‘Ninguém está a salvo do inferno’

Por Marisa Loures

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Vinícius Ferreira lança ‘Não existe acaso no inferno’, livro que ultrapassa o gênero romance policial para investigar as zonas mais obscuras da experiência humana (Foto: Divulgação)

O investigador Bartolomeu Franco é interrompido em seu dia de folga. Fora arrastado para o local de um crime. Em um residencial destinado a abrigar apenas endinheirados ou aqueles que sustentam sobrenomes influentes, um galpão de alvenaria e madeira, coberto na parte da frente por telhas de amianto, rompe com a paisagem. Lá dentro, três crianças mortas, deitadas de mãos postas, uniformizadas, pés descalços, em camas dispostas no formato de cruz.

O quadro quase ritualístico que nos perturba tanto ocupa as páginas iniciais de “Não existe acaso no inferno” (Faria e Silva), lançamento do professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, Vinícius Ferreira. “O livro tenta capturar uma atmosfera, trabalhando com a ideia de uma realidade livre da ilusão de pureza. A cena é um alerta para a direção do tipo de olhar que a gente deve ter para a realidade. A crueldade mais abjeta pode permitir componentes de delicadeza na sua constituição. Quando julgamos, tendemos a imaginar ser possível separar em caixas fechadas o que é cruel do que é delicado. Mas a realidade é muito menos simplista e muito menos ingênua do que essa nossa ilusão de que é possível separar bem onde termina uma e começa a outra ou o que seria uma coisa e o que é a outra”, explica o autor, que volta a ter Cataguases, sua cidade natal, como cenário para sua escrita.

“Não existe acaso no inferno” é um livro repleto de elementos do romance policial, mas ele vai além do que normalmente se espera de obras desse gênero, apresentando questões existências e sociais. Nesta entrevista, seu criador, aliás, faz questão de desfazer as expectativas de quem espera uma história que se resuma à clássica busca pelo “quem matou”. “Estou mais interessado em construir histórias que me permitam sondar a alma humana.”

Vinícius Ferreira também é autor de títulos, como “E se estivesse escuro?” e “As mãos ásperas”.

Marisa Loures – O que significa afirmar que “não existe acaso no inferno”?

Vinícius Ferreira: Como a frase é do Bartolomeu Franco, acho que ele acredita no inferno como uma instância pessoal, particular e intransferível. Nessa instância, não existe lugar para o acaso. Cada um carrega sua bagagem pesada e precisa decidir o tempo todo o que fazer com ela. Portanto, o inferno particular é sempre o resultado das escolhas particulares.

E onde está esse inferno sugerido pelo título? Nas estruturas sociais, nas relações humanas ou na interioridade dos personagens?

Na interioridade das personagens, sem dúvida. E essas interioridades são assediadas pelas estruturas sociais e pelas relações humanas. Ninguém está a salvo do inferno.

O investigador Bartolomeu Franco é lançado ao caso em um momento de folga, quase como se fosse “capturado” pela história. Que tipo de personagem ele é? E até que ponto ele controla a investigação, ou é por ela controlado?

Penso no Bartolomeu como alguém que foi “capturado”, como você diz, pela trama. Como alguém que não devesse estar ali. Ele tinha planos de visitar o pai no asilo e de se encontrar com uma mulher depois. Mas, como “nem no inferno deve existir acaso” (risos), ele é tirado da folga para ser confrontado com algo que o faz ver a si mesmo como alguém com um senso de justiça tão forte que é quase obsessivo. Ele vai tomando consciência do quanto as suas relações familiares e pessoais têm a ver com esse seu desejo de ver as coisas se equilibrarem. Portanto, respondendo à sua pergunta, acho que ele, de forma deliberada, não controla a investigação. Ele a experimenta como quem mergulha no desconhecido para encontrar a si mesmo.

Seu romance articula elementos como fanatismo religioso, disputas por terra e rixas familiares. De que maneira você trabalhou a interseção entre essas forças na construção do enredo?

O enredo tenta acompanhar essa ideia de que a realidade das coisas é feita de múltiplos elementos. Acho que parte um pouco do incômodo com essa obsessão que as pessoas alimentam hoje pelas simplificações. Entendo a necessidade das pessoas de terem alguma segurança diante do desencanto com as narrativas totalizadoras, que prometiam alcançar os sentidos para a existência. Porém, quanto mais nos aproximamos dos fatos, vemos a sua compleição híbrida, sua natureza capaz de abarcar contradições.

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Capa do livro (Foto: Divulgação)

Em livros anteriores, como “E se estivesse escuro?” e “As mãos ásperas”, o passado aparece como uma força que insiste em atravessar o presente. Essa dimensão temporal reaparece neste novo romance?

Aparece sim. Acho que, de modo geral, no Brasil, temos uma percepção do passado como uma grande massa nebulosa. Esquecemos e elegemos os fatos conforme a conveniência. Adoçamos a violência do nosso processo de construção como país, romantizamos a nossa colonização, naturalizamos as nossas mazelas sociais com narrativas triunfalistas. Tudo isso faz com que o passado pareça etapa superada e incapaz de incidir sobre o presente. Nos meus livros, o passado é sempre uma força ativa no presente. Meus personagens não escapam das histórias pregressas, não nascem inaugurando o mundo. Pelo contrário, eles sempre encontram um mundo nascido bem antes deles e com regras feitas sem consultas à vontade deles.

Cataguases retorna como espaço ficcional. O que essa geografia representa na sua literatura? Há nela uma espécie de território mítico pessoal?

Costumo dizer em tom de brincadeira que não existe uma cidade mais fictícia do que Cataguases (risos). No entanto, tem um fundo de verdade nisso. Poucas cidades do mundo tiveram sua identidade cultural pensada a partir de uma vontade individual. O industrial e escritor Francisco Inácio Peixoto, nas décadas de 1940 e 1950, imaginou poder remodelar a cidade segundo uma concepção modernista. Sob a influência do escritor Marques Rebelo, contratou o arquiteto Oscar Niemeyer e imaginou que Cataguases seria uma espécie de cidade experimental. Essa é uma das cidades que temos hoje. A outra é a dos operários que descansam seus minutos livres na grama da pracinha, de costas para um painel do Portinari. A Cataguases dos meus livros é uma invenção feita a partir dessa contradição.

O livro se insere no campo do romance policial, mas parece ultrapassar o gênero ao investir em questões existenciais e sociais. Você se vê dialogando com tradições específicas do romance policial ou busca deliberadamente tensioná-las?

Costumo dizer que não escrevo novela policial, mas histórias que têm policiais como personagem. É uma brincadeira, óbvio, para desfazer a expectativa de que as minhas histórias se resumam à simples busca de saber quem matou quem e por quê. Não. Estou mais interessado em construir histórias que me permitam sondar a alma humana. Mas, respondendo à sua pergunta de modo mais direto posso dizer que busco me aproximar do gênero noir. Gosto de pensar em personagens ambíguos, em figuras que lutam para se salvar ou para se manter éticas diante da decadência dos ambientes. Porém, como são ambíguas, suas noções éticas são sempre muito particulares. Tento combinar essa “descida aos infernos particulares” sem fazer apologia do individualismo. Quero acreditar que meus personagens têm consciência de que o mundo não pertence somente a eles.

O leitor pode esperar uma resolução clássica do mistério ou o romance aposta mais na inquietação do que na resposta?

Ficaria mais satisfeito se os leitores terminassem o livro com muito mais interrogações sobre si mesmos do que sobre a trama.

Que expectativas você tem em relação à recepção dos leitores?

O livro já está disponível para compra nas livrarias físicas e nas virtuais. O leitor é um presente, sempre. Não invejo os escritores que são best-sellers, mas gosto de saber que um livro meu encontrou um leitor. Minha maior expectativa é a de que o livro seja lido por alguém.

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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