O incêndio que destruiu parte dos alojamentos de operários em Porto Alegre do Norte, no Mato Grosso, acendeu o alerta para uma realidade alarmante: a existência de trabalho escravo no local, segundo autoridades.
A tragédia, ocorrida em 20 de julho deste ano, motivou uma série de inspeções que acabaram revelando que mais de quinhentas pessoas viviam e trabalhavam em condições análogas à escravidão durante a construção de uma usina de etanol.
A operação foi conduzida por uma força-tarefa envolvendo o Ministério Público do Trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego e a Polícia Federal.
Incêndio revela trabalho escravo em obra de usina de etanol
As investigações mostraram que os trabalhadores, contratados pela TAO Construtora para erguer o empreendimento da 3tentos, enfrentavam um cotidiano marcado por precariedade extrema, vivendo em condições semelhantes a trabalho escravo.
Muitos vinham de estados distantes, como Maranhão, Pará e Piauí, e arcavam com o custo da própria viagem, valor depois descontado de seus salários.
O alojamento que os recebia estava superlotado, com cômodos abafados, apenas um ventilador para quatro pessoas e colchões gastos, sem lençóis ou travesseiros. Quem não conseguia lugar na cama dormia no chão, debaixo de mesas.
A situação se deteriorou ainda mais nas semanas que antecederam o incêndio, quando quedas de energia deixaram os alojamentos sem abastecimento de água. A empresa recorreu a caminhões-pipa para buscar água do Rio Tapirapé, que chegava turva e imprópria para consumo.
Para tomar banho, os operários usavam canecas e enfrentavam longas filas para acessar banheiros sujos.
No canteiro de obras, o cenário não era melhor. As refeições eram descritas como repetitivas, mal preparadas e, em alguns casos, contaminadas por larvas e moscas. Refeitórios abafados e sem ventilação completavam o quadro.
Trabalho escravo: funcionários trabalhavam até 20 horas por dia, e após incêndio foram demitidos por justa causa
Jornadas que ultrapassavam 20 horas eram registradas de forma paralela, por meio de um esquema informal apelidado de “cartão 2”, com pagamentos feitos fora da folha, o que caracteriza sonegação.
Relatos também apontam falta de equipamentos de proteção e casos de lesões e doenças de pele sem registro oficial.
Após o incêndio, 18 trabalhadores foram dispensados por justa causa e centenas pediram demissão ou encerraram o contrato. Cerca de 60 pessoas perderam todos os pertences no fogo.
A força-tarefa determinou que a empresa acomodasse os empregados em hotéis e casas alugadas, enquanto negocia um Termo de Ajuste de Conduta para garantir indenizações, pagamento de verbas rescisórias e reparação de danos.
O caso permanece sob investigação, e novas inspeções não estão descartadas. Para as autoridades da área, o episódio é só mais um exemplo de como tragédias podem expor práticas ilegais e degradantes ainda presentes em grandes empreendimentos brasileiros, como o trabalho escravo.






