Sheyla Souza: ‘Nunca deixei de ser menina, nunca deixei de sonhar’

Por Marisa Loures

Sheyla Souza
No Dia das Mães, Sheyla Souza celebra um presente raro que recebeu do filho: a publicação de ‘Menina do Rio’, livro de poemas nascido de um caderno em que ela eternizou memórias e sentimentos desde a infância (Foto: acervo pessoal)

Em um dos primeiros poemas de “Menina do Rio com palavras ao vento” (Autoria), aquela garotinha que amava subir o morro até a praça da Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, de onde sentia o Rio a seus pés e via a Central do Brasil marcando uma hora qualquer, faz um convite singelo e irrecusável: “Vamos ler um pouco o que a menina escreveu?”. E, a partir dali, nós que aceitamos sua proposta somos envolvidos pela delicadeza de suas memórias.

Essa menina se chama Sheyla Souza. Hoje, ela tem 79 anos. Mudou-se para as Minas Gerais depois de casada. Foi morar na pequena Manhumirim e, há três décadas, veio com a família para Juiz de Fora. Ela tem três filhos e foi o mais velho deles que a presenteou com a publicação de um caderno de memórias escrito por ela ainda na infância e agora batizado de “Menina do Rio com palavras ao vento”. Apresentada à literatura infantil na sala de aula, por meio das histórias de príncipes e princesas, ela diz que sempre gostou de transformar a realidade vivida em sonhos. Bastava alguém falar uma palavra que a tocasse para ela lançar mão de um papel e ali fazer anotações.

“Foi aí que ganhei um caderno, que guardo até hoje./ Dei o nome de Retalhos da vida./ Ninguém lia o que a menina escrevia,/ mas ela gostava de escrever./ Escrevia, lia e se reconhecia./ Coisas de escrevinhadora”, conta ela, em versos. A obra está em pré-venda na Autoria Casa de Cultura. É um livro de memórias, composto por poemas produzidos ao longo de toda uma vida, com uma escrita simples, cotidiana, e atravessada pela saudade. “É sentimento puro”, disse-me, por telefone, a Menina do Rio.

Marisa Loures – Como essa Menina do Rio veio parar em Juiz de Fora?

Sheyla de Souza – Primeiramente, fui parar em Manhumirim, que foi a cidade que me deu o título de “Menina do Rio”. É que sou nascida e criada no Rio de Janeiro e, com 19 anos, mudei para essa cidade do interior de Minas, uma cidade muito pequena, mas muito acolhedora. Aquela mudança foi muito radical. Eu senti muito quando me mudei. Já conhecia a cidade, porque, quando era criança, passava por lá, mas ia apenas nas férias, nunca para morar. E eu saí do Rio de Janeiro, com o calor, junto com aquelas praias, com tudo que o Rio me oferecia, um lugar onde eu embalei meu sonho todo, e fui para Manhumirim. Foi um choque para mim, porque era uma cidade gelada. Não tinha um cinema, não tinha nada. Tinha só uma pracinha onde as moças rodavam em volta. Mas eu sempre gostei de me dar conselhos e de conversar comigo. Pode parecer loucura, mas é real. Então, eu dizia: “Sheyla, isso vai passar, você vai se acostumar”. E, aos poucos, fui fazendo amizade. Todas as vezes que se referiam a mim falavam: “Ali a Menina do Rio!” E ali eles me cativaram. E a Menina do Rio, que já gostava de escrever, continuou aquele caderno que carregava com ela, porque toda a vida escrevi, e coloquei nele o nome de “Menina do Rio”. Manhumirim foi uma escola de vida para mim. Eu me casei lá, fui muito feliz, tive minha família criada lá, até que meu marido veio transferido para cá, e assim Juiz de Fora entrou na minha, uma cidade encantadora também. Agora, sou mineira.

O Rio de Janeiro aparece na sua escrita como espaço afetivo muito forte. O quanto esse lugar molda quem a senhora é e o que a senhora escreve?

Essa cidade representa muito para mim, porque vivi ali a melhor fase da minha vida, que é a infância e a adolescência. Eu tinha muitos amigos. Foi onde conheci o primeiro amor, o príncipe encantado. Porque eu fui uma princesa, me considerava como tal. Então, o Rio é a cidade onde aprendi a viver, onde sonhei muito. Ele nunca saiu de mim. Realmente, foi uma despedida muito difícil. E o mais interessante disso tudo é que a vida é como ela tem que ser. Sou carioca de coração, mas minha alma agora é mineira, porque a maior parte do meu tempo não foi vivida no Rio. Lá, eu vivi a melhor fase.

E a senhora tem vontade de voltar a morar no Rio?

Vou lá só a passeio. Mudança já não cabe muito na minha vida.

A literatura entrou na vida da senhora por meio das histórias de príncipes e princesas?

Devo tudo à minha primeira professora, porque fui criada na literatura infantil, entre príncipes, princesas e fadas. Eu gostava de imaginar, de transformar as histórias que eu ouvia. Eu não tinha criança dentro de casa, fui criada só com adultos. Depois é que vieram meus sobrinhos. Então, todas as vezes que alguma coisa me chocava, eu tinha um espaço meu carregado de sonhos. Foi o momento em que descobri que o príncipe encantado não chega só de carruagem, chega de outras formas. E depois fui transformando as verdades que eu descobria e que às vezes me impunham e as realidades que me chocavam em sonho. A literatura infantil marcou tanto a minha vida que, quando cheguei aqui em Juiz de Fora, já trabalhando numa escola como bibliotecária, comecei a carimbar os livros que chegaram, e, de repente, em um deles, vejo escrito a história da formiguinha. Eu não aceitei carimbar aquele livro. Chorei tanto quando eu vi, porque tinha muita vontade de transformar aquela história. E eu sempre contava a história da formiguinha para os meus alunos. Esse livro veio como uma transformação. Eu o tenho guardado, porque a diretora me deu de presente um dos exemplares. Ela consentiu que um ficasse comigo. Aí você vê o quanto a literatura, a poesia, nos marca.

Capa de menina do rio
Capa de “Menina do Rio com palavras ao vento” – foto: divulgação

Sua escrita é muito memorialística. Escrever foi uma forma de reencontrar a Menina do Rio, de cabelos longos, amarrados com fitas, que morava numa casa velha que parecia o castelo de uma princesa?

Aquele era meu castelo. O castelo dessa princesa que morou em mim por muito tempo. Esse livro, na verdade, é um caderno de anotações minhas que eu tenho desde criança. Tenho outro caderno que fala das madrugadas que eu vivi acordada, dos sonhos que eu tive, de outras coisas mais. Mas esse livro fala da minha infância eterna, porque eu nunca deixei de ser menina, nunca deixei de sonhar, nem dentro da realidade. São anotações feitas na mocidade mesmo. É a minha vida. Quando alguém falava alguma coisa, eu ficava preocupada com aquilo e colocava num papel. Não é uma biografia, são memórias. Esse livro foi um presente maravilhoso.

Todos os textos que estão no livro foram escritos na mocidade?

São textos escritos ao longo de toda uma vida. Tem coisas que eu retirei, tem coisas que permaneceram. Esse livro traz uma sequência de vida. As surpresas que vivi, as revelações da minha infância.

E, para publicar esses textos, foi necessário fazer muita alteração neles?

Quando alguém me falava alguma coisa, eu não entendia, anotava no papel. Eu não tinha Google, não tinha enciclopédia, não tinha nada. Mas eu tinha professora, e eu pesquisava, perguntava “o que que é isso?”, “por que isso?”, “por que aquilo?”. Para publicar, tive que organizar os textos. Contei muito com o apoio da Carol (Canêdo, gestora da Autoria).

E há algo que só pôde ser escrito agora, depois dos 70 anos?

As memórias do meu marido, por exemplo, estão lá. Minha convivência com ele. A relação que eu tenho com a natureza também. Lá no Rio era diferente. Aqui, eu tenho flores, tenho contato direto com os animais, porque considero que a natureza é o altar de Deus. Então, respeito todas as formas de ser vivo, porque as considero sagradas. Também nunca souberam que deixei um amor para trás. Nunca ninguém soube que fui, praticamente, obrigada a sair do Rio. Eu nunca cobrei isso de ninguém, nunca joguei isso no ar. Foi uma mentira muito grande que me levou para Manhumirim. Essa mentira dói, e isso está ali no livro. Foi aí que eu descobri que nem toda mentira vem de uma pessoa estranha. Às vezes, ela vem de quem você mais confia. E você tem que lutar muito para não carregar mágoa e ainda transformar aquilo tudo em compreensão. Para você ter uma ideia, eu parei de tocar acordeão, nunca mais peguei no meu acordeão, acabei até vendendo. Para você ver como a mudança foi doída para mim.

A senhora menciona perdas, saudade, doença, recomeços. A escrita ajudou a atravessar esses momentos?

A escrita é libertadora, porque você tem a liberdade de colocar todos os seus sentimentos num lugar só. Quando você lê o que escreveu, você vive aquilo tudo outra vez.

Sua escrita é muito direta, simples, cotidiana. Isso é uma escolha ou é algo natural do seu modo de escrever?

Não busco palavras em dicionários, não uso palavras difíceis. É sentimento puro. Eu poetizei momentos.

A presença de Deus é constante em “Menina do Rio com palavras ao vento”. Isso estrutura sua forma de ver a vida?

Fui criada na Igreja Católica. Meu pai adotivo, que era meu padrinho, um pai escolhido por mim, era kardecista. Quando pequena, eu saía com meu pai, às vezes, para ele atender um paciente, porque era médico. Ele parava o jipe no meio da estrada, nós olhávamos o céu, as estrelas, e ele falava: “Filha, Deus habita na natureza”. Você acredita que, até hoje, eu vejo na natureza a presença de Deus e é nela que eu abro os braços e faço louvor? É na natureza, não é dentro de igreja. Na minha doença, todas as igrejas me deram muito apoio, mas Deus é presença constante na minha vida. Ele é a força maior que me guia, e é na natureza que ele habita.

O lançamento dessa obra é um presente do seu filho. Por que ele resolveu presenteá-la com a publicação de um livro?

Esse é o meu filho mais velho. Ele gosta de me fazer surpresa, gosta de me surpreender, gosta de me agradar. Eu saí do hospital, e ele falou: “mãe, mandei publicar”. Eu falei: “Meu filho, isso não é nem um livro”. E ele falou: “Agora vai ser.” Isso é uma realização. Meus filhos são maravilhosos, todos os três me apoiam muito.

Para quem a senhora escreveu este livro?

Espero que as pessoas, todos os amigos, todos que adquirirem este livro, que tiverem esse livro em mãos, que o leiam. Que se sintam acolhidos, tocados. Acho que, em algum momento, em algum pedaço, alguém se encontra em algum lugar.

“Não sou escritora, sou apenas uma escrevinhadora”, diz a senhora no livro. O que essa palavra diz sobre sua relação com a escrita?

Eu acho lindo um escritor. Acredito que, quando ele vai escrever uma biografia, ele faz um estudo e escreve sobre aquilo. Quando ele vai fazer um poema também. Mas eu não. Eu rabisco num papel, às vezes, de madrugada. É por isso que eu tenho um livro que se chama “Madrugada indiferente”, porque, sempre que eu acordava de madrugada, eu escrevia. Então, acho que sou escrevinhadora, porque tudo que eu vejo eu escrevo, invento coisas. É como eu falo: “Escorrego na lua e caio nas estrelas”. Então, não sou escritora. Só gosto de escrever. “Menina do Rio” é um livro simples, mas carregado de emoção.

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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