Nova vacina no SUS amplia proteção de bebês contra meningite

Imunizante ACWY passa a integrar o calendário infantil e protege contra quatro sorogrupos da bactéria


Por Fernanda Bassette, Agência Einstein

06/07/2025 às 07h00

Desde 1º de julho, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina meningocócica ACWY para crianças de 12 meses. A medida, anunciada pelo Ministério da Saúde no fim de junho, representa um avanço na prevenção da meningite no Brasil, ampliando a proteção que antes era restrita ao sorogrupo C.

O novo imunizante protege contra quatro sorogrupos da bactéria Neisseria meningitidis (A, C, W e Y) e substitui a dose de reforço da vacina meningocócica C, aplicada aos 12 meses de idade. Até então, a versão ACWY era disponibilizada apenas para adolescentes de 11 a 14 anos na rede pública.

“A tecnologia da vacina ACWY é a mesma da versão C, mas ela cobre mais três sorogrupos capazes de causar doenças graves e letais”, explica a pediatra Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O sorogrupo C segue como o mais prevalente no país, mas os grupos W e Y vêm ganhando relevância. Segundo Bravo, surtos envolvendo o sorogrupo W já foram registrados no Sul do Brasil e em outros países da América Latina. “Ampliar a proteção evita mudanças inesperadas no cenário epidemiológico”, afirma.

A vacina ACWY é inativada, ou seja, não contém agentes vivos capazes de causar a doença. Ela utiliza fragmentos das cápsulas bacterianas conjugados a uma proteína, o que potencializa a resposta do sistema imunológico. Os efeitos adversos são semelhantes aos da vacina meningocócica C: dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação. A única contraindicação é para pessoas com alergia aos componentes da vacina ou a doses anteriores.

Queda nos casos e novos desafios

Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil registrou 4.406 casos de meningite em 2025 até o momento, sendo 1.731 de origem bacteriana — 361 causados por meningococos. Em 2024, foram 13.831 casos, com 820 infecções meningocócicas. Em 2023, o número foi ainda maior: 16.464 casos, sendo 730 por meningococos.

A vacinação foi decisiva para a redução da doença no país, principalmente entre crianças, o grupo mais vulnerável. “A introdução da vacina meningocócica C provocou uma queda significativa nos casos. Agora, com a ACWY, ampliamos essa proteção”, destaca Bravo.

No entanto, a identificação do sorogrupo responsável pelas infecções ainda enfrenta desafios. Coletas de amostras em tempo hábil e o envio a laboratórios centrais especializados nem sempre são possíveis, especialmente em regiões com infraestrutura limitada. Além disso, o início precoce do tratamento com antibióticos — necessário pela gravidade da doença — pode dificultar o diagnóstico laboratorial.

Esquema vacinal atualizado

Com a mudança, o calendário do SUS agora prevê:

  • vacina meningocócica C aos 3 e 5 meses;

  • reforço com a ACWY aos 12 meses;

  • nova dose da ACWY entre 11 e 14 anos.

Crianças menores de 5 anos que não receberam o reforço aos 12 meses poderão atualizar o esquema com a vacina mais abrangente.

Para o infectologista Alfredo Gilio, do Hospital Israelita Albert Einstein, a mudança é estratégica. “Os sorogrupos W e Y já respondem por cerca de 10% das infecções no Brasil. Ampliar a cobertura é fundamental para reduzir o impacto de surtos futuros.”

Sintomas e prevenção

A meningite é uma inflamação das meninges, as membranas que revestem o cérebro, e pode evoluir rapidamente. Os principais sintomas incluem febre alta, dor de cabeça intensa, vômitos e rigidez na nuca. Manchas roxas na pele (petéquias) também podem aparecer, sinalizando um quadro mais grave de meningite meningocócica.

Por sua progressão rápida e alta letalidade, a vacinação é considerada a forma mais eficaz de prevenção. Além de salvar vidas, reduz as chances de sequelas graves, como surdez, amputações e déficits neurológicos.