O uso de smartwatches para monitoramento do sono tem levantado alertas entre especialistas quanto aos riscos de interpretação inadequada dos dados.
O fenômeno conhecido como ortosônia, termo cunhado em 2017 pela psicóloga Kelly Baron, do Rush University Medical Center, e descrito no Journal of Clinical Sleep Medicine, refere-se à busca obsessiva por um “sono perfeito” orientado por métricas digitais.
A expressão combina os termos gregos “ortho” (correto) e “somnia” (sono), em analogia à ortorexia. Embora não seja um diagnóstico formal, a ortosônia é reconhecida na literatura científica revisada por pares.
O estudo que apresentou o conceito relatou casos de pacientes que prolongavam o tempo na cama para melhorar índices fornecidos por rastreadores, comportamento que acabou agravando quadros de insônia.
Monitoramento que causa insônia
O problema central não está no dispositivo, mas na ansiedade gerada pelos dados. Usuários podem priorizar as métricas em detrimento da própria percepção de descanso, desenvolvendo hipervigilância e tratando o sono como desempenho.
Estudo de 2024 na revista Brain Sciences, com 523 participantes, apontou que 35% utilizavam rastreadores; a prevalência de comportamentos associados à ortosônia variou entre 2% e 14%, com relação a maior insônia.
Além disso, 18% relataram aumento da preocupação com o sono. Sinais de alerta incluem checar a pontuação ao acordar, alterar a rotina com base apenas nos números e prolongar o tempo na cama para “melhorar” métricas.
Do ponto de vista técnico, os smartwatches diferenciam sono e vigília com sensibilidade entre 79% e 88% em comparação à polissonografia, mas têm baixa acurácia para classificar fases do sono, em torno de 38%. As estimativas se baseiam em sensores de movimento e frequência cardíaca, sem medição direta da atividade cerebral.
Acompanhamento do sono
Na prática, especialistas consideram os dispositivos mais úteis para acompanhar tendências de longo prazo, como variações na duração média do sono ao longo de semanas, do que para análises precisas de noites isoladas.
Quando usados com equilíbrio, podem ampliar a consciência sobre hábitos e padrões ligados ao estresse ou à rotina.
A orientação é tratar as métricas como ferramenta complementar, não como medida absoluta da qualidade do descanso. A percepção subjetiva ao despertar continua sendo referência central, sobretudo diante das limitações da tecnologia.






