Angela Merkel, primeira mulher a comandar o governo alemão: “Se derrubarmos as paredes que nos cercam e tivermos coragem de recomeçar, tudo será possível”

Uma frase dita por Angela Merkel durante uma cerimônia de formatura da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, ganhou força justamente por reunir dois elementos presentes na trajetória da política alemã: a experiência de viver em uma sociedade dividida e a transformação provocada pela queda do Muro de Berlim. Ao falar para os formandos de 2019, Merkel deixou a seguinte mensagem: ” “Se derrubarmos as paredes que nos cercam e tivermos coragem de recomeçar, tudo será possível”.
Com a frase, ela quis defender que obstáculos que parecem permanentes podem deixar de existir quando as pessoas encontram coragem para mudar de direção.
A declaração foi feita em 30 de maio de 2019, quando a então chanceler da Alemanha participou da cerimônia de formatura de Harvard como principal oradora. Na ocasião, a universidade também concedeu a ela um título honorário de doutora em Direito. Merkel permaneceu cerca de 35 minutos diante dos formandos e construiu o discurso a partir de experiências pessoais, questões políticas e desafios enfrentados pela sociedade contemporânea.
O que Merkel quis dizer com “derrubar as paredes”?
Embora a referência mais evidente seja ao Muro de Berlim, a expressão utilizada pela política alemã não se limitava a uma construção física.
Merkel apresentou as “paredes” como obstáculos que podem existir na sociedade e também dentro das próprias pessoas. Entre eles estão a ignorância, a falta de abertura para novas ideias e formas de pensamento restritas. Na visão apresentada durante o discurso, esses limites podem impedir que indivíduos e grupos percebam que determinadas situações não precisam permanecer da mesma maneira para sempre.
Por isso, a segunda parte da frase também é importante. Ao falar sobre a necessidade de ter coragem para começar novamente, Merkel associou mudança a uma decisão consciente de abandonar determinadas estruturas e procurar alternativas.
A mensagem aos estudantes era, portanto, que o futuro não precisa ser uma continuação automática do presente. Quando uma barreira deixa de ser tratada como algo definitivo, novas possibilidades passam a existir.
O Muro de Berlim estava no centro da mensagem
Para compreender a declaração, é necessário voltar à juventude de Merkel. Ela nasceu na Alemanha Ocidental, mas cresceu na Alemanha Oriental, então controlada por um regime socialista alinhado à União Soviética. Formada em física, trabalhou como cientista em Berlim Oriental e viveu durante anos em uma cidade dividida por uma barreira que separava pessoas, famílias e sistemas políticos.
Durante o período em que trabalhava como pesquisadora, Merkel passava diariamente perto do Muro de Berlim no caminho para casa. Do outro lado estava Berlim Ocidental, associada por ela à liberdade que não estava disponível na mesma medida em seu país.
O muro representava uma limitação concreta para sua vida. Ao mesmo tempo, Merkel destacou em Harvard que aquela estrutura não conseguia controlar seus pensamentos, sua personalidade, sua imaginação ou seus sonhos.
Essa diferença entre uma barreira física e os limites que uma pessoa mantém internamente é justamente um dos mecanismos centrais da mensagem.
A queda do muro mudou a vida de Merkel
O Muro de Berlim caiu em novembro de 1989, em meio ao processo de enfraquecimento dos regimes comunistas do Leste Europeu. Para Merkel, aquele acontecimento representou uma mudança que, durante boa parte de sua vida, parecia improvável.
A cientista que havia passado seus primeiros 35 anos na Alemanha Oriental acabou entrando para a política após a transformação provocada pelo fim da divisão alemã. Pouco mais de uma década depois, ela chegou ao cargo de chanceler.
Em 2005, Merkel foi eleita chefe de governo e se tornou a primeira mulher e também a primeira pessoa originária da antiga Alemanha Oriental a ocupar a Chancelaria Federal. Ela permaneceu no cargo por quatro mandatos, até 2021.
O significado do “recomeço”
A ideia de começar novamente aparece como consequência da derrubada dessas barreiras.
Para Merkel, mudanças importantes normalmente exigem abandonar algo que já não funciona ou que passou a limitar novas possibilidades. Isso não significa ignorar o passado, mas reconhecer que experiências anteriores não precisam determinar obrigatoriamente o próximo passo.
A trajetória da própria Merkel reforça essa interpretação. Ela iniciou a vida profissional como cientista e viveu durante décadas em um país dividido. Depois da queda do muro, entrou em um ambiente político completamente diferente e chegou ao posto mais alto do governo alemão.
Assim, quando afirma que tudo pode ser possível depois que as paredes são derrubadas, Merkel relaciona a ideia de transformação à capacidade de enxergar alternativas onde antes parecia existir apenas uma única realidade.








