A descoberta de circovírus nos 11 únicos indivíduos de ararinha-azul que viviam em liberdade no sertão da Bahia interrompeu, mais uma vez, o sonho de devolver a espécie ao seu habitat natural.
A recaptura emergencial desse grupo representou um golpe duro para décadas de esforços de conservação, especialmente porque essas aves soltas simbolizavam a esperança de restabelecer uma população selvagem funcional após anos de tentativas frustradas.
Histórico de uma extinção anunciada na natureza
Desde os anos 1990, expedições percorreram mais de 55 mil quilômetros no Nordeste sem encontrar registros confiáveis da espécie em vida livre. Por isso, o ICMBio passou a considerar a ararinha-azul como “Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinta)” na natureza.
Os indivíduos reintroduzidos a partir de 2022, repatriados de criadouros europeus, eram a aposta mais concreta para reverter esse quadro. Agora, com a presença do vírus, todo o programa de soltura foi suspenso até que a situação sanitária seja controlada.
O circovírus dos psitacídeos, originário da Austrália, é o agente causador da doença do bico e das penas. Ele não infecta humanos, mas é devastador para araras e papagaios, levando à morte na maior parte dos casos.
Entre os sintomas observados estão falhas no empenamento, mudança na coloração das penas e deformação do bico, sinais que comprometem completamente a sobrevivência na natureza.
Criadouros como último refúgio da espécie
Apesar do susto, a população mundial da ararinha-azul não se resume aos 11 indivíduos contaminados. A maior parte das aves está concentrada em criadouros no Brasil e no exterior, com dezenas delas vivendo sob rígidos protocolos sanitários e em condições controladas.
O Criadouro para Fins Conservacionistas do Programa de Reintrodução da Ararinha-Azul, que participou das solturas, possui atualmente 103 aves. A ACTP, na Alemanha, mantém a maior população conhecida e foi responsável pela repatriação de 93 animais desde 2020, base essencial para as ações de reprodução.
Discordâncias e clima de tensão
O caso ganhou contornos mais complexos quando o criadouro responsável pelas solturas contestou os diagnósticos. Três tipos de testes foram realizados: dois deles apontaram resultado positivo para apenas algumas aves, enquanto um método mais recente indicou a presença do vírus nos 11 indivíduos.
O ICMBio, no entanto, reafirmou os resultados e aplicou sanções administrativas, citando falhas graves nos protocolos de biossegurança, incluindo instalações sujas, EPIs não utilizados e ausência de procedimentos mínimos de limpeza.
Fiscalização, multas e recrudescimento das exigências
Após as primeiras suspeitas, visitas técnicas identificaram ambientes inadequados, acúmulo de material orgânico e manejo sem equipamentos de proteção.
As penalidades ultrapassaram R$ 1,8 milhão e vieram acompanhadas de uma série de obrigações:
- Isolamento imediato das aves positivas;
- Descontaminação completa dos recintos;
- Reforço nas barreiras sanitárias;
- Revisão dos protocolos de manejo e alimentação.
O Inema também aplicou multas adicionais após constatar novos problemas.
Impactos no programa de reintrodução
A soltura de novos grupos, que estava prevista para 2025, foi oficialmente suspensa. Agora, o foco é impedir a disseminação, preservar os indivíduos saudáveis e reforçar a vigilância sanitária.
A expectativa é que o retorno das aves à natureza só ocorra quando houver garantia plena de segurança, algo que pode levar tempo e demandar novos estudos.
Segundo o ICMBio, investigações seguem em andamento. Ainda não se sabe se o vírus entrou no grupo por falha de manejo, contato com outras aves ou contaminação ambiental. A segurança dos animais saudáveis depende dessa resposta, e de ações rápidas e coordenadas.
Mesmo com o retrocesso, especialistas reforçam que a espécie ainda não está condenada. Os grupos em cativeiro continuam reproduzindo, sem sinais da doença, e representam o núcleo vital para a recuperação da ararinha-azul.





