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Concorrência com Shopee força Mercado Livre a sacrificar margem

Por Leticia Florenço
06/08/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Shopee e Mercado Livre - Reprodução

Shopee e Mercado Livre - Reprodução

A competição entre os gigantes do comércio eletrônico na América Latina atingiu novos patamares.

No segundo trimestre de 2025, o Mercado Livre apresentou um crescimento robusto em receita e volume de vendas, mas esse desempenho veio acompanhado de um sacrifício em sua margem operacional.

A razão? O avanço agressivo da Shopee, especialmente no Brasil, forçando o líder regional a redobrar esforços para defender seu território.

Receita em alta, lucro abaixo do esperado

Com uma receita de US$ 6,8 bilhões no trimestre, acima das expectativas dos analistas, o Mercado Livre mostrou vigor no faturamento. O lucro líquido subiu 14%, alcançando US$ 523 milhões. No entanto, esse número ficou aquém do consenso, que apontava para US$ 612,5 milhões.

O principal motivo da frustração do mercado foi a margem operacional, que caiu de 14,3% no ano anterior para 12,2%, refletindo investimentos pesados em marketing, subsídios para lojistas e mudanças logísticas.

Um dos movimentos mais ousados da empresa foi a redução do valor mínimo para obter frete grátis: de R$ 79 para R$ 19 no Brasil. A decisão teve impacto direto na taxa de conversão e no engajamento dos consumidores.

Segundo Richard Cathcart, diretor de relações com investidores, trata-se de uma ferramenta poderosa para fidelização, e o efeito completo desse ajuste ainda será sentido no terceiro trimestre.

A mudança veio acompanhada de uma campanha publicitária massiva, estrelada por Neymar e Ronaldo Fenômeno, que buscou reforçar a imagem do Mercado Livre como destino preferido de compras online.

A empresa também reduziu o custo do frete para os vendedores, incentivando maior oferta de produtos e atraindo lojistas de diferentes tamanhos para a plataforma.

Investimento publicitário em múltiplas frentes

Além da ofensiva no e-commerce tradicional, o Mercado Livre aumentou sua presença publicitária no segmento financeiro.

O Mercado Pago, braço digital do grupo, lançou uma campanha nacional com a cantora Anitta, o que elevou o reconhecimento da marca como banco digital e impulsionou o maior crescimento de depósitos já registrado no Brasil.

A publicidade se tornou um pilar estratégico tanto para reter usuários quanto para fortalecer o ecossistema do grupo.

Crescimento sólido no Brasil, México e Argentina

O GMV (volume bruto de mercadorias) alcançou US$ 15,3 bilhões no trimestre, um avanço de 21% em dólares e de 37% em moeda constante. No Brasil, que continua sendo o principal mercado, o crescimento foi de 29%, impulsionado diretamente pela nova política de frete grátis.

No México, segundo maior mercado do grupo, o GMV cresceu 32%, com destaque para o aumento de 36% nas unidades vendidas, a maior taxa de crescimento dos últimos dois anos.

Na Argentina, apesar da desaceleração para 75% no GMV (frente aos 126% do trimestre anterior), o desempenho ainda é expressivo. A desaceleração, segundo Cathcart, reflete a queda da inflação local, o que, embora afete os valores nominais, indica uma melhora no ambiente econômico do país.

Mercado Pago dispara e se consolida como banco digital

O braço financeiro da companhia também teve um trimestre histórico. Com 68 milhões de usuários ativos, o Mercado Pago viu sua receita líquida atingir US$ 3 bilhões, registrando alta de 12% em dólares e de 63% em moeda constante.

O crescimento mais impressionante veio da carteira de crédito, que avançou 91% no ano, alcançando US$ 9,3 bilhões.

A expansão dos cartões de crédito, que agora representam 43% da carteira, foi um dos principais motores do crescimento. O volume dos cartões subiu 118%, chegando a US$ 4 bilhões.

Notavelmente, esse avanço aconteceu com melhora na qualidade dos ativos: os atrasos entre 15 e 90 dias caíram de 8% para 6,7%, sinalizando uma evolução nos critérios de concessão.

“Crescimento sustentável”, mesmo com pressão da concorrência

A mensagem de Richard Cathcart é clara: o foco da companhia está em garantir a sustentabilidade e a liderança a longo prazo, mesmo que isso implique em resultados menos favoráveis no curto prazo.

Em suas palavras, “não fazemos a gestão do negócio para atingir uma margem específica de curto prazo”. A visão de longo prazo se reflete nos investimentos massivos em logística, marketing e tecnologia, elementos fundamentais para manter a vantagem competitiva frente à Shopee.

A reação do mercado e os próximos passos

Apesar do crescimento, as ações do Mercado Livre recuaram cerca de 6% após a divulgação dos resultados. A frustração com o lucro abaixo do esperado e a compressão da margem pesaram sobre o sentimento dos investidores.

Ainda assim, a companhia segue como a mais valiosa da América Latina, com valor de mercado superior a US$ 121 bilhões e alta acumulada de 40% no ano.

O desafio que se impõe agora é continuar entregando crescimento em um cenário cada vez mais competitivo e com margens mais apertadas.

O Mercado Livre parece disposto a pagar o preço necessário para defender sua posição de liderança, e aposta que, com uma base sólida e estratégias assertivas, colherá os frutos desse esforço no futuro.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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