A chamada “Geleira do Juízo Final” está sendo perfurada por cientistas em uma das regiões mais remotas do planeta para tentar responder a uma pergunta que preocupa governos, pesquisadores e populações costeiras: quanto tempo falta para que seu colapso provoque mudanças irreversíveis no nível dos oceanos.
A iniciativa busca observar diretamente processos que até hoje só puderam ser estimados por modelos e imagens de satélite, abrindo uma nova janela para entender o ritmo das transformações climáticas globais.
Geleira do Juízo Final é perfurada para medir tempo para ‘fim do mundo’
O nome popular se refere à geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental. Ela é uma das maiores geleiras do mundo, com extensão comparável à da Grã-Bretanha, e desempenha um papel central na sustentação da calota de gelo da região.
O apelido alarmista não surgiu por acaso. Estudos indicam que, se a Thwaites perder sua estabilidade, o nível médio dos mares pode subir dezenas de centímetros.
Mais preocupante ainda é o efeito em cadeia: sua ruptura pode abrir caminho para o escoamento acelerado de outras massas de gelo vizinhas, elevando significativamente esse impacto ao longo das próximas décadas.
Apesar de sua importância, o que acontece sob essa enorme camada de gelo permanece, em grande parte, desconhecido.
O principal ponto de incerteza está na interação entre o gelo e a água do oceano que circula por baixo da geleira. Essa água, relativamente mais quente, corrói a base do gelo de baixo para cima, enfraquecendo sua estrutura.
Como esse processo ocorre longe da superfície, ele escapa da observação direta por satélites.
Pesquisadores esperam acompanhar como correntes oceânicas, temperatura e salinidade afetam a geleira
Para enfrentar essa limitação, equipes do British Antarctic Survey, em cooperação com pesquisadores da Coreia do Sul, iniciaram uma operação inédita.
Usando um sistema que injeta água aquecida a altas temperaturas e pressão, os cientistas estão abrindo perfurações que atravessam até mil metros de gelo, alcançando áreas próximas à chamada linha de aterramento.
É nesse ponto que a geleira deixa de estar apoiada no solo e começa a flutuar, tornando-se especialmente vulnerável.
Ao instalar sensores e coletar amostras de água e sedimentos, os pesquisadores esperam acompanhar, quase em tempo real, como correntes oceânicas, temperatura e salinidade afetam a base da geleira.
Esses dados permitirão reconstruir tanto o comportamento passado da Thwaites quanto projetar seu futuro.
O desafio é enorme. As condições extremas reduzem o tempo disponível para o trabalho, já que os furos no gelo tendem a se fechar rapidamente.
Ainda assim, os cientistas acreditam que as informações obtidas serão cruciais para aprimorar previsões sobre a elevação do nível do mar.
Em um mundo onde milhões de pessoas vivem em áreas costeiras, entender o “relógio” da Geleira do Juízo Final pode significar a diferença entre antecipação e surpresa diante de um cenário de mudanças profundas.






