Os cientistas têm observado o Oceano Pacífico com uma atenção quase cirúrgica nos últimos meses. O comportamento do próximo El Niño pode não seguir o roteiro esperado.
Mesmo com os oceanos mais quentes já registrados em várias medições recentes, existe um fator natural capaz de alterar completamente a intensidade do fenômeno e ele não está no centro do Pacífico tropical, mas sim no norte do oceano.
Trata-se da Oscilação Decadal do Pacífico (PDO), um ciclo climático que funciona como uma espécie de “humor de fundo” do oceano, alternando períodos de aquecimento e resfriamento que duram anos ou até décadas.
E esse detalhe, que pode parecer técnico demais, já esteve diretamente ligado aos maiores eventos climáticos da história recente.
Quando o Pacífico “abre caminho” para super El Niños
Ao olhar para trás, o padrão chama atenção. Os três episódios considerados super El Niño, 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016, não aconteceram por acaso em qualquer fase do oceano.
Todos surgiram em momentos em que a PDO estava em seu lado mais favorável ao aquecimento do Pacífico equatorial.
Nessas fases, o oceano parece “ajudar” o El Niño a crescer. As águas quentes conseguem avançar com mais facilidade em direção à costa da América do Sul, enquanto os ventos que normalmente funcionam como uma barreira natural enfraquecem.
O resultado é um sistema mais organizado, mais estável e muito mais poderoso. É como se o Pacífico, nessas fases, deixasse de resistir ao El Niño e passasse a amplificá-lo.
O presente conta outra história
Hoje, porém, o cenário é diferente. A PDO está em fase negativa e isso muda tudo.
Em vez de favorecer a expansão das águas quentes no Pacífico oriental, o sistema atual tende a dificultar esse movimento. Os ventos alísios permanecem mais resistentes, e a interação entre oceano e atmosfera não alcança o mesmo grau de sincronização visto nos grandes eventos do passado.
Esse detalhe ajuda a entender por que o El Niño de 2023–2024, apesar de forte e influente, não atingiu o nível clássico dos chamados “super El Niños”. O oceano acumulou energia, mas a atmosfera não respondeu com a mesma intensidade contínua.
O resultado foi um fenômeno poderoso, porém mais irregular, menos “perfeito” em sua formação.
Um oceano mais quente
Mesmo assim, seria um erro interpretar isso como uma contenção total do fenômeno. O El Niño recente foi suficiente para influenciar o clima global, impulsionar ondas de calor e contribuir para recordes de temperatura em escala planetária.
O ponto central é que ele não conseguiu atingir o nível de organização extrema que caracteriza os eventos mais destrutivos da história moderna. E isso levanta uma hipótese que a PDO ainda está funcionando como um regulador natural, mesmo em um planeta em aquecimento acelerado.
O novo elemento que pode mudar todas as regras
Só que existe uma variável que pode estar começando a bagunçar esse equilíbrio antigo. O aquecimento global não apenas aumenta as temperaturas médias dos oceanos, ele também pode estar interferindo na forma como ciclos naturais como a PDO se comportam.
Águas mais quentes podem reduzir a capacidade do sistema de “segurar” a energia acumulada no Pacífico tropical. Em outras palavras, o freio natural pode não ser tão eficiente quanto antes.
De um lado, um mecanismo climático tentando limitar eventos extremos; do outro, um planeta que adiciona cada vez mais combustível ao sistema.
A grande questão não é mais se o El Niño vai acontecer, mas como ele vai se comportar em um mundo onde os antigos padrões podem estar perdendo força.





