Enfrentamento do Parkinson: profissionais da saúde destacam que o cuidado vai muito além dos remédios
Combinando atenção médica, apoio emocional e equipe multidisciplinar, médicos e cuidadores mostram como é possível preservar a qualidade de vida mesmo diante da progressão da doença
Com 15 anos de experiência na área da saúde, Georgete Ribeiro Oliveira, técnica em enfermagem e cuidadora de idosos, carinhosamente apelidada de “Jô” pelos pacientes, divide sua rotina entre atendimentos domiciliares e em clínicas. Seu trabalho diário com pessoas diagnosticadas com doenças neurodegenerativas, especialmente Parkinson, exige atenção constante às mudanças que o avanço da condição provoca.
No estágio inicial da doença, o cuidado com o paciente é focado principalmente no apoio emocional. Jô destaca como é essencial escutar, conversar e manter o paciente envolvido com atividades que ele gosta, como ouvir suas músicas favoritas ou ler livros. “A maioria ainda está lúcida e percebe que está perdendo sua autonomia. Isso pode causar depressão. Diferente do Alzheimer, o Parkinson não apaga a memória logo no começo. O paciente sente cada perda”, explica. Já nos estágios mais avançados, os cuidados passam a ser mais físicos, é preciso ajudar na alimentação, na higiene, na locomoção e ficar atento para evitar quedas e engasgos.

Para garantir um cuidado completo e individualizado, a cuidadora trabalha sempre em parceria com outros profissionais da saúde, como fisioterapeutas, nutricionistas e fonoaudiólogos. Ela mantém registros diários das evoluções dos pacientes, comportamento, alimentação, episódios de engasgo, variações de humor, e compartilha essas informações com a equipe multidisciplinar. “A gente se fala pelo whatsapp, troca ideia e ajusta os cuidados. Se tiver engasgo, a nutricionista muda a dieta. Se a perna está mais fraca, a fisio avalia se é hora de usar a cadeira de rodas”, conta. Essa troca contínua é fundamental para preservar ao máximo a qualidade de vida e a dignidade de quem depende dos cuidados diários.
Dados no país
Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), publicado na revista científica The Lancet Regional Health Américas, revelou que mais de 500 mil brasileiros com 50 anos ou mais vivem atualmente com a Doença de Parkinson. Segundo os pesquisadores, esse número pode mais que dobrar até 2060, ultrapassando 1,2 milhão de casos no país.
Em Minas, não há dados precisos sobre a incidência da doença, já que o Parkinson não é de notificação compulsória, ou seja, os casos não são obrigatoriamente registrados nos sistemas públicos de saúde. Por isso, o banco de dados do SUS não dispõe de informações consolidadas sobre a prevalência da condição no estado. No entanto, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais informa que, atualmente, 5.801 pacientes recebem medicamentos específicos para tratamento da doença por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Diante desse cenário, identificar os primeiros sinais da doença é fundamental para garantir um tratamento eficaz e preservar a qualidade de vida do paciente.
Aspectos médicos
A Doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa, progressiva e ainda sem cura, que afeta principalmente o controle dos movimentos. Lentidão motora, rigidez muscular e tremores em repouso são os sintomas mais comuns, mas a condição também pode comprometer aspectos emocionais e cognitivos, como o humor, o sono e a memória. Segundo o neurologista Thiago Cardoso Vale, especialista em distúrbios do movimento, nos estágios iniciais, muitos pacientes apresentam boa resposta ao tratamento medicamentoso, o que permite manter uma rotina relativamente ativa. Com o avanço da doença, no entanto, surgem desafios maiores, os medicamentos passam a ter efeito limitado, os sintomas motores se intensificam e alterações cognitivas se tornam mais frequentes, exigindo um cuidado mais amplo e constante.
Apesar da complexidade da doença, é possível manter qualidade de vida com um tratamento adequado e acompanhamento próximo. O médico destaca que o uso correto das medicações, aliado ao suporte de uma equipe multidisciplinar, formada por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais, é essencial para que o paciente se sinta amparado em todas as dimensões do seu cotidiano. Essa visão vai ao encontro do que compartilha a cuidadora Georgete.
Além da progressão natural da Doença de Parkinson, o neurologista ressalta que a origem da condição ainda não é completamente conhecida. O que se sabe é que ela está relacionada à degeneração de neurônios localizados em uma região do cérebro chamada substância negra, responsáveis pela produção de dopamina, neurotransmissor fundamental para o controle dos movimentos. “Não existe uma causa única. Acredita-se que fatores genéticos e ambientais, como exposição a pesticidas, poluição e traumas cranianos, contribuam para o surgimento da doença, geralmente após os 60 anos de idade”, explica o especialista.
O diagnóstico do Parkinson é clínico, baseado na observação dos sintomas e na evolução do quadro do paciente. Exames como a ressonância magnética só são solicitados em casos específicos, quando há dúvidas ou sinais atípicos. Além do tratamento medicamentoso, o médico lembra que há também possibilidades terapêuticas cirúrgicas, como a estimulação cerebral profunda, indicada para casos selecionados. Mas independentemente do estágio da doença ou do tipo de tratamento, o médico reforça que, para além do cuidado multidisciplinar, o conhecimento sobre a condição e a preparação emocional da família são fundamentais. “Muitos pacientes conseguem preservar sua qualidade de vida por anos, especialmente quando há envolvimento familiar, adesão ao tratamento e apoio contínuo”, finaliza.
Tópicos: Parkinson









