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Fungo descoberto em Chernobyl resiste à radiação e deixa todos assustados

Por Leticia Florenço
01/12/2025
Em Mais Tendências, Colunas
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Cladosporium sphaerospermum , cultivado no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, em Portugal. (Rui Tomé/Atlas de Micologia

Cladosporium sphaerospermum , cultivado no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, em Portugal. (Rui Tomé/Atlas de Micologia

Quase quatro décadas após o desastre nuclear, a Zona de Exclusão de Chernobyl continua sendo um dos ambientes mais hostis do planeta. Apesar disso, a região se tornou um refúgio involuntário para diversas formas de vida que, sem a presença humana, encontraram maneiras surpreendentes de sobreviver.

No centro desse cenário extremo, um fungo negro encontrado grudado nas paredes internas de um dos edifícios mais radioativos intrigou pesquisadores do mundo inteiro.

O fungo descoberto foi identificado como Cladosporium sphaerospermum, uma espécie que parece não apenas tolerar radiação ionizante, mas até prosperar em sua presença.

Sua coloração escura e rica em melanina levantou a possibilidade de que esse pigmento desempenhe um papel muito mais sofisticado do que apenas proteção, talvez até seja capaz de converter radiação em energia.

A ideia surpreendente da radiossíntese

Pesquisadores passaram a considerar que o fungo poderia estar realizando um processo semelhante à fotossíntese, mas usando radiação ionizante como fonte energética. Essa hipótese foi chamada de radiossíntese, um conceito que, embora fascinante, ainda não foi comprovado oficialmente.

A proposta ganhou força ao se observar que o fungo cresce melhor quando exposto à radiação, algo completamente oposto ao comportamento esperado de organismos vivos.

A primeira busca por respostas nos anos 1990

A investigação sobre esses fungos começou no fim dos anos 1990, quando a microbiologista ucraniana Nelli Zhdanova liderou uma equipe que explorou o interior das estruturas contaminadas de Chernobyl.

Lá, eles se depararam com uma comunidade inteira de fungos escuros, totalizando 37 espécies diferentes, todas adaptadas de maneiras únicas à radiação. Entre elas, o Cladosporium sphaerospermum se destacou por sua abundância e pela forte contaminação que parecia não prejudicá-lo.

Melanina

O que torna tudo ainda mais intrigante é a resistência extrema desse fungo. A radiação ionizante, capaz de destruir moléculas, danificar DNA e matar células humanas, não parece afetá-lo.

Pesquisas conduzidas por Ekaterina Dadachova e Arturo Casadevall revelaram que o fungo exposto à radiação cresce mais rápido e que sua melanina sofre alterações quando bombardeada por partículas de alta energia.

Isso sugere que a melanina pode estar envolvida em um mecanismo ainda desconhecido de aproveitamento energético.

Do reator ao espaço

A curiosidade em torno do fungo levou pesquisadores a testá-lo em ambiente espacial. Em 2022, ele foi enviado para o exterior da Estação Espacial Internacional, onde enfrentou radiação cósmica intensa.

Os sensores registraram que placas contendo o fungo deixavam passar menos radiação do que placas sem ele, reforçando sua eficiência como barreira natural.

Embora o experimento não comprove a radiossíntese, ele abre portas para aplicações em missões espaciais, incluindo o uso de microrganismos como proteção biológica.

Uma adaptação rara no reino dos fungos

Nem todos os fungos melanizados exibem o mesmo comportamento. Alguns, como Wangiella dermatitidis, crescem mais sob radiação, enquanto outros apenas aumentam a produção de melanina, sem mudanças no crescimento.

Isso indica que o C. sphaerospermum possui uma adaptação única, que pode estar relacionada a sua capacidade de transformar radiação em benefício próprio, ou apenas resistir de forma extraordinária a ela.

Apesar de décadas de estudo, os cientistas ainda não encontraram provas de que o fungo real­mente converte radiação em energia útil. Falta demonstrar ganho metabólico, fixação de carbono e outros processos essenciais que confirmariam a radiossíntese.

Mesmo assim, os indícios são fortes o suficiente para manter a comunidade científica intrigada e motivada a investigar.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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