A Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil), entidade alvo de investigações por fraudes em descontos associativos do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), tem estreita ligação com a AAB (Associação de Aposentados do Brasil), que também realiza descontos mensais em aposentadorias e pensões.
Entre agosto de 2024 e abril de 2025, a AAB recolheu R$ 28 milhões dos segurados, com uma média mensal de R$ 3 milhões. Apesar disso, a associação não está na lista das entidades investigadas pela Polícia Federal e Controladoria-Geral da União, nem teve bens bloqueados pela Advocacia-Geral da União.
Silêncio diante das denúncias
A Conafer e AAB não responderam aos questionamentos. Vale destacar que a Conafer é a segunda entidade com maior volume de descontos associativos registrados no INSS, totalizando R$ 484 milhões entre 2019 e 2024. Fica atrás apenas da Contag, que somou R$ 2,1 bilhões no mesmo período.
Segundo apuração da PF, a arrecadação da Conafer saltou de R$ 350 mil em 2019 para R$ 57 milhões em 2020, após uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal por fraudes. Em 2023, os valores chegaram a R$ 202,3 milhões, mantendo uma curva de crescimento acentuada.
Acordo e vínculos familiares sob suspeita
O acordo entre a AAB e o INSS foi formalizado em 31 de outubro de 2023, com publicação no Diário Oficial da União, e teve assinatura de André Fidelis, então diretor de Benefícios da autarquia e um dos investigados pela PF. Fidelis teria sido exonerado em julho de 2024 por atrasar uma auditoria sobre esses descontos, segundo o ex-ministro Carlos Lupi.
Do lado da AAB, assinou o acordo o presidente Dogival José dos Santos, cujo núcleo familiar mantém ligações diretas com a Conafer: sua esposa Lucineide Oliveira, também diretora da AAB, é irmã de Samuel Chrisostomo, ex-contador da Conafer, e filha de Creuza dos Santos, também diretora.
A PF investiga Samuel por sua relação com Cícero Marcelino, alvo de mandado de busca e apreensão em maio de 2025, e beneficiário de R$ 291,5 mil em transações feitas pelo presidente da Conafer, Carlos Lopes.
As investigações revelam que, embora não sejam sócios formais, Samuel, Cícero e Lucineide compartilham o mesmo endereço em diversas empresas registradas no Recanto das Emas, a 35 km de Brasília. As empresas incluem Nobre Eventos, Cunha e Santos Locação, Impacto Serviços, Cifrão Sistemas, entre outras.
Funcionários revelam sobreposição de pessoal
Colaboradores da Conafer relataram à Folha que a contabilidade da AAB era feita pela própria Conafer, e que as duas entidades compartilham funcionários em diversas funções administrativas.
Nem Cícero Marcelino, Samuel Chrisostomo, Lucineide Oliveira ou os representantes das associações responderam aos contatos feitos anteriormente. Caso haja alguma atualização, a matéria será atualizada.






