Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / vacina / tribuna 40 anos / polícia / obituário

Danielle Magalhães junta poesia, política, amor e observações cotidianas em “Quando o céu cair”

Por Marisa Loures

26/06/2018 às 06h23 - Atualizada 08/07/2018 às 17h54

A autora carioca lançou “Quando o céu cair” na última semana em Juiz de Fora, dentro do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFJF – crédito Marcelo Correa

Todos os dias, a grande imprensa joga na nossa cara a crueza da vida. Ficamos inertes. Tristemente, às vezes, já não conseguimos nem mesmo refletir sobre o que nos é mostrado, tamanha a paralisia. Preferimos trocar de canal. Buscar algo que nos espante ou, pelo menos, que nos faça ficar longe do que é tragicamente bombardeado na mídia. Chego a pensar que, hoje, já não há mais o que nos sensibilize.

Mas, sim, existe o jornalismo humanizado, aquele que nos aproxima da dor do outro sem coisificá-lo, sem fazer dele um produto para segurar a audiência. Ironicamente, achei o que buscava não nas páginas de um jornal, mas na poesia de Danielle Magalhães. Chorei. “Corredores de hospital mudam/a consciência que passamos a ter da vida/ do tempo da morte/ e do amor/ mal sabemos/ que esquecer pode ser tão fácil/ não sem o custo/ de se deparar com a falta/ é isso/ esquecemos/ como um exercício de sobrevivência/como um exercício de sobrevivência”, dispara a poeta nos primeiros versos de “últimos dias”.

Na última quinta-feira, a escritora carioca, de 28 anos, passou por Juiz de Fora para lançamento do livro “Quando o céu cair” (7 Letras, 128 páginas) e bate-papo com os alunos da disciplina “Literatura e interdisciplinaridade”, do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFJF. Na obra, a autora junta poesia e política, sem deixar escapar o amor. Une a isso tradição e renovação, pensamento, observações cotidianas, casualidades e dados enciclopédicos. Coisas que passam habitualmente pela cabeça dela, elementos completamente inesperados, movimentos demasiadamente humanos e acontecimentos cósmicos ou pré-históricos. Danielle lança mão de um ritmo determinado pela ausência de pontuação, alternância de versos longos e curtos e repetições.

“Penso que os poemas são, ao mesmo tempo, a provocação da queda e a queda. É porque o céu não cansa de cair todo dia que a escrita acontece para estar à altura – ou à baixeza – desta queda. A ausência de pontuação pode ser lida como um fôlego atravessado por tantas coisas a serem ditas. Mas é essa ausência que também permite dizer para além do dito, ou seja, continuar dizendo, uma vez que a falta de pontuação abre o sentido, permitindo ler os versos de várias formas e, assim, abrindo possibilidades de dizer, abrindo possibilidades de fazer cair o céu e de se mover na queda e com a queda”, afirma a escritora que, graduada em História pela UFF, transferiu-se para as Letras, onde fez mestrado e cursa doutorado em Teoria Literária.

“Eu não sei o que é política, também não sei responder o que é poesia, e é por isso que continuo escrevendo, buscando saber, buscando entender. Acredito que possa haver uma poesia sem política, mas, no momento, não me interessa uma poesia sem política, explicitamente ou não.”

Marisa Loures – Seu livro apresenta um trânsito de temas, fala de poesia, mas também de política. Você acredita numa poesia sem política?

Danielle Magalhães – A meu ver, nada é político a priori. Antes eu achava que toda poesia era política ou que todo gesto de escrever um poema era um gesto político. Mas aí veio o Temer. E o Temer escreve poemas. E aí? Também precisamos ver que nada é poético a priori. Chamaremos o que ele escreve de poesia? Ponderamos se toda poesia é política? Acho que o tempo coloca questões para repensarmos o que entendemos por poesia e por política. Sempre prefiro partir do não-todo, do não a priori, do não pressuposto. Por isso acho importante pensarmos não na poesia como um todo, mas em poemas, e analisar a singularidade do poema, analisar se há modos de ler uma política nesse poema ou se há modos políticos em jogo nesse poema, a partir do que estivermos entendendo por política. Assim como acho que não sabemos o que é política – se é que um dia soubemos –, então precisamos nos perguntar se há A política, ou se a política aparece também em experiências singulares. Acredito que a poesia tem muitas formas de ser política, ou há muitas formas políticas que a poesia instaura, ou há uma outra política – diferente da que estamos vivendo – que a poesia instaura, mas, por ora, não penso que poesia e política sejam sinônimos. Eu não sei o que é política, também não sei responder o que é poesia, e é por isso que continuo escrevendo, buscando saber, buscando entender. Acredito que possa haver uma poesia sem política, mas, no momento, não me interessa uma poesia sem política, explicitamente ou não.

– Em seus textos, há um ritmo determinado pela ausência de pontuação, alternância de versos longos e curtos e repetições. Em se tratando desse trânsito de temas que o livro apresenta, o deslizamento de ritmosé indispensável para o resultado que você queria?

Sim, o deslizamento é indispensável porque justapõe temas e ritmos que, a princípio, seriam contrários, colocando-os em uma relação de horizontalidade. Emparelhando-os, falar de uns é falar de outros. Acho que o deslizamento, ainda que em queda, traz esse efeito diferente do que se pensássemos a verticalidade do poema apenas como uma escavação a ser desvendada. Ir pela escavação é ir esperando um fundo, o desvelamento de um segredo, de um sentido último. Ir pelo deslizamento é ir sabendo que não há fundo, é ir deslizando e não perfurando, é ir na irrupção dos sentidos e não buscando um sentido. É claro que, já a partir do título, existe uma verticalidade, como a queda, o salto, mas entendo esses termos muito mais como intensidades que, infinita e abissalmente, fendem a superfície, do que como um desvendamento dela.

– “Nos poemas, há uma tensão insolúvel oscilante entre uma força agregadora e outra dispersiva, entre consonância e dissonância, entre via e desvio, entre continuidade e deriva, entre organização e desorganização, entre orientação e desorientação, entre centramento e descentramento, entre solução e dissolução, entre fazimento e desfazimento”. Essa tensão é um reflexo do seu tempo, do seu momento de escrita?

Pode ser um reflexo do meu momento de escrita, mas acho que é um reflexo do pensamento mesmo, das formas do pensamento, das formas como as coisas nos atravessam. Eu diria que é um reflexo de como a vida mesma nos atravessa, assim, nesse paradoxo, nessa tensão. A vida não nos chega de modo compartimentado, mas em impasses. Acolhendo isso, os poemas não performatizam senão o movimento da vida e do pensamento.

– Lendo o poema “últimos dias”, fiquei com a sensação de que ali sua intenção era fazer poesia, mas também fazer um jornalismo humanizado. Algo que não vemos com frequência na grande mídia…

Acho muito interessante você ver o poema como “jornalismo humanizado”, porque jornalismo humanizado não é apenas jornalismo. Já leram esse poema como conto, poderiam dizer que talvez ele flerte com a crônica, com o diário, mas é a primeira vez que escuto uma designação que traz a palavra “jornalismo”. Como o próprio nome diz, jornalismo é algo da dimensão diária, uma relação cotidiana com o seu tempo, havendo no poema esse mesmo vínculo. Mas quando penso em jornalismo, penso na grande mídia, e você trouxe o jornalismo humanizado como oposição à “grande mídia”. Acho interessante ver o poema por esse ponto de vista, primeiro porque a comunicação do poema e a da grande mídia são opostas: enquanto aquela não visa comunicar, mas garantir as potências da comunicabilidade, essa visa comunicar claramente, assegurando um sentido, fechando o sentido em um dito. Pensando nos dias de hoje, a grande mídia é isso que paralisa as pessoas, ela não nos oferece nada, apenas a clareza na qual não conseguimos nos mover. Sem sombra de dúvidas, a comunicação da grande mídia não tem falhas. Ela nos atira à clareza do sentido e não conseguimos fazer nada com essa clareza escancarada – sobretudo, quando se trata da exposição crua da violência. O filósofo Giorgio Agamben tem uma frase, no texto “O cinema de Guy Debord”, que sintetiza bem isso. Ele diz: “As mídias adoram o cidadão indignado mas impotente.”. A poesia, ao contrário disso, nos impulsiona a comunicar, sempre de um modo diferente, a cada vez que um poema é lido. Conseguimos nos mover nas falhas e com as falhas na comunicação do poema. Conseguimos tornar a falha um lugar em que é possível dizer e continuar dizendo. Quando você vê o poema como um “jornalismo humanizado”, penso que o jornalismo poderia ter outra forma de lidar com os dias, aproximando-se da linguagem do poema. Parece-me que é o poema que traz o “humanizado” para o jornalismo, seja porque o poema lida com as falhas, seja porque lida com o outro como limite, limite esse que o jornalismo atual tenta apagar. E é esse limite que permite o cuidado com o outro.

– Nesse mesmo poema, tive a impressão de estar vendo a cena descrita por você e de que o seu Zé Carlos e a preta velha são muito reais. A mesma sensação eu tive com a mulher síria do poema que dá nome ao livro. Esses personagens são pessoas reais que cruzaram sua vida?

O conteúdo continua após o anúncio

Sim. Mas acho que, menos importante do que dizer se são pessoas reais ou não, o que importa é o teor de realidade que o texto traz. Acredito que o real é inapreensível, inacessível, então, seja um texto declaradamente ficcional ou não, ele nunca apreenderá o real. É essa impossibilidade de apreensão do real que faz com que o poema, porém, tangencie, gire em torno do real, movendo-se nessa e com essa impossibilidade de apreensão, apontando-a, indicando-a, e, ao mesmo tempo, dando forma a ela. Sendo essa tentativa de dizer essa impossibilidade, o poema já toca o real.

– Durante sua fala no PPG Letras, você, por várias vezes, destacou uma necessidade de fazer uma poesia que pensa no outro, que conversa com outras pessoas. No poema “Biografia”, inclusive, chega a mencionar: “acordei com um cansaço/ pensando na grande quantidade/ de mulheres/ que estão escrevendo/ nas mulheres/ que há hoje/ na poesia brasileira”. Quem são as outras escritoras contemporâneas com as quais sua literatura conversa? O que na literatura delas mais dialoga com seus escritos?

Há inúmeras escritoras, poetas ou não, que eu poderia citar, porém, vou me ater às poetas com as quais os poemas do “Quando o céu cair” dialogam mais explicitamente: Annita Costa Malufe, Bruna Mitrano, Maíra Ferreira, Marília Garcia, Simone Brantes, Taís Bravo e Yasmin Nigri. A oralidade, a densidade em uma superfície deslizante, a abertura à alteridade e aos fantasmas, o rés do chão do ser e da vida, a exposição das falhas (dos tempos, da existência, da linguagem), a inquietação pelo contemporâneo, a escrita que se sustenta como ruína e desejo.

“Na literatura lidamos com as falhas na comunicação, e fazemos das falhas a propulsão da linguagem, a abertura ao sentido, a possibilidade de dizer. A História, me parece, ainda precisa buscar a verdade no dito, ainda precisa fechar a interpretação em um sentido. Talvez porque isso ainda seja necessário para o nosso tempo, quando ainda não temos nem os mínimos direitos garantidos, quando ainda não podemos contar nem com o básico para a sobrevivência.”

– Ainda no poema “Biografia”, você relata que fez História, mas que “ficar pensando/ nas inúmeras lutas/ através dos séculos/ não alivia o cansaço.” Completa dizendo que a História é “uma senhora lenta e caprichosa/ mas às vezes muitas vezes/ ela é muito mais/ do que lenta às vezes/ ela até anda para trás. Você já escrevia antes de trocar a História pela Letras. Qual foi a importância dessa mudança para a sua escrita?

Quando eu fui para a Letras, eu pude estar mais perto de pessoas que estavam escrevendo, que fazem da escrita um ofício. Passei a estar mais em contato com poetas, o que me permitiu ler mais poesia, dialogar mais, frequentar eventos de poesia e de arte, então essa troca próxima me moveu a escrever também como uma possibilidade de conversar com essas pessoas e com suas produções. Além disso, eu encontrei uma liberdade na Letras que eu não tinha na História. Na literatura lidamos com as falhas na comunicação, e fazemos das falhas a propulsão da linguagem, a abertura ao sentido, a possibilidade de dizer. A história, me parece, lida com o significado, com o enunciado, enquanto a literatura lida com a significação, com a enunciação. A literatura lida com a perturbação no sentido, enquanto a história ainda precisa fechar a interpretação em um sentido. Talvez porque isso ainda seja necessário para o nosso tempo, quando ainda não temos nem os mínimos direitos garantidos, quando ainda não podemos contar nem com o básico para a sobrevivência. A literatura e a história são importantes para um modo de viver mais justo, mas cada uma a seu modo. Acho, porém, que elas conversam, que são vizinhas. Eu prefiro permanecer na Letras, também porque ela me permite ficar nessa relação de vizinhança com a história. Acho mesmo que a literatura tem uma relação de vizinhança com os saberes, estando sempre ao lado e, ao mesmo tempo, fora. Mas, ao contrário da história, a literatura, por abraçar a abertura do sentido, permite que possamos fazer de um texto, de um poema, outra coisa. A história, ao se ocupar mais em dar um sentido, não me move a fazer do texto outra coisa, não se destina ao uso. Uma das coisas que ambas se ocupam, no entanto, é a memória. Poetas e historiadores, por se ocuparem do terreno esburacado da memória (e quem disse isso foi uma filósofa, Hannah Arendt), por aprenderem a viver com os fantasmas (e quem disse isso foi outro filósofo, Derrida), trazem mais justiça ao mundo.

 

“Quando o céu cair”

Autora: Danielle Magalhães

Editora: 7 Letras, 128 páginas

Disponível na Editora 7Letras (http://www.7letras.com.br/quando-o-ceu-cair-3939.html) e na livraria da Travessa (https://www.travessa.com.br/quando-o-ceu-cair/artigo/1c03f071-f6f7-47f8-abcd-e86b74a1eea2) e da Martins Fontes Paulista (https://www.martinsfontespaulista.com.br/quando-o-ceu-cair-580431.aspx/p).

Poema “últimos dias”

Danielle Magalhães

corredores de hospital mudam
a consciência que passamos a ter da vida
do tempo da morte
e do amor
mal sabemos
que esquecer pode ser tão fácil
não sem o custo
de se deparar com a falta
é isso
esquecemos
como um exercício de sobrevivência
como um exercício de sobrevivência
o seu zé carlos tecia sua tarrafa
em cima de uma maca
num corredor de emergência
ele me falava
menina saia da cidade
a vida só é boa
perto do mar
da roça e dos bichos
menina não consigo carregar meu celular
para falar com meu filho
a única coisa que eu pude fazer
enquanto você dormia
foi ouvir as histórias do seu zé carlos
dando alguma sobrevida
ao dedo dele que estava para ser amputado
ele nunca mais ia poder pescar
ou mergulhar como antes
além disso a única coisa
que eu pude fazer foi emprestar o meu carregador
que não adiantou
no dia seguinte eu vi o filho dele lá
apesar de não ter visto mais o seu zé carlos
enquanto você dormia
eu tentei escrever algumas coisas
para não esquecer
acho até que você ia gostar das histórias
de pescador do seu zé carlos
não sem antes fazer aquela cara
de que ao invés de ficar
falando pelos cotovelos
ele poderia estar dormindo
e deixando os outros dormirem também mas
a questão é que você nem esteve acordada
para ter como reclamar
da conversa que você nem ouviu
como não ouviu quando
já lá em cima no quarto
para pacientes terminais
o marco
esposo da moça da maca ao lado
me perguntou se eu tinha livros didáticos
de português
porque ele queria estudar pontuação
enquanto ela dormia
eu anotei mas
desculpe não ter levado
marco
eu esqueci
um dia depois de sua morte
eu estava na praça saens pena resolvendo umas coisas
burocráticas enquanto o carro da funerária seguia
para o hospital antes de eu seguir pra lá também eu vi
uma senhora escrevendo no meio-fio da calçada
como se a vida ainda estivesse ali
lhe dando tempo de escrever
apesar de tê-la abandonado em todo o resto
calmamente
tive vontade de perguntar o que ela escrevia
e para quem escrevia
mas anotei
e hesitei
hoje
olhei para a anotação
e vi que o título que dei foi
últimos dias
o que segue
são notas não numeradas
em tópicos
o seu zé carlos
a preta velha escritora no meio-fio
quantas caixas de bombom são necessárias
para deixar um médico mais humano
a vida é tão breve
mal lembramos que é tão fácil
esquecer
hoje você faria aniversário

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia