Apiários em Minas aumentam em 30%, mas Juiz de Fora ainda registra poucos profissionais

Geografia da cidade e falta de conscientização sobre a importância do registro dificultam a profissionalização da atividade, apontam apicultores ouvidos pela Tribuna


Por Nayara Zanetti

05/04/2025 às 07h00

apiários
(Foto: Leonardo Costa)

O número de apiários – local de criação de abelhas – cresceu 34% no ano passado em relação a 2023 em Minas Gerais. De acordo com os dados do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), o estado contabilizou 1.085 novos cadastros em 2024, enquanto em 2023 foram 812. Ao todo, Minas Gerais conta com mais de 3.300 propriedades dedicadas à criação de abelhas com ferrão e outras 531 especializadas em meliponíneos, as abelhas sem ferrão. A Região Oeste do estado lidera em número de propriedades registradas, somando 712, com destaque para Formiga, Bambuí e Itapecerica. Apesar do aumento em outros municípios mineiros, Juiz de Fora ainda registra poucos profissionais. Segundo o IMA, o município conta com 14 localidades de criação de abelhas com ferrão e nove de abelhas meliponídeas. 

O IMA é responsável por executar no estado todas as ações normativas do Programa Nacional de Sanidade Apícola (PNSAp), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Conforme o órgão, em Juiz de Fora, foram realizados cinco cadastros em 2023 (três de abelhas africanizadas e duas de abelhas meliponídeas), enquanto em 2024 foram oito cadastros (quatro de abelhas africanizadas e quatro de abelhas meliponídeas). Esses dados fazem referência àqueles apicultores que se registram como trabalhadores profissionais, no entanto, a maioria desempenha a atividade de maneira informal. Para Patrícia Coelho, 50 anos, proprietária da loja Casa das Colmeias, o número de registros no IMA não é o equivalente à quantidade de pessoas que trabalham com o setor na cidade. 

“Acreditamos que o baixo número de apiários registrados no IMA se dá porque a grande maioria dos produtores tem apiários como complementação da renda na propriedade rural. Outro fator é que os produtores, na sua grande maioria, têm número pequeno de colmeias e, muitas das vezes, dependem de outras propriedades rurais, não possuindo a própria terra. Essas terras arrendadas ou emprestadas estabelecem a quantidade de colmeia, o que geralmente acontece de maneira informal, dificultando a inscrição no IMA”, aponta Patrícia. 

Há mais de 40 anos, Patrícia comercializa produtos apícolas da região e, desde 1985 com a fundação da Casa das Colmeias, busca fomentar esse mercado através da promoção de eventos para capacitação do apicultor. “Nesses 40 anos da empresa,  estivemos presentes em diversos encontros e congressos nacionais e internacionais trazendo o que há de mais novo e divulgando novas tecnologias.” Ela acredita que um trabalho em conjunto com Emater, Prefeituras, IMA e empresas seria fundamental para conscientizar o apicultor em relação a necessidade de registrar. “Os órgãos públicos também precisam entender a demanda do produtor no intuito de orientar e facilitar os registros.” 

Apiterapia como incentivo ao setor 

Entre as maneiras de oferecer novos serviços neste ramo e, consequentemente, incentivar a apicultura está uma técnica conhecida como apiterapia. Com origem na medicina natural, a prática faz uso de produtos das abelhas, como mel, própolis, pólen, geleia real e veneno, como alternativa para tratar ou prevenir diversas enfermidades. “O objetivo é estimular nosso organismo a aumentar a defesa imunológica, sendo indicado no tratamento de disfunções orgânicas e emocionais,  incluindo as autoimunes, artrite reumatoide e esclerose múltipla”, explica Patrícia. A empresária diz que além dos benefícios para a saúde, a atividade funciona como uma fonte de renda para diversas famílias da área rural e também para as empresas que manipulam e comercializam esses produtos. “Essa é uma prática que está em expansão no país.” 

No dia 17 de maio, Patrícia promove o “I Simpósio de Apiterapia” com palestras de profissionais de Juiz de Fora, São Paulo e Salvador reconhecidos na área. O evento será no Hotel Serrano, a partir das 8h30. 

Apicultura e meio ambiente 

Há 41 anos, Maxwell Ladeira é apicultor e já trabalhou com a atividade em diferentes cidades, como Viçosa e Paraná, mas, desde 1991, é um dos poucos apicultores registrados na cidade. Ele comenta que, no começo, teve muita dificuldade para montar seu apiário em Juiz de Fora por conta do relevo do município. “Eu conheço bem a região, Juiz de Fora é uma bacia leiteira que tem muito pasto, então a produção de produtos apícolas é mais difícil.” 

Maxwell avalia que a produtividade aqui é menor do que na sua outra propriedade em Bias Fortes. “Quando a abelha sai e só vê pasto ela até desanima. Ela precisa de área florestada, recursos naturais. Então, não estimula tanto esse setor aqui.” Inclusive, o apicultor ressalta que as abelhas são fundamentais para o meio ambiente, pois são responsáveis pela polinização de plantas e pela produção de alimentos, o que contribui para o reflorestamento. 

Desde quando iniciou os trabalhos na cidade, o apicultor não viu muita evolução no número de profissionais na área. “Juiz de Fora é difícil. Se você tem cinco caixinhas para produzir mel, você consegue, mas você precisa colher toneladas para sobreviver.” Os produtos do apiário do Maxwell são revendidos no Mercado Municipal, na loja da Cooperativa de Economia da Agricultura Familiar da Microrregião de Juiz de Fora, e na rodoviária, na loja Empório Rural. 

Importância do registro de Apiários no IMA 

O cadastramento no IMA possibilita que o apiário e os produtos apícolas sejam fiscalizados e inspecionados a fim de garantir um controle sanitário efetivo. Além disso, o IMA também atua na intervenção imediata em casos de suspeita ou ocorrência de doenças de notificação obrigatória. “Sem essa vigilância constante, doenças e pragas poderiam comprometer apiários inteiros, afetando não apenas a produção, mas também o mercado apícola mineiro”, afirma Eduardo Lage, coordenador do PNSAp no estado. O monitoramento sanitário nos apiários não apenas protege a sanidade das colmeias e a produção de mel, mas também evita ameaças que podem comprometer toda a cadeia produtiva. 

Em 2019, foi registrada a primeira ocorrência no estado do Aethina tumida, conhecido como pequeno besouro das colmeias, em Juiz de Fora. A praga, que já havia causado prejuízos em São Paulo e no Rio de Janeiro, pode devastar apiários inteiros, destruindo favos, contaminando o mel e enfraquecendo enxames. O besouro se aproveita de colmeias frágeis, pouco povoadas e com baixo comportamento higiênico – uma capacidade natural das abelhas. Apiários sem manejo adequado se tornam ambientes ideais para sua proliferação. 

No caso de Juiz de Fora, a notificação do produtor ao IMA e a rápida resposta da equipe técnica foram fundamentais. “Assim que confirmamos a presença do besouro, o apiário foi interditado e foram repassadas orientações de boas práticas apícolas e de redução do risco de introdução e dispersão da praga, mitigando a disseminação desta no estado”, conta Lage. 

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