
- A jornalista e pesquisadora Mariana Filgueiras acaba de lançar “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, livro que investiga a presença, e a invisibilidade, dessas mulheres na literatura brasileira – Foto: Ana Alexandrino
“Ainda rapariguinha”, ela aqui chegou. Viera da África, “de nação Moçambique”, e em nosso país teve o mesmo destino de outras negras como ela. Pariu muitos filhos, mas deles não tivera mais notícias. “As vicissitudes do cativeiro os transportava aos quatro cantos do Brasil”. Já com mais de cem anos, “ferida por um achaque próprio da sua alta velhice”, vai parar na enfermaria de um hospital. Lá, a fragilidade de seu corpo envelhecido e marcado pela miséria e pela escravidão rompe com a indiferença do profissional de saúde. Ele já estava acostumado ao sofrimento, mas fica impressionado com a dor daquela mulher que dedicou uma vida ao trabalho doméstico e ao cuidado dos outros, sem receber, ao final, qualquer reconhecimento humano. Seu nome é Quirina, personagem do conto “Babá”, escrito por Lima Barreto, nos idos de 1904.
“Muitas personagens trabalhadoras domésticas na nossa história literária não tinham nome. Nem nome os autores davam para elas. E esse nome, Quirina, eu quis dar para todas que não tinham nome”, conta a jornalista Mariana Filgueiras, para quem Barreto é pioneiro. “É o primeiro conto que eu li na nossa história em que um narrador tem interesse real pela vida de uma mulher que realizava trabalhos domésticos. A Quirina fala, conta suas histórias, traz seus conflitos para o centro do conto”, explica a pesquisadora, que acaba de lançar “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea” (Editora Pangeia/EdUff), livro que nasce de sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense.
Embora presentes na casa de milhões de brasileiros desde finais do século XIX, as trabalhadoras domésticas permaneceram historicamente à margem da literatura brasileira. Essa é a questão que conduz a pesquisa de Mariana, contemplada no Prêmio Capes de Tese, no ano de 2025. Na obra, a autora faz um mapeamento de 37 mulheres de contos e romances publicados entre 1859 e 2024 e mostra que, apenas em 2018, surgiu a primeira doméstica protagonista da literatura brasileira, por meio da escrita de Lília Guerra, no livro “Perifobia”. Por que uma personagem tão presente na vida material brasileira foi tão ausente como sujeito literário?
“Porque nós, brasileiros, somos profundamente racistas. Porque o trabalho doméstico, como diz a Sueli Carneiro, é o ponto de vista heurístico da sociedade, a nossa grande prova dos nove, o nosso grande tabu. Nem o escritor mais progressista vai ter essa relação bem resolvida, vai ter uma proximidade descarnada com essa realidade a ponto de narrá-la com honestidade. O mais recorrente é que seja uma relação ou estigmatizada ou condescendente. Por isso é que a novidade vem dos autores que tiveram mais proximidade, que tiveram trabalhadoras domésticas na família, que oferecem seu olhar com empatia sincera para essa discussão. Eu não estou dizendo que o debate e a representação estão interditadas para quem não tem proximidade, estou dizendo, com base no levantamento que eu fiz, é que os discursos mais interessantes, mais originais, estão vindo desses novos sujeitos de escrita.”
Atualmente, Mariana faz pós-doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Minas Gerais e é professora do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF. Como jornalista, já passou por redações de veículos como TV Globo, Piauí, Estado de S. Paulo e O Globo. Além disso, é dela o livro “O avesso do bordado: uma biografia de Marco Nanini” (Companhia das Letras, 2023). “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea” está disponível para download gratuito no site da editora Pangeia.
“Quirinas” parte de uma constatação que nos incomoda: a trabalhadora doméstica está no centro da vida brasileira, mas quase fora do centro da nossa literatura. Em que momento essa ausência despertou a sua atenção?
Eu tive a ideia de pesquisar as personagens trabalhadoras domésticas na nossa literatura durante a pandemia. Eu já trabalhava com Lima Barreto no mestrado, já tinha interesse em observar a mediação literária dos sujeitos subalternizados na nossa literatura, e, quando meu doutorado começou, dia 15 de março de 2020, foi o mesmo dia que tudo começou a fechar na pandemia. E começaram a surgir notícias mostrando como as trabalhadoras domésticas eram as mais afetadas naquela crise sanitária. Foram as primeiras a morrer, as mais expostas pelos patrões, as que foram consideradas “essenciais” para não parar de trabalhar. E ali me deu o estalo: onde elas estavam na nossa literatura? E aí comecei a mapeá-las, a fazer um levantamento mesmo. Tive como orientadora a Eurídice Figueiredo, a maior leitora que eu conheço, e ela foi me ajudando a construir esse levantamento. Foram quatro anos buscando essas personagens, para depois entender de que forma elas estavam representadas.
Você escreve que muitas dessas personagens aparecem como “escada”, “alívio cômico” ou figura sem subjetividade. O que essa repetição revela sobre os limites históricos do nosso cânone?
Elas começam aparecendo como figuras maléficas, que “contaminavam” a casa organizada da família burguesa. Depois aparecem como pano de fundo, como figuras apaziguadoras, benevolentes, que tudo suportam. Depois aparecem estupradas pelos patrões, abusadas, é muito comum as cenas de estupros em romances que tenham essas personagens. É claro que em muitos casos os narradores e autores estão fazendo uma denúncia, mas me choca perceber que não há outro imaginário possível para essas personagens. Por que elas não têm nome, sonhos, história, família, por que aparecem sempre sob estereótipos parecidos? Esse padrão revela muito como esses autores estavam no mundo. Por que Lima Barreto, em 1904, tinha interesse na subjetividade dessas mulheres e romancistas do final do século XX não tinham? Uma personagem com um potencial dramático desses? Nossa literatura sempre foi muito elitista, só olhava para as elites. E, mesmo quando olhava para a pobreza, e alguns dos nossos maiores romances são sobre a pobreza, mesmo assim, essas personagens seguiam invisíveis.
Por falar nisso, há resistência, dentro da crítica literária, em admitir que o racismo pode operar formalmente na literatura?
Sim. Dizer que Nelson Rodrigues faz uma representação racista das suas criadas, por exemplo, é algo que perturba demais os estudiosos em Nelson Rodrigues nos congressos de literatura. Eles ficam pessoalmente feridos. E, no entanto, é só ler as didascálias (também chamadas de rubricas), que são os indicativos de direção do texto teatral, ver como ele descreve as características físicas das suas personagens, ver como ele não as nomeia, está tudo lá, é um padrão. Ainda que ele tenha escrito tragédias que trabalhem de forma original o racismo, como “Anjo Negro”, há outras peças dele em que as criadas são estereotipadas, objetificadas, desumanizadas, e essa é a contradição de diversos autores brasileiros, uma contradição que pesquisadores devem analisar para complexificar o debate cultural. Pesquisador não é fã. A crítica trabalha com os elementos que os textos nos dão, sem torcer a realidade.

Seu livro nos mostra que a primeira protagonista trabalhadora doméstica em romances brasileiros contemporâneos surge apenas recentemente. O que isso diz sobre o atraso histórico da literatura brasileira em olhar para determinadas vidas?
Isso nos mostra como os autores estavam longe dessas personagens, na verdade. Como não as viam como personagens com imenso potencial dramático. Da mesma forma que só viam as mulheres como loucas, libertinas, infernais, tanto é que muitos romances do século XIX terminam com as mulheres mortas, encarceradas, internadas, assassinadas. Essa misoginia era ainda pior com as mulheres pobres e negras.
Você relaciona o surgimento dessas protagonistas a mudanças sociais importantes, como a Lei de Cotas e a PEC das Domésticas. Como essas transformações repercutiram na literatura brasileira? E, concretamente, o que mudou na construção dessas personagens?
Eu não quero fazer “sociologismo crítico”, como dizia o Antonio Candido, justificar o texto literário pela sociologia, mas é evidente que, quando mais pessoas pobres e pretas ingressam nas universidades, elas começam a mover algumas placas tectônicas sobre assuntos, temas e interesses que eram intocados pela elite branca que frequentava as universidades. Isso aconteceu em todas as disciplinas. Surgem mais remédios, mais pesquisas históricas, mais práticas médicas direcionadas a uma parcela da população que era sim invisibilizada. Então é natural que um neto de trabalhadora doméstica quando começa a escrever romances seja afetado por essa experiencia forte, e muitas vezes traumática, da sua memória familiar. E assim essas personagens vão surgindo, pela caneta dos filhos, dos netos, das sobrinhas.
Há um trecho muito forte em que você fala da “palavra na garganta” de Quirina. Você sente que seu livro tenta justamente ouvir essa fala interrompida pela tradição literária?
Acho que o livro tenta ao menos identificar de onde essas vozes estão vindo…
A sua apresentação mistura crítica acadêmica e memória familiar. Em algum momento você temeu que inserir suas próprias memórias deslocasse o rigor da pesquisa? Ou essa implicação pessoal era incontornável?
Não tive medo, especialmente porque é uma postura honesta em relação ao ponto de vista que eu assumo. O pesquisador de humanas que não expõe de onde partem seus incômodos, de onde parte sua proximidade com seu objeto, é um tipo de pesquisador que acho que ficou no passado, como parte de uma cultura muito eurocêntrica, que enxerga a pesquisa do alto de uma torre de marfim, despersonalizada. E acredito que é justamente a apresentação ou introdução do livro o espaço em que o autor pode indicar de onde partiu, mostrar que não tirou seu objeto do nada, que há razões humanistas para se fazer uma investigação humana, por assim dizer.
E o livro conversa bastante com a crítica feminista e com pensadoras como Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins e Sueli Carneiro. Em que medida essas autoras ajudaram você a reler o cânone brasileiro?
Elas são a caixa de ferramentas que eu uso para desmontar essa máquina de estereótipos que pode ser o cânone brasileiro. É fundamental manejar os conceitos do feminismo negro para se ler o mundo de hoje, em qualquer disciplina, seja sociologia, psicologia, ou, no meu caso, a disciplina que junta todas, que é a literatura. Quando você entende o conceito de “pretuguês”, da Lélia González, de “imagens de controle”, da Patricia Hill Collins, ou o conceito de “não-ser”, da Sueli Carneiro, é como se você tivesse chave de fenda, chave de rosca e chave phillips para desmontar o automatismo dos mecanismos de opressão em fenômenos sociais. Você não acha mais graça quando alguém ri de uma pessoa que fala “frô” em vez de “flor”, porque você sabe que isso é fonema banto que sobreviveu no pretuguês, que é uma estratégia cultural da afrodiáspora. Então a sua leitura de textos que usam este tipo de recurso de humor muda, apenas para dar um exemplo. Você passa a identificar mais facilmente se o riso é uma denúncia, por exemplo, ou se reafirma um estereótipo. Elas me ajudam a ler o mundo.
Depois dessa pesquisa, ficou mais difícil ler certos clássicos brasileiros? Há obras que mudaram completamente de sentido após esse mergulho?
Depende, acho que, como pesquisadora, todos os textos são ricos para a análise, se você os observa mais de perto e com mais ferramentas. Desmontar as muitas camadas de significados de um texto, para mim, é um exercício muito prazeroso, muito interessante. Mas é claro que você ganha uns ranços novos. Acho que ficou mais difícil, para mim, ler os escritores abolicionistas da virada do século XIX para o século XX, porque você vai descobrindo, no texto, no manejo formal dos recursos de linguagem, que eles não eram nada abolicionistas.
Se pudesse escolher uma personagem doméstica da literatura brasileira para finalmente receber um romance inteiro só seu, qual seria?
Que pergunta deliciosa! Eu daria um romance inteiro para a Natividade, do romance “Avalovara”, do Osman Lins. Que descoberta fantástica foi ler esse livro nessa pesquisa, que livro fascinante, que cenas originais! A Natividade tem um enterro absolutamente fabuloso em “Avalovara”, ela merecia um spin off, com certeza.





