A Unimed Cuiabá teria desembolsado cerca de R$ 2,5 milhões para contratar uma consultoria privada criada por dois delegados da Polícia Federal, com o objetivo de conduzir uma investigação interna sobre a gestão anterior do plano de saúde.
A revelação foi feita pelo site Intercept Brasil, que apontou que a empresa responsável pela apuração, a Trinity Consultoria, foi aberta apenas nove dias antes da assinatura do contrato. Os serviços incluíam atividades de compliance, segurança corporativa e diagnóstico de processos internos.
Unimed teria pago R$ 2,5 milhões a delegados da PF para investigação interna
Segundo a reportagem do Intercept Brasil, a Trinity foi fundada por Rodrigo Piovesano Bartolamei, ex-superintendente da PF em São Paulo, e Carlos Eduardo Fistarol, então delegado em Santa Catarina.
A sociedade foi constituída em abril de 2023 e, no mesmo mês, firmou o primeiro contrato com a Unimed Cuiabá. Inicialmente, os pagamentos mensais eram de R$ 87 mil, valor que chegou a R$ 135 mil posteriormente.
Um segundo contrato previa ainda uma cláusula de “honorários de êxito”, com valores que poderiam superar R$ 3 milhões caso houvesse recuperação de ativos pela operadora de saúde.
Os documentos obtidos pela reportagem do site Intercept Brasil mostram que a atuação da consultoria fundamentou ações judiciais e uma operação da própria Polícia Federal, a Bilanz, deflagrada em 2024.
A operação atingiu membros da gestão anterior, acusados pelo Ministério Público Federal de ocultar prejuízos de R$ 400 milhões. A nova diretoria da Unimed afirma que as provas reunidas pela Trinity foram cruciais para firmar um acordo de leniência com o MPF.
Clausula de sucesso oferecida pela Unimed aos delegados chama a atenção
Especialistas ouvidos pela reportagem do Intercept criticaram os termos do contrato, classificando como “incomum” a existência de cláusulas de sucesso nesse tipo de serviço, além de considerar os valores elevados para o mercado.
Também chamou atenção o fato de policiais — mesmo licenciados — estarem envolvidos diretamente em investigações privadas. A legislação impõe restrições a servidores da PF, que devem se dedicar exclusivamente à função pública, salvo em caso de licenças para tratar de interesse particular.
Os delegados envolvidos afirmaram que atuaram legalmente, durante afastamentos devidamente autorizados, e que não mantiveram contato com colegas da PF ou do MPF.
A Unimed também declarou que a consultoria teve caráter interno, sem envolvimento na condução do acordo de leniência. O contrato com a Trinity foi encerrado em março de 2025, segundo decisão da própria diretoria do plano.






