A partir de agosto de 2025, o Brasil dará mais um passo rumo à transição energética com a elevação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel fóssil para 15% (B15), conforme aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
Essa decisão está alinhada com a Lei do Combustível do Futuro, cujo objetivo central é ampliar de maneira contínua o uso de biocombustíveis na matriz energética nacional.
A medida traz consigo não apenas avanços ambientais e econômicos, mas também uma nova chance de reaproveitamento para um resíduo doméstico comum com o óleo de cozinha usado.
Óleo residual na produção de biodiesel
Embora o óleo de cozinha usado ainda represente aproximadamente 2% das matérias-primas na produção de biodiesel no Brasil, essa participação vem crescendo de forma notável, com um salto superior a 700% nos últimos dez anos.
Tal evolução demonstra o potencial promissor desse resíduo, que, quando descartado corretamente e destinado à cadeia produtiva, transforma-se de poluente urbano em recurso energético limpo.
A produção de biodiesel a partir do óleo de cozinha usado oferece múltiplos benefícios: reduz significativamente as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel convencional e evita o descarte inadequado do resíduo em pias, esgotos ou lixões, o que, além de entupir tubulações, contribui para a poluição hídrica e gera emissões de metano, um gás com potencial de aquecimento global 28 vezes maior que o dióxido de carbono.
Economia circular
O conceito de economia circular, cada vez mais discutido em políticas ambientais modernas, baseia-se na preservação dos recursos por meio da reinserção de materiais nos ciclos produtivos.
O óleo de cozinha usado é um dos exemplos mais práticos de como esse modelo pode ser aplicado. Em vez de ser descartado, o resíduo pode ser coletado, tratado e transformado em biodiesel, uma alternativa energética renovável, menos poluente e que ainda movimenta a economia local.
Nesse contexto, destaca-se o Programa Óleo Sustentável, da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que atua como elo entre os consumidores, as prefeituras e a indústria de biocombustíveis.
A iniciativa promove ações de educação ambiental, incentiva a coleta domiciliar e cria parcerias com municípios para estabelecer pontos de coleta de óleo usado. Além de fomentar a logística reversa, o programa também amplia a conscientização sobre a destinação correta desse resíduo.
Inclusão
A valorização do óleo de cozinha usado não é apenas uma pauta ambiental, ela também tem um forte impacto social e econômico. A cadeia de coleta e reaproveitamento mobiliza cooperativas de catadores, pequenos empreendedores e empresas de reciclagem, criando empregos e estimulando a economia local.
Em bairros urbanos e comunidades periféricas, o incentivo à entrega de óleo usado pode se converter em programas de troca por alimentos, produtos de limpeza ou descontos em contas de energia, por exemplo.
Além disso, o avanço para a mistura B15 deverá estimular ainda mais esse mercado, aumentando a demanda por matéria-prima sustentável e acelerando a formalização de redes de coleta e processamento de óleo residual.
Desafios
Apesar dos avanços, alguns desafios persistem. A infraestrutura de coleta seletiva de óleo ainda é limitada em muitos municípios, dificultando o acesso da população a pontos de descarte adequados.
A falta de conhecimento sobre os impactos do descarte incorreto e a baixa adesão às campanhas educativas são entraves que precisam ser superados.
Para ampliar a escala do reaproveitamento do óleo de cozinha, será necessário investir em campanhas de conscientização, políticas públicas de incentivo e ampliação das redes logísticas, com envolvimento direto das prefeituras e da iniciativa privada.
Com políticas bem estruturadas, incentivos adequados e a participação ativa da sociedade, cada gota de óleo descartada corretamente poderá contribuir para um futuro mais limpo, justo e sustentável.






