os investigados são suspeitos dos crimes de furto qualificado mediante fraude, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e lavagem de dinheiro. Considerando as penas máximas previstas para os delitos investigados, de forma autônoma e somadas, a punição pode chegar a 32 anos de reclusão.
A operação recebeu o nome de Last Ride, expressão em inglês que significa “última viagem”. Segundo a Polícia Civil, a denominação faz referência à tentativa de interromper a atuação do grupo no serviço de transporte por aplicativo. As investigações continuam para localizar os foragidos, identificar outros envolvidos e descobrir a extensão completa do esquema.









