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Natalia Borges Polesso: ‘Me interessa ter um projeto literário em que as personagens LGBTQIA+ sejam delineadas com complexidade’

Por Marisa Loures

Natalia Borges Polesso foto de Mariana Jesus
Natalia Borges Polesso, escritora sugerida para o Pism III e autora de “Amora”, fala sobre literatura, representatividade, construção de personagens e o papel das histórias na vida de quem lê. Seu livro de contos foi adaptado para uma série de quatro episódios dirigida por Juliana Rojas, com estreia prevista para 2027 no Canal Brasil (Foto: Mariana Jesus/Divulgação)

“Li o livro com 18 anos, quando comecei a me entender enquanto bissexual, e foi de um acolhimento que jamais esqueço.” Este comentário foi escrito por uma das seguidoras de Natalia Borges Polesso como reação à publicação do pôster de “Amora”, série de quatro episódios, adaptada da obra homônima da escritora gaúcha, que aborda as relações de amor e afeto entre mulheres. E ele saltou do Instagram para a introdução deste texto porque ilustra uma reflexão feita pela autora nesta entrevista. A produção tem Juliana Rojas na direção e Bruna Linzmeyer e Ana Hikari no elenco e será exibida, em 2027, no Canal Brasil.

“Não sei dizer quantas pessoas, nesses mais de 10 anos de livro, vieram me contar de sua identificação com as personagens, de como descobriram algo de si mesmas, de como foi acolhedor ler ‘Amora’”, afirma a também professora e pesquisadora, que, a partir da publicação desse livro, vencedor dos Prêmios Jabuti e Açorianos de Literatura, tornou-se uma das principais vozes da nossa literatura contemporânea. Em 2017, por exemplo, integrou a lista Bogotá 39, uma reunião dos 39 melhores escritores de ficção da América Latina com menos de 40 anos.

Nas narrativas de Natalia, transitam personagens majoritariamente lésbicas, cujas histórias de vida não se resumem aos conflitos provocados pela sexualidade. Segundo a escritora Cidinha da Silva, sua obra “extrapola caixinhas”, como, por exemplo, a da representatividade. Portanto, encontramos mulheres, entre crianças e idosas, inseridas em “um cotidiano das existências que todo ser humano pode experimentar em algum momento de sua vida: primeiro amor; casamento; traição; separação; morte; perdas; sonhos; velhice; solidão; tristeza; felicidade; virgindade; independência; descoberta; de seus próprios repertórios; enfrentamento da família; amor fraternal; trabalho; estudo; e aventuras de toda sorte”, conforme pontua, em texto que integra a coletânea de contos, Milena Britto, professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia.

“Me interessa muito ter um projeto literário em que as personagens LGBTQIA+ sejam delineadas com complexidade”, sentencia Natalia, que é doutora em Teoria da Literatura e autora de outros nove livros publicados, entre romance, conto e poesia. Seu nome está entre as escritoras e escritores sugeridos para o módulo III do Pism, vestibular seriado da UFJF, o qual inclui, entre seus eixos, as representações da homoafetividade na prosa e na poesia brasileira.

Marisa Loures — No ano passado, seu livro “Amora” completou dez anos de lançamento. Em 2027, ele chegará ao audiovisual em uma série dirigida por Juliana Rojas, com quatro episódios inspirados nessa obra. O que você sente ao ver personagens e histórias que nasceram na literatura ganharem outra linguagem?

Natalia Borges Polesso — É um pouco surreal que aquelas personagens na sua cabeça estejam encarnadas. Fui dois dias acompanhar as gravações, em uma delas, participei. Me senti dentro de “Amora”. “Amora” sempre esteve dentro de mim, dentro da cabeça das pessoas leitoras e agora é o momento de sermos capturadas. Me deixei levar. É lindo. O trabalho de direção, de quem atuou, a direção de fotografia, de arte, um trabalho maravilhoso! Estou muito feliz.

 — Há algo que você gostaria que a adaptação preservasse da experiência de leitura do livro?

— Sim, a diversidade de personagens de Amora.

— Entre as histórias da série, está a de Tereza e Daniela, que envolve luto, maternidade, relações familiares, segredos e sexualidade. O que te interessa na possibilidade de construir personagens lésbicas cujas vidas não sejam organizadas exclusivamente em torno do conflito provocado pela sexualidade?

— No livro, a maternidade era uma negação. As personagens não engravidam. A personagem é cobrada, de algum modo, por não ter um homem e engravidar. Mas, na série, a história envolve uma gravidez. O cerne do conto era a tensão familiar gerada pelas violências e microviolências da homofobia – coisa que, por vezes, vivemos muito cotidianamente no interior de nossas famílias – e também o humor que as personagens carregam no divergir do pensamento. Me interessa muito ter um projeto literário em que as personagens LGBTQIA+ sejam delineadas com complexidade. É claro que a sexualidade vai atravessar as personagens, mas isso é uma dimensão da sua construção. O conflito neste conto é como a personagem vai manter a família unida pela fofoca, se a tia fofoqueira morreu. Os recursos estéticos são sarcasmo e humor. E claro, um tanto de ternura.

capa de amora
Capa do livro de contos “Amora” – Foto: divulgação

— E a que recursos estéticos você recorre para que suas personagens não sejam reduzidas à orientação sexual, mas construídas em sua complexidade como personagens literárias?

— Aí vai variar de conto para conto. Há contos em que escolho trabalhar as perspectivas das narradoras, trazer, por exemplo, narradores crianças. Em outros, penso em um tensionamento de imagens, como nos pequenos contos do final do livro, ou como em wasserkur , em que trabalho a imagem da chuva, da água. Por vezes, é o humor. Por vezes, são clichês e tropos, como a vampira lésbica. Há um infinito de possibilidades. Agora mesmo, acabei de escrever um ensaio intitulado “Lésbicas até no fim do mundo”, porque uma vez me perguntaram sobre o que eu estava escrevendo e eu respondi isso (“lésbicas no fim do mundo”) e a pessoa me disse “mas até no fim do mundo?” Isso nunca seria uma questão para qualquer personagem homem ou apenas heterossexual. Acho que também há um reducionismo na visão das pessoas, independentemente do meu esforço nessa construção. Algumas pessoas acham que marcações na construção das personagens podem ser reduzidas ao que agora chamam pejorativamente de identitarismo. Mas não é. Se você não marcar nada, sempre vai ser um homem branco hétero cis a aparecer na imaginação. A gente marca porque nossa estrutura social é construída assim, pela marca do outro.

 — Seu nome está entre os autoras e autores sugeridos para o Pism, vestibular seriado da UFJF, que inclui, entre seus eixos, as representações da homoafetividade na prosa e na poesia brasileira. A professora e pesquisadora Milena Britto afirma que “Amora” é uma obra de resistência justamente por mostrar o que há de comum entre as experiências humanas: o desejo de existir e de amar. E a representação do amor, do desejo e das relações afetivas foi durante muito tempo marcadas por perspectivas heteronormativas. O que muda quando mulheres lésbicas passam não apenas a aparecer nessas narrativas, mas a ocupar o lugar de protagonistas e de sujeitos do desejo?

— Tudo muda. Algo que foi silenciado, fetichizado, por vezes violentado, passa a ser visto e reconhecido. Não sei dizer quantas pessoas, nesses mais de 10 anos de livro, vieram me contar de sua identificação com as personagens, de como descobriram algo de si mesmas, de como foi acolhedor ler “Amora”. Ver-se como possibilidade de vida, uma vida que, talvez, aquela pessoa não acreditasse poder viver. Ou simplesmente se ver representada, sem precisar fazer nenhum contorcionismo imaginativo. Tudo muda.

 — Muitos dos seus textos partem de encontros, lembranças, relações familiares. O que existe de literariamente potente nessas experiências aparentemente banais?

— Me parece que essa é uma força motriz da literatura. Ficcionalizar, narrar, renarrar, inventar, compor com lembranças e estruturas sociais que vivemos. Acho que a potência não está necessariamente nesses temas, mas em como tramamos com eles esteticamente.

 — Em 2019, você afirmou, em entrevista, que, embora a produção de autoria lésbica tivesse aumentado, ela sempre esteve aí. E você chamou atenção para a necessidade de fazer um trabalho de resgate, criando “uma rede que atravesse os tempos e que nos dê uma noção de continuidade”. De lá para cá, percebe avanços nesse trabalho de recuperação dessa tradição literária? E o que ainda falta para que essa história deixe de ser vista como uma produção isolada e passe a ser reconhecida como parte da própria história da literatura brasileira?

— Muitos avanços! Temos aí, por exemplo, um relançamento da obra de Cassandra Rios. Temos muito mais autoras lésbicas hoje do que há dez anos. Entre 2018 e 2020, durante um pós-doutorado na UCS, fiz esse levantamento de autorias lésbicas, sapatonas, bissexuais, entre outras nomeações autodeclaradas. Iniciei com 25 nomes e terminei com mais de 500. Disponibilizei a lista para várias pesquisadoras e grupos de pesquisa da área, que também estavam traçando seus próprios levantamentos. Descobri que precisávamos resgatar autoras do apagamento histórico, reler obras sob um novo prisma, e principalmente, deixar de pensar o gênero e a sexualidade como se fossem temáticas. Aprendi muito. Desde então, tenho como princípio nas minhas leituras não apontar temáticas LGBTQIAP+s, mas compreender como a sexualidade e o gênero compõem as obras, e o que esses atravessamentos promovem no enredo, na trama, na construção das personagens, em como se pensa o tempo e o espaço. Ou seja, prefiro pensar nos elementos da narrativa ou nos elementos da lírica, da dramaturgia, se for o caso e como se coadunam. Agora, o que falta para que essas produções façam parte da história da literatura hegemônica? Falta a história hegemônica ou a crítica aprenderem a pensar dessa forma e não a partir de suas próprias referências.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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