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Animais ganharão uma “rodovia particular” de R$ 600 milhões por cima de uma das estradas mais movimentadas do mundo


Por Matheus Chaves

16/09/2026 às 06h47

Animais ganharão uma “rodovia particular” de R$ 600 milhões por cima de uma das estradas mais movimentadas do mundo
Imagem: Magnific

Uma ponte construída especialmente para animais está prestes a ser concluída na Califórnia, nos Estados Unidos, com a função de reconectar áreas naturais que foram separadas pela expansão das estradas. O projeto, chamado Wallis Annenberg Wildlife Crossing (Passagem de Vida Selvagem Wallis Annenberg, na tradução literal), atravessará a rodovia 101, uma das vias mais movimentadas da região de Los Angeles, e deverá custar cerca de US$ 114 milhões, valor que corresponde a aproximadamente R$ 586 milhões.

A estrutura está sendo construída em Agoura Hills, na California, no condado de Los Angeles, e terá vegetação nativa em toda a sua extensão. A proposta é permitir que animais atravessem a rodovia sem precisar disputar espaço com milhares de veículos que circulam diariamente pelo local.

Segundo o The Guardian, cerca de 400 mil veículos passam todos os dias pelo trecho da US-101. Para espécies que precisam percorrer grandes áreas em busca de alimento, parceiros e novos territórios, essa quantidade de tráfego transforma a estrada em uma barreira praticamente intransponível.

Por que os animais precisam de uma ponte?

A construção da US-101 modificou profundamente a conexão entre diferentes áreas naturais do sul da Califórnia. A rodovia separou as Santa Monica Mountains das Simi Hills e das Santa Susana Mountains, criando fragmentos de habitat que passaram a ficar isolados.

Esse isolamento é especialmente problemático para animais que precisam de territórios extensos. Entre as espécies beneficiadas pela passagem estão pumas, linces, raposas-cinzentas, coiotes e cervos-mula, além de répteis e outros animais menores.

No caso dos pumas, o problema é ainda mais grave. A população das montanhas de Santa Monica apresenta sinais de isolamento genético porque os animais têm dificuldade para deixar a região e encontrar indivíduos de outras populações.

Quando uma estrada impede esse deslocamento por muitas gerações, os grupos ficam geneticamente mais semelhantes entre si. Isso reduz a diversidade genética e pode aumentar os riscos para a sobrevivência da população. É justamente essa barreira que a nova estrutura pretende eliminar.

Como funciona a “rodovia” dos animais?

Ao contrário de uma ponte convencional, a passagem não será formada apenas por concreto. A estrutura receberá milhares de plantas nativas e será modelada para se parecer com o ambiente natural encontrado nos dois lados da rodovia.

O projeto também prevê elementos destinados a reduzir o contato dos animais com o trânsito. Barreiras, cercas e estruturas de proteção deverão conduzir os bichos até a passagem e impedir que eles simplesmente caiam na pista.

Quando a obra estiver concluída, mais de 50 câmeras deverão monitorar a passagem e as áreas próximas. Os equipamentos permitirão identificar quais espécies utilizam a estrutura e acompanhar a frequência dos deslocamentos.

Ponte terá milhares de plantas

Uma das características mais importantes do projeto está justamente na cobertura vegetal. Cerca de 6 mil plantas nativas já foram cultivadas para ocupar a estrutura, utilizando sementes coletadas na própria região.

Isso é importante porque o objetivo não é criar uma passagem artificial que apenas permita ao animal chegar ao outro lado. A intenção é fazer com que a ponte tenha características semelhantes às do ambiente ao redor.

A vegetação também ajuda a criar abrigo e alimento para espécies menores. Durante a construção, borboletas e lagartas já foram observadas utilizando as plantas instaladas no local. Um lagarto também passou a ocupar a região, enquanto uma cascavel foi encontrada nas proximidades.

Esses registros ainda não significam que a passagem esteja cumprindo sua função principal antes da inauguração. Porém, mostram que o espaço já começou a ser incorporado por parte da fauna local.

O projeto ficou mais caro do que o previsto

Segundo o The Guardian, a obra também passou a ser alvo de críticas nos Estados Unidos por causa do custo. O projeto começou com uma estimativa inferior, mas o orçamento chegou a aproximadamente US$ 114 milhões.

Além disso, dois anos de chuvas e enchentes recordes na região interferiram no cronograma original. A previsão inicial era que a passagem estivesse concluída em 2025, mas a conclusão foi posteriormente transferida para 2026.

Críticas não mudaram o objetivo da obra

O custo elevado transformou a passagem em alvo de críticas de grupos conservadores nos Estados Unidos. Alguns comentaristas passaram a questionar se seria justificável gastar uma quantia tão alta em uma estrutura destinada à fauna.

Os responsáveis pelo projeto contestaram essas críticas e afirmaram que parte das informações divulgadas sobre a obra ignorava fatores como inflação e as alterações provocadas pelas condições climáticas.

Além da questão financeira, os defensores destacam que a passagem pretende solucionar um problema criado pela própria infraestrutura humana: a fragmentação de habitats causada pelas rodovias.

O objetivo, portanto, não é construir uma atração turística ou uma ponte convencional. A estrutura foi planejada como uma ferramenta de conservação para permitir que os animais voltem a circular entre regiões que antes eram conectadas.