Durante uma audiência pública realizada na Câmara Municipal de Santos, no litoral paulista, autoridades e especialistas discutiram um dado alarmante: a Baixada Santista opera com apenas metade da quantidade de leitos hospitalares recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A entidade internacional estabelece como parâmetro mínimo três leitos por mil habitantes, mas a região, com uma população estimada em 1,2 milhão de pessoas, dispõe de apenas 1,52 leito por mil, totalizando 1.834 leitos hospitalares disponíveis.
Região paulista opera com apenas metade dos leitos indicados pela OMS
O debate escancarou não apenas a carência física de leitos, mas também a complexa teia de problemas estruturais e administrativos que envolvem o sistema público de saúde na região.
Um dos pontos centrais abordados foi o crescimento dos repasses financeiros para organizações sociais (OSs) que prestam serviços médicos terceirizados.
Segundo dados apresentados, os contratos com essas entidades consumiram 24% do orçamento municipal de saúde em 2023 — um salto expressivo em comparação aos 4% registrados em 2016. Durante o pico da pandemia, em 2021, esse percentual chegou a 33%.
Para o vereador Marcos Caseiro (PT), responsável por convocar a audiência, a disparidade entre o investimento nas OSs e o restante da estrutura de saúde pública pode estar diretamente relacionada à precariedade atual.
Ele alertou para o risco de desequilíbrio no sistema e questionou a eficácia do modelo de terceirização diante das necessidades da população. “Estamos destinando quase um quarto do orçamento à gestão terceirizada, enquanto faltam leitos e o número de internações de emergência cresce”, afirmou.
Outro aspecto levantado foi a escassez de internações para cirurgias eletivas. Cerca de 78% das admissões hospitalares pelo SUS na região são de emergência, muitas vezes ligadas a complicações de doenças crônicas mal acompanhadas, como hipertensão e diabetes.
Especialistas apontaram que a falta de atenção básica estruturada contribui para o agravamento dessas condições, sobrecarregando os hospitais.
Solução proposta passa por melhorar cuidados preventivos de saúde e liberar leitos bloqueados
Representantes do Ministério da Saúde participaram da discussão e reforçaram a necessidade de integrar os serviços de atenção primária e especializada.
Foi mencionado que Santos faz parte do Programa Mais Acesso a Especialistas (PMAE), iniciativa federal que destinou quase R$ 2 milhões à cidade para ampliar o atendimento em áreas específicas.
A audiência também trouxe à tona denúncias sobre leitos bloqueados no Complexo Hospitalar da Zona Noroeste. Segundo a prefeitura, parte das alas estava fechada por razões técnicas e segurança hospitalar, mas esforços estariam em curso para reativar os leitos inoperantes.
A falta de estrutura, o modelo de gestão contestado e a subutilização de equipamentos públicos compõem um cenário que ameaça diretamente a qualidade do atendimento na saúde pública da Baixada Santista.






