Seis meses após deixar o comando do Banco Central, Roberto Campos Neto estreia oficialmente no Nubank, onde ocupará os cargos de Vice Chairman e Chefe Global de Políticas Públicas.
A chegada do economista ao banco digital marca um novo capítulo em sua trajetória e levanta debates sobre governança, ética e os limites entre o setor público e o privado no sistema financeiro brasileiro.
Nova função e objetivos estratégicos

A partir desta terça-feira (1º), Campos Neto atuará ao lado do CEO e cofundador do Nubank, David Vélez, com foco no relacionamento institucional com reguladores internacionais, além de colaborar na formulação de estratégias econômicas globais para sustentar o crescimento da empresa na América Latina e outros mercados emergentes.
O convite ao ex-presidente do BC foi anunciado em maio deste ano, mas sua posse foi adiada para respeitar o período de quarentena obrigatória de seis meses, previsto pela legislação para impedir possíveis conflitos de interesse.
Histórico no setor público e legado no Banco Central
Indicado ao cargo de presidente do Banco Central por Jair Bolsonaro em 2019 e reconduzido após a aprovação da independência da autarquia, Campos Neto esteve à frente do BC até dezembro de 2024, quando foi substituído por Gabriel Galípolo, nome escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Durante seu mandato, Campos Neto liderou transformações significativas no setor bancário brasileiro. Entre as iniciativas mais notáveis estão a criação do Pix, o lançamento do Open Finance e o avanço da digitalização dos serviços bancários, além da consolidação de um ambiente regulatório mais receptivo à inovação financeira.
Repercussões e críticas à sua nomeação
A nomeação de Campos Neto ao quadro executivo do Nubank, embora legalmente respaldada, gerou desconforto nos bastidores de Brasília e entre representantes do setor bancário tradicional.
Fontes ligadas a instituições financeiras ouvidas sob reserva por veículos especializados sugerem que o ex-presidente teria adotado uma postura mais favorável às fintechs durante discussões regulatórias — o que, agora, levanta suspeitas de favorecimento.
A polêmica aumentou com a revelação de que Campos Neto teria influenciado a escolha de Ana Carla Abrão para comandar a estrutura do Open Finance no Brasil, tendo sido apoiada por uma votação interna da qual o próprio Nubank participou.
A movimentação foi vista como uma possível antecipação de alianças estratégicas, ainda quando ele ocupava o cargo de regulador do sistema.
Comparações com antecessores
Diferentemente de seus predecessores, que adotaram percursos mais distantes de instituições diretamente afetadas por suas gestões, Campos Neto foi o primeiro ex-presidente do BC a assumir uma função executiva em um banco supervisionado tão logo sua quarentena chegou ao fim.
Para efeito de comparação: Ilan Goldfajn, por exemplo, foi para o conselho do Credit Suisse e, em seguida, ao FMI; Alexandre Tombini também seguiu carreira no Fundo Monetário Internacional; Henrique Meirelles liderou a Autoridade Pública Olímpica antes de retornar à política.
A entrada de Campos Neto no Nubank poderá moldar os próximos debates sobre ética pós-mandato, relação entre reguladores e mercado, e os limites da porta giratória entre o setor público e as big techs financeiras.






