Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que pretende impedir qualquer alteração nos textos da Bíblia. A proposta, porém, não estabelece qual versão deveria servir de referência, algo que acendeu um alerta entre denominações evangélicas e também na Igreja Católica.
Para líderes religiosos, além de ignorar o longo percurso histórico de edição, tradução e adaptação das Escrituras ao longo dos séculos, o projeto acaba por transferir ao Estado a autoridade de definir qual seria o “verdadeiro texto sagrado”, um papel que não deveria ser do poder público.
Projeto de Lei que proíbe mudanças na Bíblia não agrada igrejas
A iniciativa é de autoria do deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante-BA). Aprovada pela Câmara em 2022, ela avançou este ano no Senado, onde ainda percorre comissões.
O texto do PL 43606/2019 determina que nenhuma forma de modificação, seja inclusão, corte, atualização linguística ou reorganização, possa ser feita nos livros da Bíblia.
A justificativa do autor parte da preocupação de que, em algum momento, grupos políticos ou econômicos tentem manipular o conteúdo bíblico para defender interesses próprios.
Segundo Isidório, a ideia é preservar aquilo que considera um patrimônio espiritual e cultural do país e impedir eventuais distorções.
Por que as igrejas são contra projeto que proíbe mudanças na Bíblia?
O ponto central da crítica de igrejas e estudiosos é que a proposta desconsidera justamente o processo que moldou as atuais versões da Bíblia.
Representantes de organizações dedicadas à pesquisa e difusão do texto bíblico lembram que, desde os escritos originais, o material passou por traduções, revisões e acréscimos técnicos necessários para torná-lo compreensível.
A divisão em capítulos e versículos, por exemplo, não existia nos manuscritos mais antigos. Da mesma forma, o Antigo Testamento em hebraico não utilizava vogais, que foram introduzidas séculos depois para facilitar a leitura.
Essas mudanças, afirmam especialistas de diferentes denominações, não alteram o conteúdo teológico, mas são parte inevitável do trabalho de preservação.
Tanto entre católicos quanto entre evangélicos, há consenso de que não há uma única Bíblia possível. As tradições cristãs adotam cânones diferentes e utilizam traduções próprias.
Padres e pastores que participaram de debates no Senado afirmaram que, ao tentar fixar um texto como referência nacional, o projeto poderia interferir no diálogo entre as igrejas e até gerar disputas sobre qual versão seria reconhecida pelo Estado.
Para eles, o risco não está em eventuais revisões feitas por estudiosos, mas na possibilidade de o poder público assumir um papel que é religioso por natureza.






