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Pesquisa em Juiz de Fora aumenta chances de papagaios resgatados do tráfico sobreviverem na natureza

Estudo realizado no Cetras da cidade mostrou que treinamentos de voo e aversão à presença humana melhoram a reabilitação de aves ameaçadas de extinção 


Por Nayara Zanetti

11/07/2026 às 06h00

papagaios
Estudo destaca os impactos positivos da reabilitação de papagaios resgatados, como mudanças comportamentais e melhora na saúde (Foto: Matheus Lara/Pexels)

O treinamento de voo e a redução do contato com humanos podem fazer a diferença na sobrevivência de papagaios resgatados do tráfico de animais silvestres. É o que aponta uma pesquisa realizada no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) de Juiz de Fora, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que identificou melhora significativa no comportamento das aves após um processo de reabilitação. 

O estudo acompanhou 38 papagaios do gênero Amazona, grupo que reúne algumas das espécies mais afetadas pelo tráfico de animais silvestres na América do Sul. Segundo a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) é a espécie de papagaio com maior número de apreensões no Brasil. Outras espécies do gênero, como o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e o papagaio-charão (Amazona pretrei), também sofrem com a captura ilegal e a perda de habitat. 

Com o objetivo de aprimorar estratégias de reabilitação e aumentar as chances de sobrevivência dessas aves após a soltura, a doutoranda da UFJF, Gabriela de Araújo Porto Ramos, sob orientação da professora Aline Cristina Sant’Anna e apoio do Instituto Estadual de Florestas (IEF), deu início aos estudos com aves resgatadas de situações de captura ilegal. 

90% dos papagaios apresentam melhora após reabilitação 

Durante a pesquisa, os papagaios passaram por treinamentos de voo e de aversão à presença humana, além de avaliações comportamentais e exames de saúde. Segundo os resultados, cerca de 90% das aves apresentaram melhora na capacidade de voo e passaram a rejeitar alimentos oferecidos por pessoas, comportamento considerado fundamental para diminuir o risco de uma nova captura após o retorno à natureza. 

De acordo com a diretora de Proteção à Fauna do IEF, Ariane Goulart, os resultados reforçam a importância do processo de reabilitação realizado nos Cetras. “Quando são retirados da natureza e submetidos ao tráfico, os animais enfrentam situações de estresse, manipulação constante e exposição a doenças, fatores que comprometem sua saúde e seu comportamento. Trabalhos como este contribuem diretamente para aumentar as chances de sucesso da reintrodução.” 

Impactos na saúde das aves e da população

Além das mudanças comportamentais, o estudo apontou melhora nas condições de saúde dos animais. Na primeira avaliação, quase metade dos papagaios (47,37%) apresentava parasitas intestinais. Após o tratamento realizado pela equipe veterinária do Cetras, o percentual caiu para 18,42%. 

Segundo Ariane Goulart, o resultado também chama atenção para os riscos que o tráfico de animais silvestres representa para a saúde pública, já que algumas doenças podem ser transmitidas aos seres humanos. “Por isso é crucial que, ao adquirir um animal de estimação, a população procure apenas criadouros legalizados. A questão do tráfico de animais silvestres também envolve a saúde pública, uma vez que algumas zoonoses podem ser transmitidas aos seres humanos.”

Alimentar animais silvestres aumenta riscos

Outro achado da pesquisa foi que papagaios mais curiosos e menos arredios tendem a aceitar alimentos oferecidos por pessoas com maior facilidade, tornando-se mais vulneráveis à captura. Já os mais cautelosos apresentaram melhor desempenho de voo e características associadas a maiores chances de sobrevivência em vida livre. 

Diante dos resultados, o IEF reforça o alerta para que a população não ofereça alimentos a animais silvestres, mesmo quando se trata de itens presentes em sua dieta natural. Segundo o instituto, esse hábito pode fazer com que os animais percam o medo das pessoas e se tornem mais suscetíveis ao tráfico. 

A pesquisa também reforça o papel dos Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres, que recebem animais vítimas de tráfico, cativeiro irregular, atropelamentos e outros impactos ambientais. Nas unidades, eles passam por atendimento veterinário, reabilitação e, sempre que possível, são preparados para retornar à natureza.